As paixões – da vida ou da substância

Uma paixão é «um extra de vida». As paixões dão um sentido à existência, uma satisfação.

Podemos pensar, com Lacan, três paixões: o amor, o ódio e a ignorância. São três soluções para tratar alguma coisa, dando «um extra de vida».

O amor e o ódio, segundo as teorias de Freud, são duas maneiras de tratar uma ligação, de estar em relação com o objeto. O amor é a proximidade, a intenção de cuidar, a vontade de estar junto. O ódio é ainda uma ligação, mas uma ligação que quer destruir, que quer consumir o objeto, colocar fim à sua existência, fazê-lo desaparecer.

A paixão da ignorância é um não querer saber, não querer saber nada do objeto ou de si mesmo. É uma tentativa de separação, de deixar o Outro de lado, de se separar dos efeitos de ligação. Ainda, é não querer saber nada do Outro, não querer saber do que falha na linguagem, não querer saber nada sobre o desejo.

A língua não cola à coisa. Não podemos dizer tudo, há sempre alguma coisa que a língua não apanha. Dito de outra maneira, quando se fala, produz-se algo que escapa à língua, que escapa ao tratamento que a linguagem pode dar ao corpo e à vida. A linguagem não abarca tudo, ela deixa uma parte aberta, uma parte sem satisfação e sem tratamento, uma brecha aberta pela qual escapa algo do ser vivo. Esta brecha pode inquietar, angustiar, fazer barulho.

A paixão da ignorância é rejeitar o fato de que a língua não cola à coisa, rejeitar o fato que a língua falha no seu objetivo de tratar a totalidade do vivente. A paixão da ignorância é nada querer saber dessa brecha que resta aberta pela língua. É uma tentativa de se separar da língua e de seus efeitos, de deixar de lado o Outro da linguagem, do social, do saber.

Como se separar completamente do Outro? As substâncias (as drogas, os medicamentos, a comida) vêm para produzir o esquecimento, o apagamento. As substâncias vêm vestir a brecha, vêm no lugar daquilo que escapa à linguagem para lhe dar um contorno. As substâncias são uma tentativa de tornar suportável o que resta mudo, o que não é possível de dizer pela língua. Isso faz um revestimento do inquietante e da invasão, por consequência, um alívio. Desta maneira, a substância é um tratamento, uma forma que o sujeito inventou para tratar isso que ele não conseguia tratar em si mesmo. É uma solução – que falha também e de novo. Falhando, ela abre a possibilidade de outras soluções, de outras alternativas ao consumo de substâncias pela invenção de uma outra maneira de fazer.

Se a brecha – que inquieta, angustia e faz barulho – pudesse ser tratada de outra maneira e convertida em desejo, poderíamos, talvez, sair da paixão da ignorância e ser reconduzidos à paixão do amor – um novo «extra de vida»!

Após a conferência de Catherine Lacaze Paule em Bruxelas, durante a 26ª Journée du TyA en Belgique, com o título «Paixão da Substância»

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