Categoria: Gestação e Parto

  • Ir Além do Espelho

    «L’amour, c’est donner ce qu’on n’a pas à quelqu’un qui n’en veut pas.»

    Jacques Lacan1

    Ter um filho é uma oportunidade de olhar para si mesmo, um impulso e uma força para fazer as mudanças que sempre desejamos mas que sempre deixamos para trás. Não é incomum encontrar pessoas que, quando descobrem a gravidez, resolvem mudar de casa, mudar a casa, mudar de cidade, mudar de estilo, mudar… Mudar-se de uma maneira geral. Mudar-se para acolher uma outra pessoinha que irá dividir a vida.

    Quando a criança chega, começa a transmissão cultural: tudo aquilo que temos como nossos padrões, hábitos, ferramentas para lidar com os sentimentos e escolhas de vida começam a ser transmitidos. Essa transmissão não se dá simplesmente pela via da educação, como se pretende dizer com «educar os filhos». Essa transmissão se faz por uma via de convívio, de transmissão, de fazer junto, de como fazer com o encontro e no encontro. Ousaria dizer que o encontro dos pais com os filhos provoca a transmissão de uma Ética.

    Frente ao que estamos transmitindo, podemos nos observar e observar o que estamos transmitindo, como estamos transmitindo, que resultados esperamos e conquistamos com o que transmitimos. Todavia, junto com a observação, normalmente vêm os julgamentos e as exigências, inclusive as que herdamos dos nossos pais e da cultura que estamos inseridos. E assim surge a violência: a exigência de amar igualmente os filhos, de tratá-los como se fossem iguais entre si, de julgar o que nossos pais fizeram de certo ou errado conosco, de esconder dos filhos que temos amores de diferentes medidas, de julgar os amores que damos para cada um deles…

    Tomo como ponto de partida o texto «Sobre as diferenças entre os filhos e o amor»2 da psicóloga Pollyana Mendonça. Quero dialogar com esse texto, um texto que me fez pensar e me pôs em movimento para escrever estes apontamentos. Apontamentos não prontos, não fechados que me servem para pensar o que faço e lapidar o que faço.

    Filhos como espelho

    «Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças…»3. Cada filho reflete algo de nós. Se estivermos disponíveis no encontro com os filhos, podemos ter uma ideia do que somos a partir da maneira como nossas ações os afetam. E ainda podemos observar o que as ações desse outros seres nos despertam e como elas nos tocam.

    Ana Thomaz, em «O que Aprendi com a Desescolarização»4, fala de sua técnica de observar as próprias sensações e emoções no seu encontro com as filhas.

    «O que o encontro me deu foi o conhecimento de mim mesma, de algo que estava ali guardadinho.»5

    Essa técnica tem dois momentos.

    O primeiro momento é observar os próprios sentimentos e trabalhar com eles para resolver e liberar os próprios bloqueios antes de se direcionar às filhas.

    «Elas continuavam com o problema delas. Paciência! Elas não tinham uma mãe pronta para entrar em contato com elas, pois eu ainda tinha que entrar em contato comigo. … Esperava isso vir à superfície e liberava, só de vir à superfície você libera.»6

    O segundo momento, já liberada das questões pessoais, ela se direciona ao encontro com as filhas para tratar das questões delas, para acolher as filhas num processo de fluxo livre. Desse encontro em fluxo livre vinham insights que ajudavam-na a se relacionar com a situação, soluções sempre inéditas vindas do contato e do encontro.

    O essencial é a diferença

    «O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.»7

    Temos o hábito cultural de comparar e, quando temos dois filhos, é comum o uso da comparação. Aí que o problema aparece: a comparação institui um modelo, um certo e um errado, um julgamento. E, assim, estão lançadas as bases para o início da violência…

    Cada filho despertará emoções e sensações diferentes nos pais. Cada filho é uma pessoas diferente e proporciona um encontro diferente. Mesmo sendo irmãos, os filhos terão jeitos diferentes, nascerão em tempos diferentes, com pais em momentos distintos de maturidade ao longo da vida. Inclusive, cada filho terá uma forma físicas particular. Mesmo os gêmeos idênticos darão relações diferentes e experiências diferentes.

    Há sempre o irredutível temporal que cria memórias e sensações diversas. A relação com cada um dos filhos é diferente, criando traços na memória da mãe e construindo a maneira como ela vê, reage e sente cada um dos filhos.

    Cultivar a diferença para que o outro apareça

    «A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.»8

    É na diferença que nos percebemos como sujeitos. É no contato com o outro diferente que pode aparecer aquilo que é singular em cada um, o que é próprio em cada um, o que é único. Os pais encarnam esse diferente, os irmãos também.

    Haverá sempre diferenças entre os filhos, diferenças fundamentais para que se crie o individual e o pessoal de cada sujeito. Respeitar e acolher essas diferenças próprias de cada serzinho contribui para que a personalidade de cada um possa aparecer, advir e se construir. Ao tentar a igualdade, de uma certa forma desconsidera-se o individual e particular de cada um.

    O essencial é a diferença!

    Considerar a hipótese de que amar os filhos de maneiras diferentes pode ser algo positivo, pois se acolhe o aparecimento daquilo que é próprio de cada um. Mas há outra vantagem em considerar a hipótese de amar os filhos de maneiras diferentes: tornar possível a relação dos filhos com aquilo que o próprio deles cria e desperta nos pais. Tento de uma outra maneira: possibilitar que eles se desenvolvam com o que eles despertam nos pais por serem como são.

    Certamente cada um dos pais agirá de maneira diferente frente ao particular de cada filho devido ao seu próprio particular de pai-mãe. Ao nos relacionarmos com eles do jeito que eles são, fato que nos despertará emoções diversas, eles terão espaço para serem eles mesmos e aprenderem a lidar com as próprias emoções frente aos pais.

    «…provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.»9

    Seria possível ir além de si mesmo e disponibilizar uma maneira outra de acolher o outro?

    Ir além do espelho

    Acima descrevi a técnica que a Ana Thomaz utilizava. A técnica tinha dois tempos: o primeiro é a relação interna; o segundo, a relação externa, a relação com o outro, com os filhos.

    Filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço dedicado exclusivamente ao autoconhecimento. Penso que, para criar um filho, é preciso que os pais se coloquem à disposição dele, coloquem-se em relação para que ele possa se construir a partir do encontro com os pais. Todavia, colocar-se à disposição não é algo passivo e sempre contém uma transmissão, uma transmissão ética que vai muito além do que se educa ou do que se ensina.

    O próprio processo de descobrir-se, pensar-se como pai-mãe e pensar-se como sujeito no encontro com os filhos já é, por si só, uma transmissão, a transmissão de um modo de pensar sobre si.

    «O que elas começaram a ter contato é com uma mãe que se trabalha desta maneira enquanto está enfrentando algum problema. Então eu comecei a perceber que elas estavam entendendo, sem que eu falasse nada, […] que eu faço alguma coisa. […] E eu comecei a perceber que eu estava ensinando indiretamente o processo para elas.»10

    Não é preciso ensinar passo a passo. Os filhos, ao verem os pais no próprio processo, perceberão que algo se passa ali e entenderão esse processo pelo contato.

    «Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar».11

    Retomo que os filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço exclusivo de autoconhecimento. É preciso ir além de si mesmo e da observação de si, colocando-se à disposição para que o outro possa advir. É preciso uma maneira de acolher a singularidade e individualidade de cada filho para ajudá-lo a nomear-se, ajudá-lo a criar ferramentas simbólico para tratar dele mesmo, das suas emoções, das suas sensações e das suas atitudes.

    É preciso ir além do espelho!

    O que se manteria igual para todos os filhos?

    Ir além do espelho é permitir que uma outra instância se instaure, que uma outra forma de estar apareça. Esta outra forma de estar eu chamaria de «Escuta Empática», um tipo de escuta e presença que acolhe o singular de cada filho sem julgamento, que acolhe o diferente de cada um para que o diferente de cada um possa se desenvolver. É uma escuta em que os pais se colocam com a atenção voltada às necessidades, pedidos e desejos dos filhos.

    «Empatia é a capacidade de observar e estar presente sem concordar ou discordar.»12

    Assim é como Dominic Barter define Empatia, uma escolha consciente que experimenta os limites da capacidade de entendimento na comunicação. Assim, a «Escuta Empática» seria uma escolha consciente de sustentar uma posicionamento de escuta frente ao outro na tentativa de remover os bloqueios para a ação.

    Ir além do espelho é estar fora dessa relação pessoal onde o espelho refletiria o que supostamente se é, estar fora do jogo violento de julgamento sobre o que estou fazendo como pai-mãe e da observação especular de quais são as emoções que isso desperta em mim.

    Ir além do espelho é colocar-se na escuta do outro. Na medida do que é possível, é colocar-se dentro da lógica do outro, colocar-se à escuta do que o outro busca nele mesmo e nas relações com os demais.

    Atravessando o espelho

    Nesse encontro de Escuta Empática se faz a transmissão, o que neste momento considero o fundamental da função dos pais: transmitir aos filhos as ferramentas para que eles lidem com as próprias emoções, com as próprias sensações, com os próprios medos, pensamentos, conflitos, sombras, angústias, desejos, ânsias, vontades, gozos…

    Enquanto o pai-mãe estiver dentro de si mesmo e enrolado com as imagens criadas frente ao espelho, acredito que terá uma certa dificuldade de perceber o que se passa dentro dos pequenos (ou grandes, às vezes), o que está lá dentro e quais são as ferramentas que podem ajudar na construção do que está lá dentro.

    Talvez isto seja aquilo que se pode dar de igualdade para todos os filhos: um espaço onde cada um deles pode se mostrar e ser na sua singular, um espaço para ouvir e acolher o que há de mais diferente em cada um deles, para ouvir e acolher o que há de singular.

    A Escuta Empática é uma proposta de ir além do espelho…

    Seria esta uma manifestação do Amor?

    02/Jun/2018

  • Tem que Ser

    Mandando uma mensagem à mãe do meu filho, para pensamos sobre as supostas «teimosias» do nosso pequeno, me deparo comigo tentando me livrar da expressão «tem que»: tem que vestir a roupa, tem que comer, tem que sair agora…

    No livro «Comunicação Não-Violenta», Marshall Rosenberg pensa a expressão «tem que» ou «ter de» como parte do que ele chama de comunicação alienante da vida.

    «Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.»

    Primeiro, esta expressão instala uma instância que julga e que ordena, que impõe um certo e um errado independente da situação. Um ponto importante na Comunicação Não-Violenta é evitar «julgamentos moralizadores», ou seja, tentar observar sem  julgamento de certo e errado. O «julgamento de valor» depende de um determinado contexto e de uma determinada situação, situação que não é estática e que só acontece naquele momento e naquelas condições.

    Segundo, esta expressão desresponsabiliza quem toma a ação, como se houvesse algo pré-definido para acontecer, como se as vontades em jogo naquele momento devessem ser excluídas para que esse algo pré-determinado aconteça.

    Todavia, mantêm-se uma certa ordem, uma diretriz, um guia ou alguns parâmetros pessoais de conduta. É preciso ter um direcionamento, só que esse direcionamento é uma escolha responsável, uma escolha de conduta feita de maneira consciente (na medida do que é possível). A expressão «tem que» desresponsabiliza frente à escolha, a escolha não é feita, não há a escolha com o «tem que».

    Durante a mensagem, consegui articular o que queria usando a expressão «é assim que escolhemos e é assim que vamos fazer». Não há a obrigação do «tem que ser», há uma escolha autêntica: «escolhemos assim e assim vamos fazer». O Marshall sugere utilizarmos a expressão «eu opto por fazer isso porque desejo algo com esta ação».

    Essa escolha pode ser um acordo entre os pais e as crianças ou uma escolha isolada dos pais.

    Sim, ao assumirem a função de cuidadores, os pais precisam fazer escolhas que, em alguns momentos, podem contrariar as vontades das crianças ou mesmo fazer escolhas que parecem autoritárias.

    Aqui reside a diferença: os pais escolhem cuidar dos filhos e escolhem tomar as atitudes. Não há o «tem que ser» das expressões «os pais têm que ser autoritários e impor limites» ou «os pais têm que ouvir os filhos». Substitui-se o «tem que» pela escolha que os pais fazem de cuidar dos pequenos, com total responsabilidade pelos atos e escolhas, com a liberdade (na medida que lhes é possível) e com a clareza que têm para tomar as suas atitudes.

    Assim, a decisão que pareceria autoritária, vinda de um lugar não identificado e externo a quem decide, transforma-se numa decisão própria de quem decide, uma decisão por fazer algo porque se deseja alguma coisa. «Por nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis», diz Lacan. E Jorge Forbes completa: «’Sempre’, diz ele, não de vez em quando ou dependendo da intenção, do conhecimento ou de qualquer outra variável. Se o sujeito é sempre responsável, não haverá sujeito sem responsabilidade.»

    Seria possível não ser autoritário?

    Vêm dois apontamentos, duas diretrizes:

    Se a decisão pode mudar ou ser flexibilizada para atender às vontades das crianças, o que impede de fazer um novo acordo com os pequenos? Porque não ouvir e acolher a voz dos pequenos?

    Se a voz dos pequenos não pode ser acolhida por alguma razão que os pais sabem (como a segurança e integridade dos pequenos), que os pais tomem a decisão. Todavia, é preciso verificar se é a voz do «tem que ser» ou se é a voz dos pais quem está tomando a decisão!

    Se, por escolha, a decisão pode ser flexibilizada, tudo bem: escutemos os pequenos.

    Se, por escolha, a decisão não pode ser flexibilizada, tudo bem também: aplica-se a ação mesmo a contragosto dos pequenos – com acolhimento aos sentimentos de contragosto e frustração dos pequenos.

    O que não pode é a falta de escolha, a desresponsabilização pelas atitudes. O que não pode é o «tem que ser». Finalizando (e brincando), a responsabilidade «tem que ser» de quem escolhe.

    Como nos diz Sartre, o que não é possível é não escolher: «a escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.»

    06/Abr/2018

  • Chorar para aprender a dormir?

    A hora de dormir sempre é um pesadelo acordado. Como lidar com o choro dos bebês na hora de dormir? O tema é amplo mas é preciso partir de algum lugar.

    Introdução

    Eis um começo: qual é a forma de comunicação que um bebê tem com o seu cuidador?

    Como ele manifesta que algo não vai bem?

    Qual é a ferramenta do bebê para pedir comida, pedir carinho, avisar que está com dor, avisar que está com sono, avisar que algo vai mal, avisar que está com medo, avisar que está inseguro, avisar que está com frio, enfim, dizer que precisa de ajuda?

    Se você respondeu choro, concordamos neste aspecto.

    Se você respondeu outra coisa, me conte pois quero descobrir novidades.

    A condição humana

    O choro é a manifestação de que o bebê precisa de algo. O bebê humano está inteiramente dependente de alguém que o proteja e que supra as suas necessidades fundamentais para que sua vida seja mantida. Não somos girafas que já nascem andando e aprendem rapidamente a comer grama. Na Psicanálise, o choro é fundamental na aquisição da linguagem, da comunicação, da construção psíquica, ou seja, na transformação deste bebê em humano.

    O anúncio do problema

    O choro é a principal ferramenta das necessidades de um bebê que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite. Tal como um adulto: quem nunca levantou de madrugada para comer algo? Quem nunca acordou no meio da noite querendo um abraço gostoso e quentinho? Quem nunca ouviu um barulho estranho durante a noite e se assustou?

    A chegada do problema

    Há vários manuais e livros ensinando a fazer o bebê dormir, muitas teorias, estudos científicos, conselhos, consultores. Alguns dizem que devemos deixá-los chorar para que aprendam a dormir sozinhos. Até se dizia que os franceses deixavam os filhos chorarem para aprender a dormir – bom, posso garantir que não foi bem assim que meus amigos franceses fizeram!

    Se o choro é uma tentativa de comunicação, o que acontece se não atendemos, se não damos atenção e deixamos o bebê sem amparo?

    O bebê chora pedindo ajuda. A ajuda que sempre chegava não chega. Ele continua chorando e a ajuda que era esperada não chega. E ele chora mais e a ajuda ainda não chega e chora mais e ela não chega… até que ele cansa e, exausto e desamparado, dorme.

    A primeira derrota do protagonista pequeno

    Não, ele não aprendeu a dormir sozinho! Ele chorou tanto que está cansado, desistiu de pedir ajuda. Foi uma grande batalha que gerou uma grande quantidade de estresse (adrenalina, cortisol e tudo mais). E isso se repete por vários dias, sistematicamente.

    Numa pesquisa rápida à Wikipédia: «a exposição de longo prazo ao cortisol resulta na danificação das células do hipocampo. Este dano leva à diminuição da capacidade de aprendizagem.» Agora uma pergunta um pouco séria: quais são os danos deste choro no desenvolvimento do bebê? E esta é apenas uma parte do negócio…

    A primeira derrota do protagonista grande

    Como você se sente deixando seu filho chorar até cansar e dormir?

    Será que você não fica minimamente angustiado?

    Será que o choro não te incomoda ou provoca uma leve descarga de adrenalina?

    Será que você não chora junto, mesmo que «por dentro», afinal «homem não chora!»?

    O sentimento de culpa e arrependimento

    Há mesmo uma grande razão para não amparar o choro do seu bebê?

    Há mesmo uma grande razão para negar um pouco de cuidado a uma pessoa querida que chora?

    O que você faria se uma pessoa que você gosta muito estivesse chorando? Você a deixaria sozinha chorando para que «aprenda» sozinha a lidar com a situação?

    O que dizem os seus instintos de pai (ou mãe)?

    Que tal acreditar um pouco nessa beleza que a natureza e a cultura nos deram: comunicação, choro, fala, linguagem, afeto, carinho, cantigas de ninar, cuidado!

    A solução desponta (com música de esperança)

    Está pesado? Está duro?

    Mas lá no horizonte o sol brilha em forma de soluções!

    A primeira é acreditar em você, nas suas sensações, nas suas vontades, nas suas busca por informações e por pessoas que te inspiram.

    A segunda solução é colocar o bebê no quarto dos pais e gastar menos energia para atender as demandas do bebê. Consequentemente, o bebê perto otimiza e aumenta as horas de sono dos pais – que já são poucas – e ainda melhora a qualidade do sono: tudo está mais próximo, nítido e suave.

    Berço ao lado da cama dos pais ou a «Cama Compartilhada» são alternativas. Seja qual for a sua opção ou possibilidade, nada é mais fácil e gostoso do que esticar o braço para o lado e tocar no seu bebê…. E dormir com a mão nele fazendo carinho!

    Fiquem tranquilos que eles não irão dormir na cama dos pais até os 30 ou 40 anos. O meu pequeno, no alto de seus 2 anos, já pedia para ir dormir na sua cama. Além do mais, a adolescência chegará, marcará a independência e, também, o espaço privado onde nenhum pai (nem mãe) é bem-vindo.

    O final feliz

    Aproveitem a proximidade, aproveitem o carinho. E deem carinho, e deem afeto, e deem atenção, e atendam aos choros. Empatia com as necessidades dos bebês pois eles são apenas pessoas pequenas.

    E isto não acaba aqui: ainda sobra muito para pensar sobre choro, manhas, birras, ataques, chiliques, manipulações e joguetes das crianças e dos bebês.

    Coda

    P.S.: Recomendo o vídeo «Não Deixe Seu Bebê Chorando para Dormir» do «Paizinho, Vírgula»!

    07/Jun/2017

  • Pai: criar suas crias com criatividade

    De que maneira um pai se relaciona com o seu bebê?
    Seria possível uma relação de intimidade e afeto que forme uma entidade chamada pai-bebê?

    Tudo se passa fora do corpo do pai. Ou melhor, tudo se passa fora e, ainda por cima, escondido dentro do corpo da mãe.
    «No princípio era o verbo»: nas 38 até 42 semanas de gestação, toda notícia que um pai pode ter do seu filho vem pela narrativa e pela fala da mãe. Antes de nascer, o ser já é falado.

    Depois do nascimento, na cultura comum, digo, no senso comum, o pai não participa ou participa pouco de todos os processos com o bebê. O envolvimento do pai só acontecerá mais tarde quando a criança já anda, fala, corre e pode ir jogar bola no parquinho.

    «Normalmente, o pai não participa do sono do bebê porque é dito que o bebê “só dorme no peito” e, por mais que essa condição seja cômoda para o pai, pode ser extremamente aprisionante para a mãe.»

    Aprisionante para a mãe e aprisionante para o pai também! O pai fica aprisionado nas barreiras e limitações impostas pelo social: fraldários são só no banheiro feminino pois homem não troca fraldas, homem não chora, não faz papinha, não se emociona, não fala de sentimentos…

    Mesmo que seja cômoda, esta condição passiva e de expectador obriga o pai a ver seu filho só de longe, sem envolvimento. É afastado do filho e ainda perde a mulher que está completamente imersa no ato de ser mãe e fundida com o bebê e suas demandas.

    Assim, a entidade mãe-bebê é algo afastado do pai que está isolado no seu canto, com dois pedaços arrancados dele: a mulher e o filho.

    Para a sorte dos homens, essa exclusão tomba quando a criatividade cria um papel de pai que se envolve na criação da cria. CriaAção: pôr-se em ação para sua cria.

    Da mesma maneira que a entidade mãe-bebê descobre como amamentar e dormir, a entidade pai-bebê pode descobrir também. E nessa descoberta, o pai pode fazer todas as tarefas da mãe.

    Mas alguns gritarão: o homem não amamenta!… Isto lá é verdade. Uma verdade parcial, pois o pai pode acordar de madrugada, pegar o bebê, levar até a «distribuidora de leite» (a mãe, chamada assim de propósito e com imenso afeto!), fazer todos os preparativos de retorno à cama (fralda, arroto, etc.) e colocar o pequeno para dormir. A mãe irá agradecer por esses minutos extra de sono! A rotina de amamentação é dura…

    Cada uma das entidades terá maneiras diferentes de fazer as tarefas.
    Cada entidade terá características e afetos próprios.

    Maior diversidade: quem ganha é o bebê que dispõe de diferentes pontos de amparo!

    «Bebês não dormem “apenas” no peito, mas os pais (e os bebês) precisam entender que eles não vão dormir da mesma forma que um bebê dorme com a sua mãe.

    Aqui entra a criatividade do pai, que precisará descobrir sua própria maneira de fazer seu filho dormir.»
    Eis o convite aos pais: criar suas crias com criatividade!

    30/Mai/2017

  • Papel do Pai – Parto Alegre

    «O Pai deve dar suporte à Mãe durante a gestação e parto»: isso é o que ouvimos toda vez que se fala sobre o papel do Pai na gestação. Mas, quem dá suporte ao Pai em seus medos, angústias e inseguranças?

    Esta pergunta eu escuto há mais de três anos, desde o grupo de gestantes que frequentei durante a gravidez do meu filho. Os pais também têm suas transformações físicas e mentais durante este período de gestação. Um pai também é gestado durante esses meses de barriga. Mesmo que muitos só se entendam pais depois de verem seu filhos nascidos, esses homens já estão em processo junto com suas companheiras mesmo que não percebam ou admitam.

    Pensando nos pais, o grupo Parto Alegre propôs um encontro para tratar do «Papel do Pai». Que grande surpresa foi ver a sala cheia! Eram casais grávidos e futuros pais sem as suas companheiras (sim, alguns homens foram sozinhos!). Para mim, isso indica a importância do tema e mostra a busca dos homens gestantes por um grupo que proporcione informação e suporte.

    Dois pais no brindaram com a narrativa dos seus partos, cada um à sua maneira, com suas peculiaridades, com seus afetos, com suas limitações, incapacidades, medos e virtudes. Por isso, repletos de invenções e atitudes próprias, firmes, singulares e decididas. E, na roda, contribuições vivas de outros pais que também estão em gestação e que já tiveram filhos.

    Na roda, também, vimos e ouvimos homens com diversas emoções: os de 21 semanas; os de 36 semanas e meia; os angustiados com o sofrimento da temida Dor do Parto; os ávidos por informações para tudo saber e acabar com os imprevistos; os inseguros que tremem e mal conseguem falar dos seus medos; os que temiam o parto domiciliar mas que, ao final, disseram como se fossem o filho: «papai, eu quero nascer em casa!».

    Uma diversidade de pais em gestação, cada um sentindo no próprio corpo as transformações causadas por aquele ser que está sendo gerado no corpo da companheira.

    Hoje, o pai pode exercer qualquer função na gestação, parto, criação e cuidado com os filhos. Não há um modelo de pai que possamos seguir. Também não disse que este pai é um ser todo-poderoso, que tudo pode e tudo consegue. Pelo contrário, é um homem que entende e assume que não pode tudo!

    E esta é a grande transformação. Por perceber que não pode tudo, surge-lhe uma nova possibilidade: ele pode escolher e executar diversas funções na Gravidez, no Parto e, já com seu filho no colo, no Pós-Parto. Inclusive, pode escolher assumir e escolher o ele que não é capaz de cumprir, respeitando a si mesmo e ajudando a gestante na busca de pessoas que estejam ao seu redor para ajudá-la durante o trabalho de parto.

    Só não dá para amamentar, afinal, Pai não tem leite. Mas já ouvi o relato de um pai que colocava o bebê no seio da mãe enquanto ela dormia, depois fazia o ritual de arrotar e dormir. Mesmo não tendo leite, este pai pode se envolver diretamente com a amamentação. O homem, a partir da sua falta, da sua incompletude, a partir da inexistência das funções obrigatórias de um pai, pode inventar uma maneira sua – própria e singular – de lidar com o bebê. Tal como ouvi de um pai: «então quer dizer que… eu posso inventar um jeito de ajudar a minha filha a dormir?».

    Longe de esgotarmos o assunto, ficou o gosto de Quero Mais!

    Ficou, também, a proposta de criação de um grupo de pais em Porto Alegre para tratar da Paternidade Ativa. Um espaço-tempo para cultivar a singularidade de cada Pai, com consequência em cada casal, em cada parto e cada nova vida que nasce. Proporcionar um espaço para que se crie o Homem-Pai de cada um em cada um. Proporcionar um espaço para que se percebam os limites e as potencialidades de cada um, cultivando o afeto. E porque não dizer, cultivar o Masculino?

    Foi emocionante estar com essas pessoas em transformação, pessoas que se preparam para receber e cultivar as novas vidas que já estão em gestação dentro de seus corpos, mentes e corações. Homem também chora, sente medo e tem coragem. E ama!

    «Boa Hora» a todos os homens e suas mulheres que estiveram neste encontro!

    Texto escrito após o encontro do grupo Parto Alegre sobre o «Papel do Pai».

    27/Mai/2017