O Universal e o Singular na Psicanálise – Télévision

«”que posso saber?” Resposta:

nada que não tenha a estrutura da linguagem, de todo modo, donde resulta que até onde irei dentro desse limite é uma questão de lógica.»

Lacan, Televisão, p. 534

«Quanto ao sujeito do inconsciente, ele engrena sobre o corpo. Será preciso repisar que ele só se situa verdadeiramente a partir de um discurso, ou seja, daquilo cujo artifício cria o concreto, e como!

… a partir do saber que ex-siste para nós no inconsciente, mas que só é articulado por um discurso…».

Lacan, Televisão, p. 535.

Estrutura de Linguagem

O que é universal para a Psicanálise é a estrutura da linguagem, a linguagem que está no corpo dos humanos falantes, no corpo dos seres de linguagem.
E o Discurso do Mestre é a concepção teórica que sistematiza esta estrutura de linguagem.

Todos os seres falantes são afetados pela linguagem, facto que traz consequências comuns a todos, principalmente a consequência de possibilitar a existência do Inconsciente.

Discurso do Mestre e estrutura da linguagem

Discurso do Mestre

O Discurso do Mestre é o discurso que aponta a estrutura de linguagem que se engrena sobre o corpo do ser falante. Podemos dizer que o Discurso do Mestre é o discurso do Inconsciente. Esta é a parte que vale para todos, o axioma de partida da Psicanálise: todos falam e todos são afetados pela linguagem.

Mas o Discurso do Analista não é o Discurso do Mestre. É preciso uma torção no Discurso do Mestre para que se instaure o Discurso do Analista e para que, com isso, advenha o singular de cada sujeito.

Universal e singular

A estrutura da linguagem que engrena o corpo dos falante é representada pelo Discurso do Mestre, um mecanismo universal que equipa todos os seres falantes. Este equipamento precisa ser adquirido por cada um após o nascimento. Quando a estrutura da linguagem engrena no corpo, um produto se faz: surge um resto, que é efeito da linguagem.

Desse mecanismo universal se produz algo singular, se produz uma sobra, um resto. A esse produto singular chamamos objeto a. O objeto a é produzido a partir da estrutura da linguagem e é único para cada um. Ele é Imaginário pois só pode ser apreendido de maneira indireta (a escrito em itálico por Lacan), é Simbólico pois é produzido pelo efeito dos significantes no corpo (Discurso do Mestre), é Real pois contém algo do gozo.

Discurso do Analista e o singular

Discurso do Analista

O Discurso do Analista coloca como agente o produto resultante da engrenagem do Discurso do Mestre num corpo. Ou seja, o que é produzido como sobra entra no Discurso do Analista como agente do discurso.

Dessa maneira, a Psicanálise trabalha com aquilo que é singular a cada um e atua no campo da singularidade, não mais no campo do universal. Essa torção feita pelo Discurso do Analista permite a saída do todo universal e que se aceda a algo singular.

Entre universal e singular

O Universal é a estrutura da linguagem (Discurso do Mestre). O que ela produz como resto é o singular de cada sujeito (objeto a). A produção de resto é universal, mas o objeto produzido é singular.

O agente do Discurso do Analista é o resto produzido pela estrutura da linguagem.

Portanto, o que universalmente se produz pela estrutura de linguagem como dejeto e sobra, como resto singular de cada um, a Psicanálise usa para operar: o que não é universal, o que é singular.

Referência

Lacan, Jacques. Televisão. Outros Escritos. Jorge Zahar Editor. 2003.