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  • Paternidade e despedida

    Ou

    Esboço sobre paternidade e perda #1

    Tento cercar a sensação que tenho: a paternidade tem uma relação direta com a perda. Ser pai é amar algo sabendo da grande possibilidade de que esse algo pode ser arrancado de si facilmente. Ou seja, a paternidade está em relação direta com a perda, com suportar a perda e mesmo assim amar, com sustentar a impossibilidade.

    A paternidade é formada por várias perdas. Inicialmente, a perda da sua companheira no início da vida do bebé. A recém-mãe irá dedicar-se exclusivamente (ou quase) ao recém-nascido. Para tal, o homem pode suportar essa primeira perda, mesmo que temporária, sustentando o laço com a parceira. A sustentação desse laço pode ser facilitada pela criação de um novo laço: o laço desse homem recém-pai com o recém-nascido.

    Todavia, todos sabemos que, em caso de separação conjugal, o mais comum é que o bebé fique com a mãe. Algumas vezes há a guarda partilhada, quando esta é viável. Ou seja, a guarda podequand seo dividida quando os dois membros da parentalidade habitam perto e podem fazer a troca da guarda. Caso contrário, a guarda fica com a mãe. Em condições habituais, haveria alguém que deseja tirar o filho da sua mãe?

    E o pai vira uma visita estranha: não é exatamente uma visita, mas também não é um membro da casa.

    Surge uma outra questão: como fica a relação entre os membros da parentalidade? Será que eles conseguem conviver pacificamente e socialmente (poderia usar civilizadamente, mas prefiro o social) para tornar possível a relação do pai com a criança? E como fica a relação social com a chegada dos novos parceiros, principalmente o novo parceiro da mãe? Como será a relação do pai com o novo casal que tem a guarda da criança? E vice-versa?

    Com sorte, tudo funciona bem. Sobre sorte, refiro-me às construções possíveis entre as pessoas envolvidas, aquelas construções que cada um faz internamente, principalmente o pai. A Psicanálise, como um espaço de construção, pode ajudar nesse caminho de criação, que é árduo…

    Sem a sorte-trabalho, tudo pode ficar complicado e, não raramente, muito complicado. Por vezes, a única solução possível (e trágica, mas real) é cortar os laços.

    Esta atitude será recriminada por muita gente. Todavia, quem sente a dor da despedida do objeto amado que é afastado de si sem que haja a possibilidade de não afastamento, quem sentiu essa dor sabe que cortar o laço, às vezes, é a única alternativa para continuar vivo e continuar a vida.

    A dor é forte… E como escreveu João Guimarães Rosa: “Como toda alegria, no mesmo momento, abre saudade.”

    Como sustentar o amor mesmo sabendo que essa perda pode acontecer? Como sustentar a alegria do encontro com a abertura da saudade que rasga? É o que o pai precisa fazer…

    O rasgo é dos dois lados.

    – Voltamos a nos ver em 3 anos? 10 anos?

    – Não. Nos vemos em 2 meses.

    – Não pode ser 1 mês?

    – Vou tentar… Mas temos a marca de 2 meses como apoio. Pode ser?

    – Pode…

    – Eu te amo.

    – Eu também te amo.

    O pequeno despediu-se e ficou em casa. Não quis sair. A quem ficou, não foi possível ir novamente à estação ou ao aeroporto. Provavelmente dói. E há a lembrança da dor da despedida anterior. Mas foi uma boa maneira de lidar com a dor – um saber fazer.

    Que se saiba: a dor não é apenas de um dos lados.

    Lleida, Espanha. 28/Jun/2022.

  • O Universal e o Singular na Psicanálise – Télévision

    «”que posso saber?” Resposta:

    nada que não tenha a estrutura da linguagem, de todo modo, donde resulta que até onde irei dentro desse limite é uma questão de lógica.»

    Lacan, Televisão, p. 534

    «Quanto ao sujeito do inconsciente, ele engrena sobre o corpo. Será preciso repisar que ele só se situa verdadeiramente a partir de um discurso, ou seja, daquilo cujo artifício cria o concreto, e como!

    … a partir do saber que ex-siste para nós no inconsciente, mas que só é articulado por um discurso…».

    Lacan, Televisão, p. 535.

    Estrutura de Linguagem

    O que é universal para a Psicanálise é a estrutura da linguagem, a linguagem que está no corpo dos humanos falantes, no corpo dos seres de linguagem.
    E o Discurso do Mestre é a concepção teórica que sistematiza esta estrutura de linguagem.

    Todos os seres falantes são afetados pela linguagem, facto que traz consequências comuns a todos, principalmente a consequência de possibilitar a existência do Inconsciente.

    Discurso do Mestre e estrutura da linguagem

    Discurso do Mestre

    O Discurso do Mestre é o discurso que aponta a estrutura de linguagem que se engrena sobre o corpo do ser falante. Podemos dizer que o Discurso do Mestre é o discurso do Inconsciente. Esta é a parte que vale para todos, o axioma de partida da Psicanálise: todos falam e todos são afetados pela linguagem.

    Mas o Discurso do Analista não é o Discurso do Mestre. É preciso uma torção no Discurso do Mestre para que se instaure o Discurso do Analista e para que, com isso, advenha o singular de cada sujeito.

    Universal e singular

    A estrutura da linguagem que engrena o corpo dos falante é representada pelo Discurso do Mestre, um mecanismo universal que equipa todos os seres falantes. Este equipamento precisa ser adquirido por cada um após o nascimento. Quando a estrutura da linguagem engrena no corpo, um produto se faz: surge um resto, que é efeito da linguagem.

    Desse mecanismo universal se produz algo singular, se produz uma sobra, um resto. A esse produto singular chamamos objeto a. O objeto a é produzido a partir da estrutura da linguagem e é único para cada um. Ele é Imaginário pois só pode ser apreendido de maneira indireta (a escrito em itálico por Lacan), é Simbólico pois é produzido pelo efeito dos significantes no corpo (Discurso do Mestre), é Real pois contém algo do gozo.

    Discurso do Analista e o singular

    Discurso do Analista

    O Discurso do Analista coloca como agente o produto resultante da engrenagem do Discurso do Mestre num corpo. Ou seja, o que é produzido como sobra entra no Discurso do Analista como agente do discurso.

    Dessa maneira, a Psicanálise trabalha com aquilo que é singular a cada um e atua no campo da singularidade, não mais no campo do universal. Essa torção feita pelo Discurso do Analista permite a saída do todo universal e que se aceda a algo singular.

    Entre universal e singular

    O Universal é a estrutura da linguagem (Discurso do Mestre). O que ela produz como resto é o singular de cada sujeito (objeto a). A produção de resto é universal, mas o objeto produzido é singular.

    O agente do Discurso do Analista é o resto produzido pela estrutura da linguagem.

    Portanto, o que universalmente se produz pela estrutura de linguagem como dejeto e sobra, como resto singular de cada um, a Psicanálise usa para operar: o que não é universal, o que é singular.

    Referência

    Lacan, Jacques. Televisão. Outros Escritos. Jorge Zahar Editor. 2003.

  • Sobre o amor de amizade

    O amor tornou-se meu tema de predileção. Ele apareceu como contraponto para solucionar algumas questões após 2 anos de estudos sobre violência e não-violência.

    A questão que trouxe o amor era saber sobre o que impediria o desencadeamento da violência. A hipótese é que o amor funcionaria como uma borda, um basta, um significante que impede o desamparo que estaria na origem da violência.

    Além disso, ele traz novos ares, produz novas belezas e dá mais leveza. É mais interessante e prazeroso falar de amor do que de violência.

    Quero observar um tipo especial de amor que é o amor da amizade. Este amor que tem um lugar especial na vida de cada um, a característica de ser duradouro e o benefício de auxiliar na estruturação e amarração de um ser.

    Philia e Philos são os amores de amigos. Estes amores estão desvinculados do amor Éros e podem conter o amor Ludus. Philia e Philos são amores que estruturam, que amarram, que mantêm a pessoa numa situação de amparo e com certa estabilidade.

    Éros é o amor erótico, o amor dos amantes, dos apaixonados, o amor que faz o coração disparar, o amor do prazer em compartilhar os corpos. Ludus é o amor do jogo, da diversão, da alegria, o prazer da companhia e do entretenimento em conjunto.

    Éros e Ludus podem dar cores à vida, fôlego, vigor, vitalidade, veemência, alegria. Quando estes acabam ou se desfazem, é Philia e Philos que mantêm a estrutura, a amarração do indivíduo, a rota quando o caminho se fica turvo.

    Pragma é o amor envelhecido, amadurecido, típico dos companheiros em Éros que suportaram o tempo. É um amor que se desenvolve com o tempo. É a transformação de Éros no tempo. Éros deixe de existir e podemos pensar Pragma como fruto de Éros com algum deus do tempo – que não seja Chronos. Pragma pode ser um amor que estrutura mas só produz seus efeitos estruturantes após algum tempo.

    Para nutrir Filautia – o amor a si próprio, o auto-cuidado, o cultivo de si próprio e do seu jardim secreto – é preciso cuidado e investimento em Philia e Philos. É preciso nutrir estes amores, tanto pela própria preservação e estruturação, como pelo prazer que estes amores produzem.

    Basta um aceno de cabeça, uma piada, uma chamada, uma mensagem, um “olá” após 2 anos de silêncio. Philia e Philos estão lá e permanecem lá.

    Eis o meu convite a celebrar e nutrir este amor fundamental e estruturante que é a amizade.

  • Sobre o Desejo, pela Necessidade e Demanda

    d = N – D

    d = Desejo
    N = Necessidade
    D = Demanda

    A Demanda se faz com palavras, é o que se pode falar da Necessidade. É aquilo que se pode pedir para articular, organizar e atender a Necessidade.
    Pela Demanda se comunica, aos outros e a si, o que se necessita, o que se precisa e o que se quer.
    É através da Demanda que conseguimos ficar vivos e em relação com os outros e com o mundo.

    Mas há uma parte da Necessidade que sobra, que resta e persiste depois da Demanda.
    Há uma parte que não cessa: o Desejo.

    O Desejo é o que resta de Necessidade depois da Demanda, é aquilo que a articulação em palavras não conseguiu satisfazer da Necessidade.
    O Desejo é aquilo que não é satisfeito através da Demanda.
    O Desejo está “fora das palavras”, apesar de ser moldado e emoldurado por elas.

    Quanto mais palavras se tem para fazer a Demanda, melhor se consegue dizer as Necessidades e melhor será delimitado o Desejo.
    Quanto mais se consegue falar dos sentimentos e das Necessidades, melhor é cercado e melhor é apreendido o Desejo, sempre de maneira indirecta.
    O Desejo é “o que não tem nome nem nunca terá”.

    A satisfação de um Desejo causa prazer e, ao mesmo tempo, estranheza. Prazer pois há uma parte da necessidade que é satisfeita. Estranheza pois há uma parte que escapa da palavra, que escapa do que se consegue dizer, que é estranha.

    O Desejo pede acto, acção, fazer. É uma experiência: aceitar o fim da fala, num momento onde só se pode agir. É o momento de deixar de usar as palavras e simplesmente fazer o acto, como na anedota “cala a boca e me beija”. Por mais que se peça, só se satisfaz pelo acto, não no acto em si, mas através dele.

    O Desejo é acto com surpresa, imprevisibilidade e manifestação de vontade.
    Ele atinge alguma coisa além do acto.
    Ele atinge a sobra da Necessidade: aquela satisfação à qual faltam palavras.

    O Desejo não se pede e só se satisfaz por invasão e pelo inesperado.

    Talvez por isso que a surpresa amorosa causa estranhamento e satisfação.
    Talvez por isso ela pode ser tão difícil de suportar.

    Graciosa, 07/Nov/2020.

  • Ano Red Hot

    Apontamentos sobre o acaso, a contingência e o que pode ecoar.

    Hoje, uma surpresa do acaso conduziu-me novamente à Física, às ondas, às atrações e à mágica dos pozinhos.
    A seguir o fluxo, retomo um fragmento escrito no final de 2018.

    Foi um ano Red Hot.
    Como tudo que sempre lá está, escondido, basta alguém observar que a transformação começa.
    Isso é um dos processos que acontecem na psicanálise: algum saber que não se sabe é desvelado ou mostra-se e, assim, passa a ser mudança e (mu-)dança.
    Alguém aleatoriamente entrou na minha vida – porque na vida, há mais aleatório e acaso do que projetos e planos.
    Esse alguém percebeu que estava lá e avisou-me com uma pergunta sem pretensão: Estás a ouvir Red Hot?

    Desvelado pelo aleatório, torna-se consciência e o processo começa: transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
    Desse transformar e transbordar, faz-se laço com um pequeno outro, pequeno ainda.
    Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se: o pequeno outro também provoca ondas.
    Assim, em ondas, ao redor do processo, um por um é tomado de Red Hot.
    E percebe-se novamente o aleatório e incontrolável a operar na vida.

    Como pode um resquício de som que estava lá no fundo, por um deslize de palavras, afetar tanta gente?
    Como pode uma questão sobre algo incompreensível vindo pelo som afetar muitos outros que estão ao redor?

    A vida de cada um não é decidida e construída pelo cada um… Ela é atravessada pelo Outro da linguagem e pelos outros.
    Tentando dizer melhor, quanto efetivamente nossa intenção determina o que vivemos?
    Tentando vislumbrar melhor, quão pouco nossa intenção efetivamente determina o que se vive…

    Uma pequena ação pode ir em ondas.
    A sua ação sem pretensão fez ondas, seguidas por outras ações sem pretensão e com prazer, cultivo e afeto.
    No início do ano Red Hot era um lugar, uma cena.
    No final do ano Red Hot é outro lugar, outra cena.
    Houve o transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
    Do «méchant» faz-se «mes chants».
    Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se.
    Porque há mais acolhimento do aleatório e do acaso do que planos e votos.

    Talvez este fragmento sobre o ano Red Hot ressoe em alguns poucos.
    Há coisas que é preciso fazer sozinho, percorrer sozinho, arrebentar-se sozinho e gozar sozinho – não há como compartilhar ou há apenas a possibilidade de partilha “de atravessado”, por pedaços, por fragmentos, indiretamente.

    De qualquer maneira, algumas pessoas sentiram a suavidade das ondulações do ano Red Hot, algumas pessoas falaram disso, foram tocadas e (co-)movidas por isso.
    E, com o aleatório, nunca saberei o que mais aconteceu e como isso ondulou em outras pessoas e outros lugares.

    No ano Red Hot conjugou-se Amor – sem medo desta palavra e das tantas e diversas situações às quais ela se aplica e se aplicou.

    Sem votos para 2019.
    Mas, se fosse fazer um, seria o voto de acolhimento do aleatório, do acaso e da contingência.

    P.S.: DDB, merci!

    Lisboa, 31/Dez/2018
    Graciosa, 10/Out/2020 (revisão)


    Sugestão de escuta:
    Hard to Concentrate – Red Hot Chili Peppers

    https://youtu.be/bTpVmamEwQo
  • A Caixinha d’Ele ao Vento do Oriente

    Ao pé do Tejo. Café.

    Eles se encontram pela primeira vez.

    Nunca tinham se encontrado, apesar de se conhecerem bem. Eles se falam há aproximadamente 14 anos.

    K tem 20 anos, é do signo de Capricórnio. F tem 45 anos, Aquariana com ascendente em Sagitário.

    Nenhum dos dois mora em Lisboa.

    K esteve na cidade por 5 dias quando tinha 5 anos.

    F viveu na cidade por 7 anos e sempre pensou que esta seria a sua cidade para viver o resto da vida.

    Ambos respiraram o ar do Tejo na mesma época, mas eles ainda não se conheciam.

    K: Então este é o Tejo?

    F: Não é lindo?

    Respiram o ar molhado que vem dessa casa d’água.

    O ar de Lisboa tem um cheiro particular, um beijinho doce, suave, aconchegante.

    K: Estiveste com ele nos últimos dias?

    F: Sim, estive.

    K: Como foi?

    F: Fomos afetados quase ao mesmo tempo. Eu tive febre, ele seguiu outro caminho. Eu saí da cama, ele ficou.
    Ao fim, ele disse: «Eu te amo, vou sempre te amar e vou sempre estar do teu lado.»

    K: Lembro disso. Ele sempre afirmava isso com decisão. Ele parecia inabalável com essa frase.

    F: Eu nunca percebi o porquê desse mantra.

    K: Eu fui perceber mais tarde, quando ele já não podia me explicar.
    Naquela época, eu sempre dizia que ele não estava do meu lado – a tela do telemóvel sempre me enganava.

    K riu.

    Mas na sua infância, o seu ar era desafiador, ar de alguém que tinha a lógica a seu favor.

    Com a pouca idade, ainda não percebia a maravilha que se chama metáfora, a mágica da substituição de uma palavra por outra, a arte de despertar sentidos adormecidos e escondidos.

    K: Acredito que essa frase, repetida durante os 6 anos e meio que a ouvi…
    Vale contar o tempo da barriga?
    Sim… Durante os 7 anos que a ouvi, ela formou a presença que sinto dele até hoje.

    F: Tinha coisas que ele era insistente, era chato inclusive. Ele dizia que tinha «filho em Capricórnio» e isso o fazia continuar a andar, a persistir, prosseguir…

    K: E creio que essa frase produz em mim a sensação de ele está aqui comigo até hoje…
    Ele devia querer isso. Quando falava, ele tinha a intenção de plantar isso.
    Sinto que ele está sempre um pouquinho atrás, sinto sua respiração, um fluxo presente.

    O vento do Oriente.

    À borda do Tejo, no inverno, há neblina.

    Ao andar pela passarela no meio das águas, não vemos a costa, só a ponte por onde anda-se.

    Uma sensação de céu e nuvens perto da água. Um cinza suave, que acaricia.

    Um efeito oceânico num rio que deságua no mar e que evapora nas nuvens e na neblina. Água que entra nos pulmões e que não afoga.

    K: Lembro da história do peixinho que morava na pedra. Era uma pedra dos Açores, uma pedra grande que ia lá no fundo do oceano. Pedra leve mas firme, uma daquelas vulcânicas toda furada.
    Os gases do vulcão ficam presos dentro da lava. Quando arrefece, vira pedra com covas, com bolhas, com furos.

    K: O peixinho morava lá. Ele saía para passear pela água infinita.
    Encontrava a amiga Tartaruga e dizia «Olá, Tartaruga!».
    A Tartaruga respondia: «Olá, Peixinho!».
    «Onde vais, Tartaruga?».
    «Vou atravessar o oceano…».
    E a tartaruga nadava e ficava cada vez mais pequena, mais pequena, mais pequena, mais pequena, pequenina, pequenina, pequenina, e desaparecia.
    E depois vinha a alga, no mesmo processo: nada, nada, diminui, encolhe e some.
    E depois a conchinha.
    E a baleia, tão grandona que fica pequenina, pequenina, pequenina…

    F: Tinha piada: a forma se mantinha mas sempre aparecia um ser inusitado.

    K: Estavas com ele quando ele me contava isso, não estavas?

    F: Sim, estava… Foi o início do isolamento. Eu adormecia, também, como tu.
    Ele tinha paciência para te conduzir, e era suave.
    Quando estavas quase a dormir, tu lutavas com o sono e ficavas agitado.
    Ele continuava com a história, decidido, com filho em Capricórnio. Tranquilamente e lentamente e sonolentamente.
    Quando adormecias, ele ficava acordado a pensar em ti. Algumas vezes ele derramava-se – a distância era quase insuportável para ele.

    K: E no dia seguinte, ele brincava de pula comigo.
    Eu sempre te convidava para pularmos juntos, mas acabamos por nunca o fazer.

    Os cafés chegam com o silêncio que contempla a fumaça.

    O gosto é amargo, o calor é agradável e aconchegante.

    O silêncio continua durante uma chávena e durante o final da fumaça.

    K: Sinto falta dele nesses 13 anos…
    Obrigado por ficares com ele nos últimos dias…

    F: Ele te amava muito!
    Ele só veio para cá para poder trazer-te. Esse objetivo o mantinha vivo ao mesmo tempo que o destruía. Esta era a sua razão, o que lhe mantinha atado.
    Por isso ele não se despedaçava, mesmo que para ele não fosse fácil não se desamarrar.
    Ele queria te trazer aqui porque ele achava este lugar belo.
    Ele gostava da palavra bonito: «Este é o lugar mais bonito do meu mundo!», ele dizia.
    Ele também dizia: «O meu menino lindo fofo…»

    K levanta, recoloca a máscara.
    K pega a pequena caixinha, a caixinha d’ele.
    K se dirige ao Tejo, pela ponte, até o meio.
    K abre a caixinha e ele sai com o vento.

    As águas estão em todos os lugares, inclusive nas gotículas do ar.

    A água faz ficar perto o que está longe.

    Hoje ele já dormirá embalado pelas águas.

    Lisboa, 26/Agosto/2020

  • Apontamentos de Disciplina Positiva 

    O que me deixa curioso na Disciplina Positiva é o termo “Positivo”.

    Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, positivo não indica bom ou mau, apropriado ou desapropriado.
    Positivo tem o sentido de afirmação, de não-negação, de sugerir algo. No lugar da proibição, colocamos a sugestão ou o direcionamento.

    Podemos substituir a negação e a proibição (ação pelo negativo) por uma afirmação, pela sugestão de uma ação positiva e de presença, uma ação afirmativa. Substituir a ação negativa (não qualquer coisa) por aquilo que é possível fazer, que é adequado à situação, que fará com que consigamos aquilo que queremos – mantendo a suavidade e fortalecendo o laço afetivo.

    Faço apontamentos sobre algumas orientações da Disciplina Positiva.

    Criar regras

    A criação das regras pode ser feita junto e em parceria com as crianças. As regras devem atender às necessidades de todos e devem ser seguidas por todos (pais e crianças).

    Inspirar a motivação intrínseca

    Retirar o reforço positivo e negativo, retirar os julgamentos, as recompensas e as punições.

    Assim, as crianças deixam de agir em função de fatores externos como evitar as punições ou conseguir as recompensas. Para dizer de forma positiva, elas passam a gerir suas ações em função de suas próprias vontades e desejos (motivação interna).

    Reconhecer as necessidades

    O mal-comportamento, a agressão e a violência surgem a partir de necessidades não atendidas.

    Pode ser útil reconhecer as necessidades não atendidas das crianças para colocar o foco das ações delas nesse reconhecimento. O reconhecimento das necessidades também pode ser útil para orientar as ações e as estratégias tendo em vista a satisfação das necessidades.

    Assim, trocamos as nossas ações que visam inibir o mal-comportamento por ações que buscam satisfazer as necessidades que a criança precisa.

    Entender o significado e o sentido do comportamento

    Os comportamentos inapropriados são maneiras de comunicar alguma emoção desagradável.

    As crianças não agem sem uma razão válida e sem uma motivação verdadeira. Se as razões para o comportamento inapropriado forem removidas ou reconhecidas, a criança não terá mais a causa para esse comportamento e mudará suas atitudes.

    Redirecionar o comportamento inapropriado

    Os pais podem sugerir ações ou direcionar o pensamento da criança para ações que sejam positivas e que atendam às necessidades da criança. Positivas: que sejam apropriadas e, ao mesmo tempo, que sejam afirmativas, diretas, sem serem antecedidas por negações (não bata, não brigue, não grite).

    Construção consciente da disciplina

    Desenvolver a disciplina com as crianças no lugar de aplicar disciplina a ela.

    A sugestão é observar as situações para elaborar maneiras de gerir as emoções e os comportamentos. Ao evitar a imposição de comportamentos e formas de agir, possibilitamos que as crianças elaborem formas de gerir as suas emoções e as suas atitudes de maneira mais consciente, mais criativa e mais autónoma.

  • Sobre limites e palmadas

    Carta a um amigo

    Querido,

    Percebo e compartilho da tua preocupação com o facto de que é preciso dar limites às crianças. Também compartilho da tua preocupação com a ação dos pais.

    Não consegui ser conciso nesta carta pois os limites na educação dos filhos é uma questão importante para mim. Creio que os limites devem ser colocados da maneira mais eficiente possível, pois disso depende a habilidade de convívio social e, principalmente, a manutenção da vida da criança.

    O que chamamos de limites é algo fundamental, algo que é da ordem da transmissão da cultura. Vejo a cultura como um conjunto de ferramentas que nos ajudam a viver a vida, um conjunto de regras, de mecanismos e de informações facilitadoras da nossa vida e fundamentais para a manutenção da nossa vida.

    Os tipos de limites.

    Consigo observar 2 tipos de limites. O limite real é aquele ligado aos factos reais, da natureza, do mundo, os quais não conseguimos mudar. Um grande exemplo é a gravidade. Uma criança não deveria pular de cima de um armário, pois cairá no chão e irá se machucar. Para a manutenção da própria vida, esse limite deve ser respeitado.

    Do limite real, surge o limite simbólico. Este é o limite inscrito no plano cultural: uma simbolização, uma conversão em palavras de algo da realidade. Criam-se palavras e regras que nos ajudam na vida e ajudam a criança a lidar com o mundo. Para que uma criança saiba que pode cair de cima do armário, é preciso que ela compreenda o que é cair, é preciso que ela tenha a liberdade de experimentar e perceber com o próprio corpo o que é cair. Esses experimentos se fazem em segurança através das brincadeiras infantis. Jogar objetos ou deixar cair objetos é uma dessas experimentações. Cair torna-se palavra e, assim, pode ser manipulado, compreendido e usado pela criança.

    O limite simbólico faz-se a partir disso: a criança começa a ter símbolos que a ajudam na compreensão do mundo, a perceber o funcionamento do próprio corpo e do mundo através desses pequenos combinados e acordos vindos das palavras. As palavras ajudam-na a viver no mundo: «Não ponha a mão no fogo, pois o fogo queima». Para que criança entenda o que é «fogo queima» e evite tentar tocar o fogo, é preciso que ela saiba que queimar é uma experiência ruim e desprazerosa. Caso contrário, ela pode desconfiar que queimar é algo prazeroso e ficará com vontade de experimentar – o mal entendido é estrutural.

    No limite simbólico também residem e se solidificam os combinados sociais, a moral, a forma de agir em sociedade. Não se grita em espaços públicos, não se bate em ninguém (a menos que seja para se defender e preservar a própria vida ou a vida da criança, mas apenas o necessário para isto). De uma certa forma, para tratarmos das regras sociais, o limite simbólico tem uma parte formada pela invenção e já não é um limite baseado nas leis da natureza (imutáveis, a princípio) e do corpo. O limite simbólico apoia-se nas regras de convivência que são combinadas entre as pessoas e essencialmente mutáveis ao longo do tempo.

    Assim, o limite simbólico tem duas partes: 1) a primeira parte é para auxiliar na percepção da natureza e do mundo que nos rodeia (incluindo o próprio corpo) para que seja possível manejá-los e manter a própria vida; 2) a segunda parte é a invenção e os combinados de regras para se viver em sociedade, para que as vontades de todos possam ser minimamente respeitadas e atendidas, para que as pessoas se machuquem o mínimo possível.

    Resumindo:

    1. O limite real é o limite da natureza, o limite do mundo, o limite do corpo no mundo, o que se apresenta de forma imutável e que pode pôr a vida em risco.
    2. O limite simbólico é um limite criado através das palavras. Tem duas partes:
      1. Uma parte são as palavras e os conhecimentos que servem para nos ajudar a lidar com o mundo, que nos permitem a mediação entre nós e o mundo, que nos permitem manipular e usar o mundo para a nossa vida.
      2. A outra parte firma e funda os pactos sociais, as formas como nos portamos, molda os comportamentos que temos em sociedade.

    Função dos pais.

    Para começarmos a andar em direção à palmada, proponho pensarmos a função dos pais (avós, tios, irmãos, professores e Estado na sequência da vida) na construção desses limites.

    Visto que o limite simbólico serve para perceber o limite real e é a ferramenta que temos para lidar com o mundo real e o mundo social, a função dos pais neste contexto é transmitir o limite simbólico aos filhos. Os pais transmitem o limite simbólico no qual, também, estão inseridos. Transmitem o limite simbólico que construíram para si, que adotam para si e que estão familiarizados. Vale lembrar que o limite simbólico é feito por palavras, pela fala, por conceitos, por aprendizado.

    A função dos pais é construir e transmitir esse limite simbólico, dar ferramentas à criança para que, aos poucos, ela possa começar a gerir-se sozinha no mundo, a controlar o próprio corpo, a lidar com os próprios sentimentos. Enfim, a função dos pais é dar ferramentas para que a criança possa fazer sozinha o que lhe é fundamental à preservação da vida (e um pouco mais para satisfazer o desejo). Para se atingir esse «gerir-se sozinha» (independência), é preciso que a criança aprenda palavras (significantes), aprenda conceitos, aprenda conteúdos e os vivencie. É preciso que algum saber se solidifique na corporeidade da criança para que ela possa manejar esse simbólico através do seu pensamento. Este saber se faz, também, pelo limite simbólico. Espero que até aqui eu esteja a fazer algum sentido para ti.

    E como a palmada contribui?

    A palmada tem efeito direto no corpo, na sensação do corpo. A primeira coisa que a criança recebe com a palmada é o contato. Como normalmente é um contato forte, ela sente o impacto, o desconforto e a dor do contato forte no corpo. Isso é semelhante a qualquer impacto, a qualquer batida na quina da mesa, a qualquer batida de cabeça na porta do armário suspenso.

    Logo depois do contato, vem a sensação de alerta: o corpo da criança é invadido por uma sensação real de desconforto que a leva a um estado de alerta. Normalmente a cena da palmada continua com os gritos de quem deu a palmada e, possivelmente, com uma separação – «vai para o teu quarto pensar!» ou «já para o castigo!».

    Como se pode perceber, a cena da palmada é uma cena de eventos, de fatos que acontecem em sequência. Uma cena no âmbito do real: uma série de eventos. Vimos que a função dos pais é construir o limite simbólico, ensinar palavras e nutrir a criança com ferramentas para que ela possa gerir-se sozinha no mundo.

    As minhas questões são: em qual momento da cena da palmada (real) aconteceu a construção do limite simbólico? Em qual momento a palmada contribuiu para criar palavras, conceitos e conhecimento na criança? Em qual momento houve a conversão do real que invade o corpo da criança em algo que ela possa manejar nas próximas situações da vida?

    Apesar de conseguir a completa atenção da criança naquele momentos – sim, a palmada invade o corpo e a criança pára de fazer tudo o que estava fazendo -, não consigo captar o momento em que a palmada faz a construção do limite simbólico. A palmada veio na tentativa de ressaltar e marcar que a criança fez algo errado, algo que não deve ser feito. Para que a criança perceba que fez algo de errado, isso precisa ser convertido em palavras, em conceitos (simbólico). De onde observo, na palmada não acontece o processo pelo qual o erro da criança passa a ser algum conceito que ela pode relembrar no futuro, um conceito que a ajude a agir diferente na próxima vez.

    Qual seria a reação da criança frente ao susto e à dor da palmada? Qual seria a nossa reação, como adultos, ao receber uma palmada? Qual era a nossa reação como criança ao receber uma palmada?

    Será que sozinha ela consegue criar palavras e perceber o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que no castigo ou no quarto sozinha ela conseguirá perceber sozinha o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que sozinha a criança conseguirá construir o conceito e tirar as conclusões da cena da palmada para construir o seu limite simbólico?

    Será que sozinha…

    E aqui eu vejo o ponto mais importante: a palmada provoca uma ruptura na ligação afetiva e no companheirismo entre os pais e as crianças. A palmada insere uma dimensão de dor e estado de alerta, estado provocado intencionalmente pela pessoa que é o suporte afetivo, emocional e de cuidado da criança. De onde vinha amor, repentinamente explode uma ação que provoca dor e desconforto. De onde vinha ligação (a ligação mais forte da criança), vem uma ação de separação. Da pessoa que antes dava proteção (a relação de proteção mais forte da criança), vem uma ação intencional que provoca dor e alerta.

    O quanto a palmada contribui para uma relação de confiança da criança com os pais? O quanto a palmada contribui para a sensação de segurança, de estabilidade emocional, de garantia de suporte e auxílio à criança que ainda não tem as ferramentas para se manter viva sozinha? Será que a palmada não interfere na ligação e no laço afetivo entre os pais e os filhos?

    O que mantém os laços entre as pessoas?

    Na sua carta ao Einstein, em resposta a um pedido do próprio Einstein, Freud aponta que, para que as pessoas permaneçam juntas, precisam de duas instâncias agindo em conjunto.

    A primeira é a instância da lei, do social, das relações sociais e das funções: pai e filhos, mãe e filhos, avós e crianças, pais e avós, professor e aluno, marido e mulher, chefe e empregado. São todas funções. E as funções sociais acabam por retirar o pessoal de cada um, reduzir a subjetividade (elimina o sujeito) a favor da função: faz uma violência. Ao mesmo tempo, a instância da lei funciona como um limite simbólico (para os adultos), os combinados sociais que limitam as ações das pessoas, que organizam as estruturas de comportamento e de relação, que funcionam como um guia indicando, principalmente, o que não se deve fazer: protege da violência.

    A segunda instância é o laço afetivo, os laços de afeto e amor, as relações de cuidado e carinho, os sentimentos. Sabemos que os sentimentos ligam as pessoas. Também vale, aqui, as relações de identificação cultural: compartilhar os mesmos gostos, ter afinidades e atividades em comum, gostar do mesmo time de futebol ou da mesma banda, tocar o mesmo instrumento, dançar o mesmo estilo de dança, gostar da mesma comida.

    Essas duas instâncias, como Freud sugere, devem acontecer ao mesmo tempo. As relações se sustentam de maneira mais estável e duradoura se as duas instâncias estiverem a agir ao mesmo tempo. E elas fazem suplência e apoio uma à outra. Cada uma delas sozinha não é estável o suficiente para manter as relações. Elas são instâncias que estão sujeitas a modificações e a se desfazerem: o afeto sustenta o laço quando a lei não regulamenta suficientemente; a lei faz barreira e limite (simbólico) quando o afeto falta.

    Sendo assim, as relações entre pais e filhos precisam dessas duas instâncias: afeto e funções. E elas devem ser dos dois lados: os pais nutrem afeto, amor, carinho e cuidado pelos filhos ao mesmo tempo que assumem a sua função de cuidadores responsáveis pela manutenção da vida e formação desse indivíduo pequeno; a criança nutre afeto, amor, carinho e cuidado pelos pais e, ao mesmo tempo, reconhece os pais como aquelas pessoas que garantem sua sobrevivência, sua integridade física e mental, seus cuidados básicos e atenção.

    Quais podem ser os efeitos da palmada nas duas instâncias que mantém os laços entre as pessoas?

    A pensar nessas duas instâncias colocadas por Freud, podemos observar os possíveis efeitos da palmada, com base no que apontamos anteriormente.

    No campo da primeira instância (os laços de lei e função social), instância responsável pela manutenção da integridade física e mental da criança, a palmada contradiz esta instância por provocar dor, desprazer, sofrimento e desconforto. Assim, os pais, que têm a função de garantir o bem-estar da criança, provocam mal-estar, dor e sofrimento na criança. Provocam deliberadamente, conscientemente e intencionalmente esse mal-estar. A criança esperava ser cuidada pelos pais, mas o que ela recebe é uma ação que coloca em risco a sua segurança e integridade.

    No campo da segunda instância, são esperadas ações de prazer, cuidado e afeto. Ao surgir a palmada, de onde era esperado carinho, acolhimento, compreensão, segurança, proteção e educação, vem uma ação agressiva que provoca danos físicos e emocionais. De onde era esperado um suporte emocional, uma ação tranquila e tranquilizadora, um suporte acolhedor e de educação que permite criar ferramentas simbólicas para lidar com as emoções, surge uma ação violenta, de separação, de inquietação, de alerta. Se assim for, a palmada não contribui com essa segunda instância e a confiança é quebrada.

    De onde observo, o resultado da palmada vai na contramão do que é suposto ser a função dos pais, pois provoca o desenlace dessas duas instâncias que mantêm as pessoas próximas e ligadas.

    Mas quando se pode bater em alguém?

    A princípio, bater em alguém deliberadamente é agressão. Bater em alguém só é permitido (pela lei) quando for para defender a própria vida, para manter a própria vida e a própria integridade ou para manter a vida e a integridade do filho (legítima defesa). A legítima defesa só pode legitimar o uso da agressão como defesa quando a pessoa é atacada anteriormente, a agressividade só pode ser usada como defesa a uma agressão recebida ou claramente eminente.

    Será que a criança ameaça a integridade dos pais a ponto deles precisarem bater nela para se proteger e proteger a própria vida? Será que os pais se sentem ameaçados pelos filhos?

    Esta é uma hipótese a verificar. Se assim for, é preciso criar ferramentas simbólicas (culturais) que permitam aos pais não se sentirem ameaçados pelos filhos e, assim, não usarem a agressão como recurso. É preciso criar recursos pessoais que permitam aos pais lidarem com os próprios sentimentos e com os filhos sem se sentirem desamparados e ameaçados. Também é preciso criar recursos sociais que deixem os pais mais seguros, mais amparados e menos ameaçados.

    Mas o que fazer para criar os limites?

    É importantes não confundir firmeza afetuosa com agressão. A palmada é uma agressão, como já vimos até aqui.

    A firmeza é uma espécie de presença consistente e que pode ser extremamente afetuosa, acolhedora, cuidadosa e amorosa. Eu chamaria de presença afetuosa. Ela utiliza palavras e ações que acolhem os sentimentos das criança e, também, constroem as ferramentas para o limite simbólico.

    Muitas vezes, os limites (simbólicos) não são aceites pela criança. Assim, ela vai reagir com ansiedade, raiva e ódio (em legítima defesa?) e todos os outros sentimentos vindos da frustração. Sentimentos legítimos para uma criança, sentimentos que também são sentidos pelos adultos quando são colocados frente a um limite simbólico – adultos sem as ferramentas simbólicas para lidar com a própria frustração.

    Há aquelas situações que tratam de um limite real e que os limites não podem ser flexibilizados para a proteção da vida da criança. Nos casos em que o limite não pode ser flexibilizado, os pais podem usar a firmeza afetuosa. Uma firmeza afetuosa é estar presente, colocar o limite de maneira muito clara e direta, acolher os sentimentos da criança (frustração, tristeza, raiva…). A firmeza afetuosa também pode sugerir outra coisa a ser feita para que a criança possa ter a satisfação e o prazer que buscava com a ação fora do limite. Podemos dizer que esta é uma construção de limites de maneira positiva, de maneira afirmativa. Se a criança queria pular do armário, podemos sugerir jogar um objeto para cima e ver o que acontece com o objeto quando chega ao chão: cair no chão dessa altura deve doer, não? Se a busca era o prazer de saltar, colocamos um colchão no chão e pulamos nele, ou vamos a uma cama elástica ou outra solução dentro dos limites reais e dos limites simbólicos suportados pelos pais.

    É preciso e precioso preservar as instâncias de ligação, tanto a função de pais cuidadores como a ligação afetiva de cuidados e de amor (amor dos pais que se supõe incondicional).

    Limites flexíveis e limites inflexíveis.

    Outra questão que me coloco sobre limites é a possibilidade de flexibilizar e negociar os limites. Ou até a possibilidade de construí-los em conjunto com a criança, baseado nas necessidades e possibilidades reais e nos fatos perceptíveis e imperceptíveis para a criança. Mas isso demanda um pouco de coragem de investigar, refletir e sustentar as consequências e vantagens dos próprios atos.

    Quais são os limites que efetivamente são baseados no real e que não podem ser flexibilizados? Pular de cima de um armário é um exemplo. Quais são os limites que podem ser flexibilizados? Quais são os limites que herdamos socialmente ou herdamos de nossos pais-avós que não são efetivamente limites baseados no real? Quais são os limites herdados que já não fazem mais sentido (por questões históricas, sociais ou culturais)? Quais são os limites que eu quero cultivar e que eu acho fundamentais? E, principalmente, quais são os limites que me auxiliam e me conduzem na direção daquilo que quero cultivar com os meus filhos?

    Os limites são, também, uma questão de escolha. Para isso, precisamos bancar nossas escolhas e decisões e, em muitos casos, reconhecer os nossos limites.

    Se o limite pode ser flexibilizado, flexibiliza-se.

    Se o limite não pode ser flexibilizado, vamos mantê-lo de uma forma firme, gentil e afetuosa, acolhendo os sentimentos desagradáveis dos nossos filhos e ajudando-os a lidar com esses sentimentos desagradáveis. Acredito que o cultivo do cuidado e do afeto seja o mais importante na relação com os pequenos.

    Também podemos pensar em como construir o limite de maneira positiva, não pela negação e proibição, mas pela sugestão e condução. Mas é uma questão para outro momento.

    «Sempre por causa do hábito…» (Camus)

    Não é fácil mudar velhos hábitos. A palmada está na nossa formação e é o limite simbólico que herdamos. Foi com a palmada que fomos educados a educar. Todavia, a palmada não é um limite real, portanto, podemos abandonar a prática da palmada e substituí-la por algo mais eficiente e mais afetuoso.

    Não é fácil criar e sustentar formas novas e formas pessoais de agir, cultivar e viver. Mesmo não sendo fácil, considero importante tomarmos uma posição frente àquilo que faz sentido para cada um, uma posição que favoreça atingir esse particular de cada um, principalmente naquilo que se busca cultivar com os pequenos. E a minha escolha é pelo afeto, carinho e cuidado – o que, para mim, faz parte do amor.

    Há pessoas que também estão neste cultivo, no cultivo de criar formas para lidar com as crianças sem usar a violência. Elas podem nos ajudar nesse percurso. Nós podemos nos ajudar nesse percurso. Não estamos sozinhos. Juntos, cultivar torna-se mais fácil e menos pesado.

    Fica bem.

    Com afeto e cultivo.

    Graciosa, 12/Out/2019

  • A Manhã do Concerto

    Concertos são momentos que podem provocar situações inusitadas, inesperadas e imprevisíveis. São momentos de tensão que podem disparar comportamentos diversos, surpreendentes e não habituais. Como lidar com a sombra assustadora que pode erguer-se sobre quem tocará num concerto?

    O concerto é à tarde. Ela tem aula comigo no final da manhã. 8 anos, aproximadamente. 8 anos de idade, não de estudo de piano.

    Ela entra na sala e senta-se ao piano. Eu inicio o dialogo:

    – temos concerto hoje à tarde. Então, pensei em revisarmos a música. Pode ser?

    – (silêncio)

    – Podes tocar?

    – não lembro…

    – hum… acho que não percebi.

    – não lembro…

    Não lembro… Simples assim: ela não lembrava a música, nem qual era a música que ia tocar nem como se tocava. Nada.

    – entendi. A música é O Balão do João (música tradicional que as crianças em Portugal cantam de diversas maneiras e em diversas situações). Lembras?

    – não lembro…

    – sol mi mi, fá ré ré (cantarolo). Lembras?

    – não lembro…

    – tenta colocar a mão no piano.

    – não lembro…

    A impossibilidade está posta. Um “não lembro…” sem agressividade, sem revolta, pacato. Apenas a constatação de um fato que não cede. Peço a ela que toque uma música qualquer que já tínhamos estudado. Ela toca perfeitamente. Não é algo com o piano. Pode ser algo específico com o concerto. Investigo.

    – então, agora já consegues tocar O Balão do João. Pode ser?

    – não lembro.

    Toco a música inteira ao piano, lentamente.

    – lembras?

    – não lembro.

    Os concertos e o encontro com o extraordinário.

    Muitas vezes, os concertos são momentos em que os alunos se imaginam testados e avaliados, momentos em que são postos numa posição de vulnerabilidade.

    Nos concertos, é esperado algo “bom”, é esperado que os alunos “toquem bem”. Deles é esperado algo imaginário pois, quando questionados, os alunos não sabem dizer exatamente o que seria esse “tocar bem”, eles não têm clareza daquilo que é esperado que eles façam. Do concerto espera-se algo mítico e extraordinário: algo que não se sabe exatamente o que é mas que deve, supostamente, ser atingido e tomado como referência. O Concerto, com toda a exigência de mito extraordinário, torna-se uma sombra ameaçadora.

    A sombra ameaça os alunos, coloca uma referência que não é apoiada no desejo e nas possibilidades deles, que não é baseada no que eles querem nem no que eles podem produzir. A sombra é uma referência externa colocada pelos outros (o Outro?) e com parâmetros desconhecidos, simplesmente inalcançáveis por não serem palpáveis.

    Frente a essa exigência desconhecida e extraordinária (extra-ordinário, fora do ordinário, fora do comum, fora do quotidiano), paralisa-se. O medo paralisa algumas vezes. Outras vezes pode criar o enfrentamento, como acontece a alguns alunos que entram no palco e não se dão o tempo habitual do ritual: sentam-se e começam já a tocar, imediatamente.

    No caso dela, houve a paralisia e o bloqueio da memória. A memória estava lá, intacta e preservada, porém inacessível pelo medo, pela pressão, pelo desconforto e pela tensão.

    A boa aluna.

    Ela era o que se chama de “boa aluna”, com todos os adjetivos aplicados a essas crianças pela educação habitual: fazia o que era pedido, estava empenhada, era esforçada, bem comportada, dedicada, portava-se bem… Adjetivos que, normalmente, os alunos desconhecem o significado, não sabem o que é esperado deles com esses adjetivos e, principalmente, não sabem o que fazer para atingir o que é esperado deles com esses adjetivos.

    Para mim, o que mais me interessava era o bom humor dela: piadas durante a aula, fome, muita fome, sempre a querer comer, “ôh, raios!” quando enganava-se.

    O que fazer?

    O que me restava nesta situação? Brigar com a menina, gritar, ofendê-la, dizer que não estudava e que era desinteressada, que devia ter se preparado melhor… ? Culpabilizar-me por não ter sido mais “duro” (sic) com ela, exigido mais? Ou acolher os sentimentos dela e tentar trabalhar sobre isso?

    Optei pela última alternativa. Iniciei o trabalho como se fosse do início: como colocar a mão no piano, quais são as notas da música. Em pouco tempo a memória desbloqueou. A melodia que estava a ser trabalhada com a duas mãos (trabalho já feito), passou para a mão direita (trabalho já feito) e depois passou para a mão esquerda (trabalho novo). E o trabalho novo já estava pronto a ser apresentado no concerto em 20 minutos de aula.

    Premissas para o trabalho.

    Como professor, me interesso mais pelo processo de “recuperar” e liberar o saber bloqueado pela sombra do que apontar o resultado do concerto. O processo de retirada do bloqueio da sombra me interessa: como recuperar a memória para a aula e para o próprio concerto?

    Acolher os sentimentos dos alunos é a minha base de trabalho: acolher o bloqueio da memória, acolher a ansiedade do concerto, o lapso, a tensão e a pressão, a preocupação, a angústia, o humor particular desta aluna…

    O particular de cada aluno me interessa e é fundamental na maneira que escolhi para ensinar (construir junto). Acolher o individual de cada aluno é o posicionamento ético que me permite gentilmente construir um saber musical e emocional com os alunos, um saber que extrapola o tocar. As aulas de música são um “saber de relação”: transmite-se uma ética humana de estar junto, com ferramentas para lidar com o emaranhado dos sentimentos e das emoções, ferramentas úteis em qualquer situação da vida e em qualquer relação humana. Quiçá, constroem-se ferramentas para lidar com o próprio desejo – com o sentido psicanalítico de desejo: sustentar aquilo que nos move como seres humanos em direção à vida e à criação.

    Mas como foi o concerto?

    Para acalmar quem lê este texto, digo que o concerto foi bom. Com o acolhimento e suporte emocional, ela conseguiu manter a memória aberta e acessível para usar no concerto e, também, manter-se tranquila para mostrar algo seu para uma plateia de aproximadamente 70 pessoas.

    O humor particular dela permitiu contornar a sombra. Com Chico Buarque: “mas eu não quebro não porque sou macio”.

    O humor permitiu a maciez e a maleabilidade para escapar da pressão da sombra, da dureza da sombra. O humor permitiu que a memória voltasse e que elas – a memória e a aluna – se sustentassem no concerto.

    O humor as salvou!

  • Ensino de música atravessado pela psicanálise

    A teoria e a prática da Psicanálise são as bases que sustentam o Ensino de Música da Nós Bobôs, principalmente as Aulas de Piano.

    Mas, como seria um Ensino de Música atravessado pela Psicanálise? Como funciona uma Psicanálise? Quais são as implicações da Psicanálise no Ensino da Música? E quais são as consequências dessas implicações?

     

    A regra fundamental e os 3 momentos de uma análise

    A psicanálise tem uma regra fundamental, a Associação Livre. O primeiro momento do processo de uma análise é a entrada na Associação Livre: “diga tudo o que vier à sua cabeça, não se censure, tudo aquilo que diz é importante, não tenha uma ideia a priori. Na medida seguir esse método muita coisa vai ocorrer.”1

    Essa liberdade de dizer tudo o que vem à cabeça gera desconforto no analisando[1]Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise. quando este começa uma análise. E não é fácil expressar-se sem limites e sem censura. Este é o primeiro desafio de uma psicanálise.

    Quando o analisando acostuma-se a seguir a Associação Livre, as censuras começam a ceder e ele entra no segundo momento da análise. Os medos e as angústias começam a enfraquecer e o analisando torne-se mais criativo, com mais desenvoltura e destreza para manejar os pensamentos e as ações. A criatividade permite criar um jeito próprio de ser e começa o processo de construção de uma forma particular de agir e de pensar.

    O analisando começa a ser capaz de responsabilizar-se pelas próprias ações, fica mais ligados ao seu desejo, com mais vontade de viver, de produzir, de criar e de estudar. Passa a envolver-se com as ações que considera valiosas e a sustentar o seu modo de ser e o seu modo de se inserir no mundo.

    Assim começa o terceiro momento de uma análise, o momento em que o analisando consegue estar no mundo de uma maneira nova, com menos sofrimentos, com menos sintomas paralisantes. Ele cria uma maneira particular, própria e criativa de ser. A análise acaba com o sujeito a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo.

    E como isso se reflete nas aulas de piano da Nós Bobôs?

    Através do princípio da Associação Livre incentiva-se a liberdade e a criatividade. Durante as aulas, busca-se diminuir ao máximo os julgamentos, as críticas, as censuras, as cobranças. Diminui-se consideravelmente os jogos de violência e punição usados nos sistemas de ensino (Violência Educativa Ordinária – VEO). Cria-se um espaço de acolhimento e segurança onde o aluno pode expressar-se livremente, libertando a sua criatividade.

    O professor sabe que toda manifestação do aluno reflete algo pessoal do próprio aluno. Assim, ele não mantém uma ideia a priori sobre o aluno e sobre o que vai acontecer na aula. Com a Associação Livre, tudo aquilo que o aluno diz é importante: retirar-se a censura ao máximo possível e, ao seguir esse método, algumas coisas acontecem nas aulas.

    Como resultado, o aluno aproxima-se do seu desejo e liberta a sua criatividade (tal como no segundo momento da análise). O aluno ganha segurança, confiança e recursos para se expressar. O piano tornar-se uma maneira de expressão de si e, também, uma forma de satisfação e prazer. A produção do aluno aumenta pois está atrelada ao prazer e à satisfação (sublimação). Com um produto da sua sublimação nas mãos, o aluno é instigado a colocar a sua produção no mundo, colocar a sua criatividade numa relação com as outras pessoas. Tal como no terceiro momento da análise, o aluno coloca o seu desejo e a sua criação singular como uma forma de estar na vida, uma forma responsável, prazerosa e envolvente de estar no mundo. O aluno-sujeito passa a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo e a sua maneira singular de fazer música.

    O desejo da Nós Bobôs

    Movida pelo próprio desejo, a Nós Bobôs herda da Psicanálise as concepções fundamentais sobre a constituição do sujeito, trata seus alunos como seres de linguagem (parlêtre) e faz das descobertas da Associação Livre suas premissas de trabalho.

    Por desejo, as aulas de piano sustentam-se numa ética de desejo.
    Assim se faz na Nós Bobôs.

    22/Jun/2019

    Notas

    Notas
    1 Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise.