Ou
Esboço sobre paternidade e perda #1
Tento cercar a sensação que tenho: a paternidade tem uma relação direta com a perda. Ser pai é amar algo sabendo da grande possibilidade de que esse algo pode ser arrancado de si facilmente. Ou seja, a paternidade está em relação direta com a perda, com suportar a perda e mesmo assim amar, com sustentar a impossibilidade.
A paternidade é formada por várias perdas. Inicialmente, a perda da sua companheira no início da vida do bebé. A recém-mãe irá dedicar-se exclusivamente (ou quase) ao recém-nascido. Para tal, o homem pode suportar essa primeira perda, mesmo que temporária, sustentando o laço com a parceira. A sustentação desse laço pode ser facilitada pela criação de um novo laço: o laço desse homem recém-pai com o recém-nascido.
Todavia, todos sabemos que, em caso de separação conjugal, o mais comum é que o bebé fique com a mãe. Algumas vezes há a guarda partilhada, quando esta é viável. Ou seja, a guarda podequand seo dividida quando os dois membros da parentalidade habitam perto e podem fazer a troca da guarda. Caso contrário, a guarda fica com a mãe. Em condições habituais, haveria alguém que deseja tirar o filho da sua mãe?
E o pai vira uma visita estranha: não é exatamente uma visita, mas também não é um membro da casa.
Surge uma outra questão: como fica a relação entre os membros da parentalidade? Será que eles conseguem conviver pacificamente e socialmente (poderia usar civilizadamente, mas prefiro o social) para tornar possível a relação do pai com a criança? E como fica a relação social com a chegada dos novos parceiros, principalmente o novo parceiro da mãe? Como será a relação do pai com o novo casal que tem a guarda da criança? E vice-versa?
Com sorte, tudo funciona bem. Sobre sorte, refiro-me às construções possíveis entre as pessoas envolvidas, aquelas construções que cada um faz internamente, principalmente o pai. A Psicanálise, como um espaço de construção, pode ajudar nesse caminho de criação, que é árduo…
Sem a sorte-trabalho, tudo pode ficar complicado e, não raramente, muito complicado. Por vezes, a única solução possível (e trágica, mas real) é cortar os laços.
Esta atitude será recriminada por muita gente. Todavia, quem sente a dor da despedida do objeto amado que é afastado de si sem que haja a possibilidade de não afastamento, quem sentiu essa dor sabe que cortar o laço, às vezes, é a única alternativa para continuar vivo e continuar a vida.
A dor é forte… E como escreveu João Guimarães Rosa: “Como toda alegria, no mesmo momento, abre saudade.”
Como sustentar o amor mesmo sabendo que essa perda pode acontecer? Como sustentar a alegria do encontro com a abertura da saudade que rasga? É o que o pai precisa fazer…
O rasgo é dos dois lados.
– Voltamos a nos ver em 3 anos? 10 anos?
– Não. Nos vemos em 2 meses.
– Não pode ser 1 mês?
– Vou tentar… Mas temos a marca de 2 meses como apoio. Pode ser?
– Pode…
– Eu te amo.
– Eu também te amo.
O pequeno despediu-se e ficou em casa. Não quis sair. A quem ficou, não foi possível ir novamente à estação ou ao aeroporto. Provavelmente dói. E há a lembrança da dor da despedida anterior. Mas foi uma boa maneira de lidar com a dor – um saber fazer.
Que se saiba: a dor não é apenas de um dos lados.
Lleida, Espanha. 28/Jun/2022.