Categoria: Música e Artes

  • A Manhã do Concerto

    Concertos são momentos que podem provocar situações inusitadas, inesperadas e imprevisíveis. São momentos de tensão que podem disparar comportamentos diversos, surpreendentes e não habituais. Como lidar com a sombra assustadora que pode erguer-se sobre quem tocará num concerto?

    O concerto é à tarde. Ela tem aula comigo no final da manhã. 8 anos, aproximadamente. 8 anos de idade, não de estudo de piano.

    Ela entra na sala e senta-se ao piano. Eu inicio o dialogo:

    – temos concerto hoje à tarde. Então, pensei em revisarmos a música. Pode ser?

    – (silêncio)

    – Podes tocar?

    – não lembro…

    – hum… acho que não percebi.

    – não lembro…

    Não lembro… Simples assim: ela não lembrava a música, nem qual era a música que ia tocar nem como se tocava. Nada.

    – entendi. A música é O Balão do João (música tradicional que as crianças em Portugal cantam de diversas maneiras e em diversas situações). Lembras?

    – não lembro…

    – sol mi mi, fá ré ré (cantarolo). Lembras?

    – não lembro…

    – tenta colocar a mão no piano.

    – não lembro…

    A impossibilidade está posta. Um “não lembro…” sem agressividade, sem revolta, pacato. Apenas a constatação de um fato que não cede. Peço a ela que toque uma música qualquer que já tínhamos estudado. Ela toca perfeitamente. Não é algo com o piano. Pode ser algo específico com o concerto. Investigo.

    – então, agora já consegues tocar O Balão do João. Pode ser?

    – não lembro.

    Toco a música inteira ao piano, lentamente.

    – lembras?

    – não lembro.

    Os concertos e o encontro com o extraordinário.

    Muitas vezes, os concertos são momentos em que os alunos se imaginam testados e avaliados, momentos em que são postos numa posição de vulnerabilidade.

    Nos concertos, é esperado algo “bom”, é esperado que os alunos “toquem bem”. Deles é esperado algo imaginário pois, quando questionados, os alunos não sabem dizer exatamente o que seria esse “tocar bem”, eles não têm clareza daquilo que é esperado que eles façam. Do concerto espera-se algo mítico e extraordinário: algo que não se sabe exatamente o que é mas que deve, supostamente, ser atingido e tomado como referência. O Concerto, com toda a exigência de mito extraordinário, torna-se uma sombra ameaçadora.

    A sombra ameaça os alunos, coloca uma referência que não é apoiada no desejo e nas possibilidades deles, que não é baseada no que eles querem nem no que eles podem produzir. A sombra é uma referência externa colocada pelos outros (o Outro?) e com parâmetros desconhecidos, simplesmente inalcançáveis por não serem palpáveis.

    Frente a essa exigência desconhecida e extraordinária (extra-ordinário, fora do ordinário, fora do comum, fora do quotidiano), paralisa-se. O medo paralisa algumas vezes. Outras vezes pode criar o enfrentamento, como acontece a alguns alunos que entram no palco e não se dão o tempo habitual do ritual: sentam-se e começam já a tocar, imediatamente.

    No caso dela, houve a paralisia e o bloqueio da memória. A memória estava lá, intacta e preservada, porém inacessível pelo medo, pela pressão, pelo desconforto e pela tensão.

    A boa aluna.

    Ela era o que se chama de “boa aluna”, com todos os adjetivos aplicados a essas crianças pela educação habitual: fazia o que era pedido, estava empenhada, era esforçada, bem comportada, dedicada, portava-se bem… Adjetivos que, normalmente, os alunos desconhecem o significado, não sabem o que é esperado deles com esses adjetivos e, principalmente, não sabem o que fazer para atingir o que é esperado deles com esses adjetivos.

    Para mim, o que mais me interessava era o bom humor dela: piadas durante a aula, fome, muita fome, sempre a querer comer, “ôh, raios!” quando enganava-se.

    O que fazer?

    O que me restava nesta situação? Brigar com a menina, gritar, ofendê-la, dizer que não estudava e que era desinteressada, que devia ter se preparado melhor… ? Culpabilizar-me por não ter sido mais “duro” (sic) com ela, exigido mais? Ou acolher os sentimentos dela e tentar trabalhar sobre isso?

    Optei pela última alternativa. Iniciei o trabalho como se fosse do início: como colocar a mão no piano, quais são as notas da música. Em pouco tempo a memória desbloqueou. A melodia que estava a ser trabalhada com a duas mãos (trabalho já feito), passou para a mão direita (trabalho já feito) e depois passou para a mão esquerda (trabalho novo). E o trabalho novo já estava pronto a ser apresentado no concerto em 20 minutos de aula.

    Premissas para o trabalho.

    Como professor, me interesso mais pelo processo de “recuperar” e liberar o saber bloqueado pela sombra do que apontar o resultado do concerto. O processo de retirada do bloqueio da sombra me interessa: como recuperar a memória para a aula e para o próprio concerto?

    Acolher os sentimentos dos alunos é a minha base de trabalho: acolher o bloqueio da memória, acolher a ansiedade do concerto, o lapso, a tensão e a pressão, a preocupação, a angústia, o humor particular desta aluna…

    O particular de cada aluno me interessa e é fundamental na maneira que escolhi para ensinar (construir junto). Acolher o individual de cada aluno é o posicionamento ético que me permite gentilmente construir um saber musical e emocional com os alunos, um saber que extrapola o tocar. As aulas de música são um “saber de relação”: transmite-se uma ética humana de estar junto, com ferramentas para lidar com o emaranhado dos sentimentos e das emoções, ferramentas úteis em qualquer situação da vida e em qualquer relação humana. Quiçá, constroem-se ferramentas para lidar com o próprio desejo – com o sentido psicanalítico de desejo: sustentar aquilo que nos move como seres humanos em direção à vida e à criação.

    Mas como foi o concerto?

    Para acalmar quem lê este texto, digo que o concerto foi bom. Com o acolhimento e suporte emocional, ela conseguiu manter a memória aberta e acessível para usar no concerto e, também, manter-se tranquila para mostrar algo seu para uma plateia de aproximadamente 70 pessoas.

    O humor particular dela permitiu contornar a sombra. Com Chico Buarque: “mas eu não quebro não porque sou macio”.

    O humor permitiu a maciez e a maleabilidade para escapar da pressão da sombra, da dureza da sombra. O humor permitiu que a memória voltasse e que elas – a memória e a aluna – se sustentassem no concerto.

    O humor as salvou!

  • Ensino de música atravessado pela psicanálise

    A teoria e a prática da Psicanálise são as bases que sustentam o Ensino de Música da Nós Bobôs, principalmente as Aulas de Piano.

    Mas, como seria um Ensino de Música atravessado pela Psicanálise? Como funciona uma Psicanálise? Quais são as implicações da Psicanálise no Ensino da Música? E quais são as consequências dessas implicações?

     

    A regra fundamental e os 3 momentos de uma análise

    A psicanálise tem uma regra fundamental, a Associação Livre. O primeiro momento do processo de uma análise é a entrada na Associação Livre: “diga tudo o que vier à sua cabeça, não se censure, tudo aquilo que diz é importante, não tenha uma ideia a priori. Na medida seguir esse método muita coisa vai ocorrer.”1

    Essa liberdade de dizer tudo o que vem à cabeça gera desconforto no analisando[1]Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise. quando este começa uma análise. E não é fácil expressar-se sem limites e sem censura. Este é o primeiro desafio de uma psicanálise.

    Quando o analisando acostuma-se a seguir a Associação Livre, as censuras começam a ceder e ele entra no segundo momento da análise. Os medos e as angústias começam a enfraquecer e o analisando torne-se mais criativo, com mais desenvoltura e destreza para manejar os pensamentos e as ações. A criatividade permite criar um jeito próprio de ser e começa o processo de construção de uma forma particular de agir e de pensar.

    O analisando começa a ser capaz de responsabilizar-se pelas próprias ações, fica mais ligados ao seu desejo, com mais vontade de viver, de produzir, de criar e de estudar. Passa a envolver-se com as ações que considera valiosas e a sustentar o seu modo de ser e o seu modo de se inserir no mundo.

    Assim começa o terceiro momento de uma análise, o momento em que o analisando consegue estar no mundo de uma maneira nova, com menos sofrimentos, com menos sintomas paralisantes. Ele cria uma maneira particular, própria e criativa de ser. A análise acaba com o sujeito a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo.

    E como isso se reflete nas aulas de piano da Nós Bobôs?

    Através do princípio da Associação Livre incentiva-se a liberdade e a criatividade. Durante as aulas, busca-se diminuir ao máximo os julgamentos, as críticas, as censuras, as cobranças. Diminui-se consideravelmente os jogos de violência e punição usados nos sistemas de ensino (Violência Educativa Ordinária – VEO). Cria-se um espaço de acolhimento e segurança onde o aluno pode expressar-se livremente, libertando a sua criatividade.

    O professor sabe que toda manifestação do aluno reflete algo pessoal do próprio aluno. Assim, ele não mantém uma ideia a priori sobre o aluno e sobre o que vai acontecer na aula. Com a Associação Livre, tudo aquilo que o aluno diz é importante: retirar-se a censura ao máximo possível e, ao seguir esse método, algumas coisas acontecem nas aulas.

    Como resultado, o aluno aproxima-se do seu desejo e liberta a sua criatividade (tal como no segundo momento da análise). O aluno ganha segurança, confiança e recursos para se expressar. O piano tornar-se uma maneira de expressão de si e, também, uma forma de satisfação e prazer. A produção do aluno aumenta pois está atrelada ao prazer e à satisfação (sublimação). Com um produto da sua sublimação nas mãos, o aluno é instigado a colocar a sua produção no mundo, colocar a sua criatividade numa relação com as outras pessoas. Tal como no terceiro momento da análise, o aluno coloca o seu desejo e a sua criação singular como uma forma de estar na vida, uma forma responsável, prazerosa e envolvente de estar no mundo. O aluno-sujeito passa a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo e a sua maneira singular de fazer música.

    O desejo da Nós Bobôs

    Movida pelo próprio desejo, a Nós Bobôs herda da Psicanálise as concepções fundamentais sobre a constituição do sujeito, trata seus alunos como seres de linguagem (parlêtre) e faz das descobertas da Associação Livre suas premissas de trabalho.

    Por desejo, as aulas de piano sustentam-se numa ética de desejo.
    Assim se faz na Nós Bobôs.

    22/Jun/2019

    Notas

    Notas
    1 Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise.
  • Incorporado: em corpo forjado

    Acabo de chegar do concerto do violoncelista Kayami Satomi. Há concertos que são bastante bons e que me deixam a pensar. Esses concertos, além do prazer que proporcionam com a música, libertam os pensamentos para que eu possa ver, ouvir e observar o que há de único naquele músico que toca, o que há de particular nele que não acontece em mais ninguém e em nenhum outro músico.

    Conheci o Kayami numa edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Lá escrevi um duo (violoncelo e piano) para que tocasse com o seu amigo, o Renato. «As Folhas do Platanus» era o título, a única coisa que me restou.

    O que aconteceu de nossas vidas?

    O Renato foi estudar piano em Portugal, depois virou engenheiro. Eu tornei-me esta coisa Incompleta atravessada por música, psicanálise e cultura. O Kayami ganhou a bolsa do Festival de Campos do Jordão, passou alguns anos estudando na Alemanha e hoje é isso que aí está.

    Uma prática

    Durante o concerto, fui atacado pelo pensamento de que o fazer musical é uma prática e, como tal, só pode ser produzida num corpo e por um corpo. Uma prática é um «saber fazer» específico de um corpo, com as características peculiares desse corpo. Mesmo que possam ser transmitidas, elas não se reproduzem exatamente no corpo de quem aprende, nunca é uma cópia: sempre há transformações e adaptações.

    Dessa maneira, a transmissão desse saber fazer não se dá através de um conjunto fechado de regras e movimentos que são meramente imitados, ensinados e reproduzidos. São um modo de usar o corpo, de arranjar soluções com um corpo – seja o corpo do performer, do professor ou do aluno – para atingir determinados objetivos, determinados produtos, determinados resultados.

    Não é imitação

    A transmissão não é uma mera cópia do professor. Em um programa Provocações, Antônio Abujamra diz que «a cópia é a mais difícil das artes»1 no sentido de ser praticamente impossível de ser bem sucedida. E é completado por Jorge Forbes: «a cópia é muito ruim… não dá, fica ruim demais… eu acho que é um horror»2.

    Na transmissão desse saber fazer, é preciso que algo seja forjado num corpo, tendo em vista que forjar pode ser definido como «trabalhar ou fazer (alguma coisa) na forja»3. Forja designa o forno utilizado para aquecer os metais que o ferreiro trabalhará pelo processo de forjamento: aquecer o metal na forja, martelar sobre uma bigorna, reaquecer, martelar novamente, repetir esse processo até que, ao fim, o ferreiro tempera o metal num líquido que arrefece e fixa a forma forjada.

    Incorporar: em corpo estar

    Pensando a transmissão através do ato artesanal de forjar um corpo atribuindo-lhe uma determinada capacidade e um determinado saber fazer, temos, como resultado, o corpo que toma posse do que faz, que possui o que faz, um fazer incorporado e próprio do corpo que o faz de forma natural e fluída.

    A imitação que barra a transmissão

    Esse saber fazer não é algo falso que deva ser simulado nem é algo externo que deve ser apreendido e prendido. Não é um ritual nem uma prática de regras. Não é algo que entra no corpo, que «baixa» com ou espírito ou que toma o corpo. Se assim for, torna-se um jogo de imitação, uma cópia que corre o risco de ficar «ruim demais… um horror»4. Sobre esse jogo de imitação e cópia, alguns podem dizer que é algo do processo de aprendizagem, um período de absorção. A meu ver, isto é um obstáculo para a transmissão desse saber fazer.

    Incorporado: forjado no próprio corpo

    O saber fazer se transmite na forja e pelo forjamento que não se faz com um molde. A forja se faz no processo insistente e persistente de aquecer e martelar, seguido do arrefecimento que fixa a forma quando estiver ajustado ao que se deseja. A transmissão não é uma incorporação no sentido de colocar algo dentro do corpo, absorver algo que vem de fora e deve ser colocado para dentro. Penso que é algo incorporado: feito especialmente para o próprio corpo ao mesmo tempo que vem direto do próprio corpo, um saber fazer cujo molde é o próprio corpo e forjado diretamente no próprio corpo e para o próprio corpo.

    Do incorporado, faz-se

    Do incorporado, torna-se algo natural e fluído, parte da própria vida do corpo. O corpo torna-se dono dessa cultura, dono dessa prática e pode fazer uso da maneira que bem entender. É uma prática comum, habitual e orgânica.

    Não se pretende que aconteça, não tem a intenção de se mostrar nem de se exibir. É algo do próprio corpo que vai para o externo, para o exterior, algo que emana, que sai do corpo e pelo corpo, exala, que sai, que flui…

    Não há mais o pudor nem o rito. É despido, é corpóreo, é sexual, é sensual, é o íntimo colocado em jogo num simplesmente «é-se», faz-se a tocar os outros corpos.

    Não há o erro nem o acerto, não há o padrão a ser atingido: o certo e o errado se desfazem.

    A volta

    Esta é a maneira que sou capaz de conceber e pensar o processo de construção de algo em música. É com esta ética que tento sustentar as aulas e as atividades de música que proponho: espaços para que se forje algo musical particular em cada um.

    Quando reencontrei o Kayami em Uberlândia, uma das primeiras coisas que ele me disse foi que tinha a partitura do duo. Alguns dias atrás uma pessoa me contou a lembrança do Kayami sobre o dia que eu lhe entreguei a partitura do duo: ele disse que não conseguia tocá-la e que eu lhe mostrei todas as posições e as maneiras de executá-la no violoncelo. E completou dizendo que me vê como uma pessoa que lê muito, que estuda muito e que isso dá um suporte ao que faço.

    Achei curiosa a lembrança dele, bastante agradável ao meu narcisismo. Provavelmente é a forma bonita que ele tem de contar a história. Felizmente eu não lembro desse dia pois, se eu lembrasse, ficaria achando que as minhas bobagens o instigaram – algo pretensioso tendo em vista o que ele se tornou na sua prática de violoncelista.

    Mas qual seria a minha prática, afinal?

    Talvez a lembrança dele aponte (para mim) algo que possa nomear esta prática: observar as coisas e arranjá-las de uma maneira que possam ser contadas. Nem eu sei quantas vezes ainda vou à forja, forjando-me na observação até que um dia, enfim, possa ter o arrefecimento.

    Escrever estas bobagens são o processo de forjar-me…

    13/Jun/2018

    1. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
    2. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
    3. “Forja”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa em linha, 2008-2013,- consultado em 13-06-2018. https://www.priberam.pt/dlpo/forja ↩︎
    4. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
  • Clube da Música Clássica #01 – Pós-evento

    O Tempo.

    A passagem do tempo.

    Uma observação sobre a passagem do tempo.

    O fluxo contínuo que leva a uma observação sobre a passagem do tempo: um recorte…

    Tal como quem medita: sem julgar, sem barrar, sem punir, sem se exaltar…

    Apenas observar e deixar que, naturalmente, os acontecimentos e pensamentos passem em fluxo contínuo pela nossa percepção.

    A observação começa e os sons aparecem, cada um a seu tempo, sem hierarquia, apenas no acaso dos acontecimentos.

    A observação acompanha os sons no tempo, os escuta e os percebe.

    A observação termina, a música se desfaz e os sons terminam, esvaem-se.

    Mas isto nem sempre é fácil.

    Uma música onde os acontecimentos se dão sem uma relação fixa com o tempo ou com a métrica pode despertar angústia, suspense, imprevisibilidade e até aversão, como muitos relataram no encontro.

    Esta é uma música que pode tirar o chão, tirar as referências, tirar as certezas… todavia, uma música que conduz a uma observação, a uma introspecção, a um estado de só observar sem alegrias nem tristezas.

    Esta é a proposta do compositor Olivier Messiaen na Liturgia de Cristal, o primeiro andamento do Quarteto para o Fim do Tempo.

    Esta foi a música eleita pela enquete feita via Facebook que virou o tema do primeiro encontro do Clube da Música Clássica.

    Como observamos durante o encontro, o violoncelo e o piano fazem um ambiente, algo cíclico que não tem começo nem fim… apenas o fluxo suave dos sons no tempo, sem julgamentos, sem arrebatamentos, sem exaltação das emoções.

    Inseridos no ambiente, um Melro e um Rouxinol cantam. O Melro, ave sagrada mas destrutiva, tem seu canto sensual e triste feito pelo clarinete. O Rouxinol, com seu canto agudo, livre e espontâneo, aparece no violino.

    Como sugere Messiaen, esta observação se dá entre 3 e 4 horas da manhã.

    «Transposez cela sur le plan religieux, vous aurez le silence harmonieux du ciel1

    Apenas uma observação sobre o tempo.

    Apenas uma meditação sobre o tempo.

    Em fluxo…

    Os acontecimentos a transcorrerem no tempo…

    O tempo a transcorrer livre…

    Que acaba sem concluir…


    Quarteto para o Fim do Tempo – vídeo no Youtube. Liturgia de Cristal: 0’40 a 3’35.

    Escute o canto do Rouxinol e compare com o violino – áudio na Wikipédia.

    Sugestão que fiz no Encontro: Sinfonia Turangalila do Messiaen – vídeo no Youtube. Especial atenção ao Tema do Amor em 8’16.

    Do sânscrito, turanga e lîla: canção de amor e hino de alegria, tempo, movimento, ritmo, vida e morte. (cf. Turangalîla-Symphonie na Wikipédia)

    08/Jul/2017