Categoria: Psicanálise

  • A Manhã do Concerto

    Concertos são momentos que podem provocar situações inusitadas, inesperadas e imprevisíveis. São momentos de tensão que podem disparar comportamentos diversos, surpreendentes e não habituais. Como lidar com a sombra assustadora que pode erguer-se sobre quem tocará num concerto?

    O concerto é à tarde. Ela tem aula comigo no final da manhã. 8 anos, aproximadamente. 8 anos de idade, não de estudo de piano.

    Ela entra na sala e senta-se ao piano. Eu inicio o dialogo:

    – temos concerto hoje à tarde. Então, pensei em revisarmos a música. Pode ser?

    – (silêncio)

    – Podes tocar?

    – não lembro…

    – hum… acho que não percebi.

    – não lembro…

    Não lembro… Simples assim: ela não lembrava a música, nem qual era a música que ia tocar nem como se tocava. Nada.

    – entendi. A música é O Balão do João (música tradicional que as crianças em Portugal cantam de diversas maneiras e em diversas situações). Lembras?

    – não lembro…

    – sol mi mi, fá ré ré (cantarolo). Lembras?

    – não lembro…

    – tenta colocar a mão no piano.

    – não lembro…

    A impossibilidade está posta. Um “não lembro…” sem agressividade, sem revolta, pacato. Apenas a constatação de um fato que não cede. Peço a ela que toque uma música qualquer que já tínhamos estudado. Ela toca perfeitamente. Não é algo com o piano. Pode ser algo específico com o concerto. Investigo.

    – então, agora já consegues tocar O Balão do João. Pode ser?

    – não lembro.

    Toco a música inteira ao piano, lentamente.

    – lembras?

    – não lembro.

    Os concertos e o encontro com o extraordinário.

    Muitas vezes, os concertos são momentos em que os alunos se imaginam testados e avaliados, momentos em que são postos numa posição de vulnerabilidade.

    Nos concertos, é esperado algo “bom”, é esperado que os alunos “toquem bem”. Deles é esperado algo imaginário pois, quando questionados, os alunos não sabem dizer exatamente o que seria esse “tocar bem”, eles não têm clareza daquilo que é esperado que eles façam. Do concerto espera-se algo mítico e extraordinário: algo que não se sabe exatamente o que é mas que deve, supostamente, ser atingido e tomado como referência. O Concerto, com toda a exigência de mito extraordinário, torna-se uma sombra ameaçadora.

    A sombra ameaça os alunos, coloca uma referência que não é apoiada no desejo e nas possibilidades deles, que não é baseada no que eles querem nem no que eles podem produzir. A sombra é uma referência externa colocada pelos outros (o Outro?) e com parâmetros desconhecidos, simplesmente inalcançáveis por não serem palpáveis.

    Frente a essa exigência desconhecida e extraordinária (extra-ordinário, fora do ordinário, fora do comum, fora do quotidiano), paralisa-se. O medo paralisa algumas vezes. Outras vezes pode criar o enfrentamento, como acontece a alguns alunos que entram no palco e não se dão o tempo habitual do ritual: sentam-se e começam já a tocar, imediatamente.

    No caso dela, houve a paralisia e o bloqueio da memória. A memória estava lá, intacta e preservada, porém inacessível pelo medo, pela pressão, pelo desconforto e pela tensão.

    A boa aluna.

    Ela era o que se chama de “boa aluna”, com todos os adjetivos aplicados a essas crianças pela educação habitual: fazia o que era pedido, estava empenhada, era esforçada, bem comportada, dedicada, portava-se bem… Adjetivos que, normalmente, os alunos desconhecem o significado, não sabem o que é esperado deles com esses adjetivos e, principalmente, não sabem o que fazer para atingir o que é esperado deles com esses adjetivos.

    Para mim, o que mais me interessava era o bom humor dela: piadas durante a aula, fome, muita fome, sempre a querer comer, “ôh, raios!” quando enganava-se.

    O que fazer?

    O que me restava nesta situação? Brigar com a menina, gritar, ofendê-la, dizer que não estudava e que era desinteressada, que devia ter se preparado melhor… ? Culpabilizar-me por não ter sido mais “duro” (sic) com ela, exigido mais? Ou acolher os sentimentos dela e tentar trabalhar sobre isso?

    Optei pela última alternativa. Iniciei o trabalho como se fosse do início: como colocar a mão no piano, quais são as notas da música. Em pouco tempo a memória desbloqueou. A melodia que estava a ser trabalhada com a duas mãos (trabalho já feito), passou para a mão direita (trabalho já feito) e depois passou para a mão esquerda (trabalho novo). E o trabalho novo já estava pronto a ser apresentado no concerto em 20 minutos de aula.

    Premissas para o trabalho.

    Como professor, me interesso mais pelo processo de “recuperar” e liberar o saber bloqueado pela sombra do que apontar o resultado do concerto. O processo de retirada do bloqueio da sombra me interessa: como recuperar a memória para a aula e para o próprio concerto?

    Acolher os sentimentos dos alunos é a minha base de trabalho: acolher o bloqueio da memória, acolher a ansiedade do concerto, o lapso, a tensão e a pressão, a preocupação, a angústia, o humor particular desta aluna…

    O particular de cada aluno me interessa e é fundamental na maneira que escolhi para ensinar (construir junto). Acolher o individual de cada aluno é o posicionamento ético que me permite gentilmente construir um saber musical e emocional com os alunos, um saber que extrapola o tocar. As aulas de música são um “saber de relação”: transmite-se uma ética humana de estar junto, com ferramentas para lidar com o emaranhado dos sentimentos e das emoções, ferramentas úteis em qualquer situação da vida e em qualquer relação humana. Quiçá, constroem-se ferramentas para lidar com o próprio desejo – com o sentido psicanalítico de desejo: sustentar aquilo que nos move como seres humanos em direção à vida e à criação.

    Mas como foi o concerto?

    Para acalmar quem lê este texto, digo que o concerto foi bom. Com o acolhimento e suporte emocional, ela conseguiu manter a memória aberta e acessível para usar no concerto e, também, manter-se tranquila para mostrar algo seu para uma plateia de aproximadamente 70 pessoas.

    O humor particular dela permitiu contornar a sombra. Com Chico Buarque: “mas eu não quebro não porque sou macio”.

    O humor permitiu a maciez e a maleabilidade para escapar da pressão da sombra, da dureza da sombra. O humor permitiu que a memória voltasse e que elas – a memória e a aluna – se sustentassem no concerto.

    O humor as salvou!

  • Ensino de música atravessado pela psicanálise

    A teoria e a prática da Psicanálise são as bases que sustentam o Ensino de Música da Nós Bobôs, principalmente as Aulas de Piano.

    Mas, como seria um Ensino de Música atravessado pela Psicanálise? Como funciona uma Psicanálise? Quais são as implicações da Psicanálise no Ensino da Música? E quais são as consequências dessas implicações?

     

    A regra fundamental e os 3 momentos de uma análise

    A psicanálise tem uma regra fundamental, a Associação Livre. O primeiro momento do processo de uma análise é a entrada na Associação Livre: “diga tudo o que vier à sua cabeça, não se censure, tudo aquilo que diz é importante, não tenha uma ideia a priori. Na medida seguir esse método muita coisa vai ocorrer.”1

    Essa liberdade de dizer tudo o que vem à cabeça gera desconforto no analisando[1]Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise. quando este começa uma análise. E não é fácil expressar-se sem limites e sem censura. Este é o primeiro desafio de uma psicanálise.

    Quando o analisando acostuma-se a seguir a Associação Livre, as censuras começam a ceder e ele entra no segundo momento da análise. Os medos e as angústias começam a enfraquecer e o analisando torne-se mais criativo, com mais desenvoltura e destreza para manejar os pensamentos e as ações. A criatividade permite criar um jeito próprio de ser e começa o processo de construção de uma forma particular de agir e de pensar.

    O analisando começa a ser capaz de responsabilizar-se pelas próprias ações, fica mais ligados ao seu desejo, com mais vontade de viver, de produzir, de criar e de estudar. Passa a envolver-se com as ações que considera valiosas e a sustentar o seu modo de ser e o seu modo de se inserir no mundo.

    Assim começa o terceiro momento de uma análise, o momento em que o analisando consegue estar no mundo de uma maneira nova, com menos sofrimentos, com menos sintomas paralisantes. Ele cria uma maneira particular, própria e criativa de ser. A análise acaba com o sujeito a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo.

    E como isso se reflete nas aulas de piano da Nós Bobôs?

    Através do princípio da Associação Livre incentiva-se a liberdade e a criatividade. Durante as aulas, busca-se diminuir ao máximo os julgamentos, as críticas, as censuras, as cobranças. Diminui-se consideravelmente os jogos de violência e punição usados nos sistemas de ensino (Violência Educativa Ordinária – VEO). Cria-se um espaço de acolhimento e segurança onde o aluno pode expressar-se livremente, libertando a sua criatividade.

    O professor sabe que toda manifestação do aluno reflete algo pessoal do próprio aluno. Assim, ele não mantém uma ideia a priori sobre o aluno e sobre o que vai acontecer na aula. Com a Associação Livre, tudo aquilo que o aluno diz é importante: retirar-se a censura ao máximo possível e, ao seguir esse método, algumas coisas acontecem nas aulas.

    Como resultado, o aluno aproxima-se do seu desejo e liberta a sua criatividade (tal como no segundo momento da análise). O aluno ganha segurança, confiança e recursos para se expressar. O piano tornar-se uma maneira de expressão de si e, também, uma forma de satisfação e prazer. A produção do aluno aumenta pois está atrelada ao prazer e à satisfação (sublimação). Com um produto da sua sublimação nas mãos, o aluno é instigado a colocar a sua produção no mundo, colocar a sua criatividade numa relação com as outras pessoas. Tal como no terceiro momento da análise, o aluno coloca o seu desejo e a sua criação singular como uma forma de estar na vida, uma forma responsável, prazerosa e envolvente de estar no mundo. O aluno-sujeito passa a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo e a sua maneira singular de fazer música.

    O desejo da Nós Bobôs

    Movida pelo próprio desejo, a Nós Bobôs herda da Psicanálise as concepções fundamentais sobre a constituição do sujeito, trata seus alunos como seres de linguagem (parlêtre) e faz das descobertas da Associação Livre suas premissas de trabalho.

    Por desejo, as aulas de piano sustentam-se numa ética de desejo.
    Assim se faz na Nós Bobôs.

    22/Jun/2019

    Notas

    Notas
    1 Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise.
  • Ir Além do Espelho

    «L’amour, c’est donner ce qu’on n’a pas à quelqu’un qui n’en veut pas.»

    Jacques Lacan1

    Ter um filho é uma oportunidade de olhar para si mesmo, um impulso e uma força para fazer as mudanças que sempre desejamos mas que sempre deixamos para trás. Não é incomum encontrar pessoas que, quando descobrem a gravidez, resolvem mudar de casa, mudar a casa, mudar de cidade, mudar de estilo, mudar… Mudar-se de uma maneira geral. Mudar-se para acolher uma outra pessoinha que irá dividir a vida.

    Quando a criança chega, começa a transmissão cultural: tudo aquilo que temos como nossos padrões, hábitos, ferramentas para lidar com os sentimentos e escolhas de vida começam a ser transmitidos. Essa transmissão não se dá simplesmente pela via da educação, como se pretende dizer com «educar os filhos». Essa transmissão se faz por uma via de convívio, de transmissão, de fazer junto, de como fazer com o encontro e no encontro. Ousaria dizer que o encontro dos pais com os filhos provoca a transmissão de uma Ética.

    Frente ao que estamos transmitindo, podemos nos observar e observar o que estamos transmitindo, como estamos transmitindo, que resultados esperamos e conquistamos com o que transmitimos. Todavia, junto com a observação, normalmente vêm os julgamentos e as exigências, inclusive as que herdamos dos nossos pais e da cultura que estamos inseridos. E assim surge a violência: a exigência de amar igualmente os filhos, de tratá-los como se fossem iguais entre si, de julgar o que nossos pais fizeram de certo ou errado conosco, de esconder dos filhos que temos amores de diferentes medidas, de julgar os amores que damos para cada um deles…

    Tomo como ponto de partida o texto «Sobre as diferenças entre os filhos e o amor»2 da psicóloga Pollyana Mendonça. Quero dialogar com esse texto, um texto que me fez pensar e me pôs em movimento para escrever estes apontamentos. Apontamentos não prontos, não fechados que me servem para pensar o que faço e lapidar o que faço.

    Filhos como espelho

    «Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças…»3. Cada filho reflete algo de nós. Se estivermos disponíveis no encontro com os filhos, podemos ter uma ideia do que somos a partir da maneira como nossas ações os afetam. E ainda podemos observar o que as ações desse outros seres nos despertam e como elas nos tocam.

    Ana Thomaz, em «O que Aprendi com a Desescolarização»4, fala de sua técnica de observar as próprias sensações e emoções no seu encontro com as filhas.

    «O que o encontro me deu foi o conhecimento de mim mesma, de algo que estava ali guardadinho.»5

    Essa técnica tem dois momentos.

    O primeiro momento é observar os próprios sentimentos e trabalhar com eles para resolver e liberar os próprios bloqueios antes de se direcionar às filhas.

    «Elas continuavam com o problema delas. Paciência! Elas não tinham uma mãe pronta para entrar em contato com elas, pois eu ainda tinha que entrar em contato comigo. … Esperava isso vir à superfície e liberava, só de vir à superfície você libera.»6

    O segundo momento, já liberada das questões pessoais, ela se direciona ao encontro com as filhas para tratar das questões delas, para acolher as filhas num processo de fluxo livre. Desse encontro em fluxo livre vinham insights que ajudavam-na a se relacionar com a situação, soluções sempre inéditas vindas do contato e do encontro.

    O essencial é a diferença

    «O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.»7

    Temos o hábito cultural de comparar e, quando temos dois filhos, é comum o uso da comparação. Aí que o problema aparece: a comparação institui um modelo, um certo e um errado, um julgamento. E, assim, estão lançadas as bases para o início da violência…

    Cada filho despertará emoções e sensações diferentes nos pais. Cada filho é uma pessoas diferente e proporciona um encontro diferente. Mesmo sendo irmãos, os filhos terão jeitos diferentes, nascerão em tempos diferentes, com pais em momentos distintos de maturidade ao longo da vida. Inclusive, cada filho terá uma forma físicas particular. Mesmo os gêmeos idênticos darão relações diferentes e experiências diferentes.

    Há sempre o irredutível temporal que cria memórias e sensações diversas. A relação com cada um dos filhos é diferente, criando traços na memória da mãe e construindo a maneira como ela vê, reage e sente cada um dos filhos.

    Cultivar a diferença para que o outro apareça

    «A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.»8

    É na diferença que nos percebemos como sujeitos. É no contato com o outro diferente que pode aparecer aquilo que é singular em cada um, o que é próprio em cada um, o que é único. Os pais encarnam esse diferente, os irmãos também.

    Haverá sempre diferenças entre os filhos, diferenças fundamentais para que se crie o individual e o pessoal de cada sujeito. Respeitar e acolher essas diferenças próprias de cada serzinho contribui para que a personalidade de cada um possa aparecer, advir e se construir. Ao tentar a igualdade, de uma certa forma desconsidera-se o individual e particular de cada um.

    O essencial é a diferença!

    Considerar a hipótese de que amar os filhos de maneiras diferentes pode ser algo positivo, pois se acolhe o aparecimento daquilo que é próprio de cada um. Mas há outra vantagem em considerar a hipótese de amar os filhos de maneiras diferentes: tornar possível a relação dos filhos com aquilo que o próprio deles cria e desperta nos pais. Tento de uma outra maneira: possibilitar que eles se desenvolvam com o que eles despertam nos pais por serem como são.

    Certamente cada um dos pais agirá de maneira diferente frente ao particular de cada filho devido ao seu próprio particular de pai-mãe. Ao nos relacionarmos com eles do jeito que eles são, fato que nos despertará emoções diversas, eles terão espaço para serem eles mesmos e aprenderem a lidar com as próprias emoções frente aos pais.

    «…provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.»9

    Seria possível ir além de si mesmo e disponibilizar uma maneira outra de acolher o outro?

    Ir além do espelho

    Acima descrevi a técnica que a Ana Thomaz utilizava. A técnica tinha dois tempos: o primeiro é a relação interna; o segundo, a relação externa, a relação com o outro, com os filhos.

    Filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço dedicado exclusivamente ao autoconhecimento. Penso que, para criar um filho, é preciso que os pais se coloquem à disposição dele, coloquem-se em relação para que ele possa se construir a partir do encontro com os pais. Todavia, colocar-se à disposição não é algo passivo e sempre contém uma transmissão, uma transmissão ética que vai muito além do que se educa ou do que se ensina.

    O próprio processo de descobrir-se, pensar-se como pai-mãe e pensar-se como sujeito no encontro com os filhos já é, por si só, uma transmissão, a transmissão de um modo de pensar sobre si.

    «O que elas começaram a ter contato é com uma mãe que se trabalha desta maneira enquanto está enfrentando algum problema. Então eu comecei a perceber que elas estavam entendendo, sem que eu falasse nada, […] que eu faço alguma coisa. […] E eu comecei a perceber que eu estava ensinando indiretamente o processo para elas.»10

    Não é preciso ensinar passo a passo. Os filhos, ao verem os pais no próprio processo, perceberão que algo se passa ali e entenderão esse processo pelo contato.

    «Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar».11

    Retomo que os filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço exclusivo de autoconhecimento. É preciso ir além de si mesmo e da observação de si, colocando-se à disposição para que o outro possa advir. É preciso uma maneira de acolher a singularidade e individualidade de cada filho para ajudá-lo a nomear-se, ajudá-lo a criar ferramentas simbólico para tratar dele mesmo, das suas emoções, das suas sensações e das suas atitudes.

    É preciso ir além do espelho!

    O que se manteria igual para todos os filhos?

    Ir além do espelho é permitir que uma outra instância se instaure, que uma outra forma de estar apareça. Esta outra forma de estar eu chamaria de «Escuta Empática», um tipo de escuta e presença que acolhe o singular de cada filho sem julgamento, que acolhe o diferente de cada um para que o diferente de cada um possa se desenvolver. É uma escuta em que os pais se colocam com a atenção voltada às necessidades, pedidos e desejos dos filhos.

    «Empatia é a capacidade de observar e estar presente sem concordar ou discordar.»12

    Assim é como Dominic Barter define Empatia, uma escolha consciente que experimenta os limites da capacidade de entendimento na comunicação. Assim, a «Escuta Empática» seria uma escolha consciente de sustentar uma posicionamento de escuta frente ao outro na tentativa de remover os bloqueios para a ação.

    Ir além do espelho é estar fora dessa relação pessoal onde o espelho refletiria o que supostamente se é, estar fora do jogo violento de julgamento sobre o que estou fazendo como pai-mãe e da observação especular de quais são as emoções que isso desperta em mim.

    Ir além do espelho é colocar-se na escuta do outro. Na medida do que é possível, é colocar-se dentro da lógica do outro, colocar-se à escuta do que o outro busca nele mesmo e nas relações com os demais.

    Atravessando o espelho

    Nesse encontro de Escuta Empática se faz a transmissão, o que neste momento considero o fundamental da função dos pais: transmitir aos filhos as ferramentas para que eles lidem com as próprias emoções, com as próprias sensações, com os próprios medos, pensamentos, conflitos, sombras, angústias, desejos, ânsias, vontades, gozos…

    Enquanto o pai-mãe estiver dentro de si mesmo e enrolado com as imagens criadas frente ao espelho, acredito que terá uma certa dificuldade de perceber o que se passa dentro dos pequenos (ou grandes, às vezes), o que está lá dentro e quais são as ferramentas que podem ajudar na construção do que está lá dentro.

    Talvez isto seja aquilo que se pode dar de igualdade para todos os filhos: um espaço onde cada um deles pode se mostrar e ser na sua singular, um espaço para ouvir e acolher o que há de mais diferente em cada um deles, para ouvir e acolher o que há de singular.

    A Escuta Empática é uma proposta de ir além do espelho…

    Seria esta uma manifestação do Amor?

    02/Jun/2018

  • O Relógio de Peixinho e o Motor que Estraga

    Entro na sala e me deparo com duas pessoas engalfinhadas e uma grande barulheira.

    De um lado, um menininho de 4 anos puxando aflito o seu braço e falando desesperado: «Vai entrar na água, Mamãe!»

    Do outro lado, a mãe agarrando o braço do menininho dizendo: «Não vai entrar na água. Solta isso! Solta isso!».

    Submersos no puxa-puxa, os dois falam sem parar. E o volume começa a aumentar.

    Só se puxam e se agarram e se puxam e se empurram e se agarram…

    Tento um grito para começar a conversa:

    – Ei! Algum de vocês dois consegue me ouvir?

    Os dois param…

    Olham-me assustados com os olhos arregalados…

    Alguns segundos de silêncio…

    Parece que me escutam.

    O grito é a forma mais eficiente de conseguir a atenção de alguém. Sua eficiência se faz apenas nos primeiros segundos, depois desse tempo, ele transforma-se numa das piores maneiras de se comunicar. Reajusto o tom da voz:

    – Vocês dois estão brigando, é isso? Que tal vocês falarem um para o outro o que querem?

    Nesse tempo eu percebo que há um relógio no meio deles. Um pobre relógio que é agarrado por duas mãos. Essas mãos o disputam, uma em cada ponta de seu corpo, esticando-o para que ele escape das garras do adversário.

    Resgato o coitado que agora pode repousar sobre a mesa, um merecido descanso após sofrer sem dó nem piedade nas garras desses dois sangrentos adversários. Começo pelo Pequeno:

    – O que você quer dizer à Mamãe? Porque você quer levar o relógio para o banho?

    – É que… É que… olha aqui…

    Gaguejando, o Pequeno se desloca na direção do relógio e tenta pegá-lo. Suavemente recoloco a questão sem o objeto.

    – Mocinho, tenta falar porque você quer levar o relógio para o banho.

    – Papai, é um relógio de peixinho. Quero levar o peixinho para o banho.

    Ouvindo isso, a mãe pega o relógio, olha atentamente com a testa franzida e dispara:

    – Não há peixinho aqui! Ele vai estragar. Olha aqui, ó, estraga, estraga se for para o banho!

    – Mas Mamãe, é que, é que…

    O relógio é de um super herói qualquer, só tem as cores e o nome do personagem. A Mamãe tem alguma razão: nada de peixinho…

    Eu volto a escutar o Pequeno, tentando empatizar com o seu mundo para perceber as suas necessidades e vontades.

    – Então tem um peixinho no relógio? E o peixinho gosta de água, é isso?

    – Sim, Papai. Ele gosta de água. E eu gosto de levar o peixinho para a água. Quero levar o peixinho para a água, quero que ele tome banho comigo.

    Verifico se recebi a mensagem que ele me enviou. Apenas redireciono o que ele me disse:

    – Hum, você quer tomar banho com o peixinho!

    Ele sorri.

    Me pareceu que eu havia compreendido a mensagem do Pequeno. Me pareceu, também, que ele se sentiu reconhecido. Seu sorriso me levou a crer que os seus sentimentos estavam sendo ouvidos e levados em conta.

    A Mamãe mudou o olhar. A sua testa já não estava franzida. Me parece que ela voltou a ouvir o filho. Me parece que ela entendeu o que o seu Pequeno queria fazer. Desconfio que ela tenha começado a ver o peixinho no relógio…

    – Acho que a Mamãe também entendeu que você quer levar o peixinho para a água. Agora vamos ouvir a Mamãe? Vamos perguntar porque ela não quer que você leve o relógio para o banho?

    De uma maneira suave e carinhosa, da maneira sublime que a Mamãe é capaz de fazer, ela pega o relógio na mão:

    – Aqui dentro do relógio de peixinho tem um motorzinho. O motorzinho estraga se for na água.

    O Pequeno adora motores. E adora desmontar motores. E adora motores de carros, de motos, de escavadeiras, de aviões, de relógios… ele adora relógios, livros de relógios, sons de relógios, o Big Ben. O Pequeno também adora números… Então ela continua:

    – Está vendo esses números aqui no relógio de peixinho? É o motorzinho que faz os números. Se for na água, o motorzinho estraga e os números desaparecem.

    Ela faz uma proposta-pedido:

    – Vamos deixar o relógio aqui fora para o motor não estragar e continuar fazendo os números?

    O Pequeno sorri para sua Mamãe.

    «Sim, Mamãe!» é a resposta.

    Ele larga o relógio na mesa, vira as costas e sai correndo para o banho.

  • No Trem d’Écrire

    Eu jogo: alguma verdade a poucas mentiras…

    Há 10 dias conversei, via Messenger, com alguém que nem conheço.

    Tudo começou com esta imagem. E nossa conversa seguiu pelos trilhos de sair dos trilhos e empatias com descobertas do lado de lá e, indo adiante em associação com a análise, com descobertas do lado de cá.

    Esta noite tive um sonho: ela me escrevia.

    «Ana Carolina est en train d’écrire», aparecia.

    Realização de desejo? E porque em francês?Meu Messenger está em Português mas meu WhatsApp em Francês, como a maior parte das minhas coisas eletrônicas.

    Mas porque a troca de aplicativo? «En train d’écrire» é gerúndio, escrevendo, em curso de escrever, um presente contínuo.

    Mas, entrando em outros trilhos, o «train» é trem, comboio, um elétrico talvez, um bonde, bom de…

    A verdade é mentirosa: o trem que trama além do trilho. Um trem que vai, volta, descarrilha, des«train»belha, atropela essa cabeça de dentro como ela sugere. E que nem termina em uma estação pois é incompleto.

    Facades:

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Philip Glass.

    What’s up?

    Um elétrico chamado desejo…?

    Verdade ou mentira?

    25/Mai/2017

  • Crianças que batem nos pais: me ensinas a amar?

    Levar um tapa do próprio filho pequeno sempre agrediu os pais e as mães.

    Até que ponto as crianças são capazes de lidar com os próprios sentimentos e os enlaces do amor e do ódio?

    Será que uma criança poderia demonstrar um pedido de amor e ajuda através da agressividade?

    Amor e Ódio

    Chico Buarque e Elis Regina cantam uma cena de ódio, raiva, rancor e vingança para mostrar que ainda há amor:

    «Dei pra maldizer o nosso lar
    Pra sujar teu nome, te humilhar
    E me vingar a qualquer preço
    Te adorando pelo avesso
    Pra mostrar que ainda sou tua
    Até provar que ainda sou tua»

    E vamos ao velho Freud:

    «O ódio motivado de maneira real é fortalecido pela regressão do amor ao estágio sádico preliminar, e portanto odiar assume um caráter erótico e a continuidade de uma relação amorosa é garantida».

    Enlaces do Ódio e do Amor

    Ódio e amor não são a mesma coisa. Tampouco a violência contra a mulher ou contra o homem é uma forma de amor. O que ressalto é que ódio e amor não são tão distantes assim.

    Com Lacan temos a expressão «hainamourer», neologismo unindo a sua homófona «énamourer» (enamorar-se, apaixonar-se) com um começo em «haine» (ódio): o ódio vem antes, é mais fácil de expressar do que o amor que demanda algum empenho e cultivo.

    O oposto do amor não é o ódio. O oposto do amor é a indiferença.

    Amor e ódio como expressão da fascinação

    Ódio e amor são apenas duas maneira de exprimir uma fascinação, de exprimir uma ligação. Há de haver alguma coisa que regula essa «descarga» de fascinação, conduzindo-a ou ao ódio ou ao amor. Quando vemos adultos manifestando ódio desmedido, como em brigas de casais ou namorados, percebemos que algo ali vai mal e vai deslocado. É possível perceber que há um curto-circuito fazendo com que este adulto transforme em ódio a descarga que deveria se direcionar ao amor. Este ódio pode mostrar a fascinação forte que, por curto-circuito ou por falta de meios, não consegue atingir a via do amor.

    Curto-circuito e imaturidade infantil

    Há um curto-circuito, há um sistema que ainda é infantil, que ainda não amadureceu para conseguir lidar com as emoções. As crianças (e alguns adultos) ainda estão imaturas emocionalmente. Sendo assim, amar e odiar são ainda confundidos para estabelecer a relações.

    Ao partir da premissa que amor e ódio são formas de ligação e fascinação, quando uma criança resolve agredir os seus pais (manifestação de ódio), ela manifesta uma ligação e uma fascinação. Mas como?

    A criança nem sempre tem recursos suficientes para direcionar as emoções por uma via adequada, principalmente as emoções ainda desconhecidas. Assim, algumas emoções que poderiam ir pela via do amor acabam saindo pelo ódio. De outra forma, a criança sente alguma emoção desconhecida e a única forma que ela consegue manifestar é através do ódio ou da agressão.

    É frequente ouvir crianças irritadas ou com sono dizerem que odeiam os pais. E logo que os pais respondem que as amam mesmo assim, a criança fica feliz e tudo se resolve.

    Agressão como forma de ligação

    Transformo ainda mais um pouco. Quando uma criança resolve bater em seus pais, ela está manifestando um sentimento seu, ela está direcionando este sentimento para o adulto que a cuida. Destinar um sentimento, seja qual for a via possível para manifestá-lo, é um ato de confiança.

    A criança sabe que está se manifestando de uma forma destrutiva. Mas esta é a única via que ela consegue comunicar determinado sentimento, além de ser uma maneira de testar as suas emoções, testar como o outro vai reagir, aprender e, principalmente, receber algo de volta do outro.

    Continuando o percurso: ao agredir os pais, a criança está confiando inteiramente no adulto, confiando que ele é capaz de lidar com aquele sentimento que ela só consegue manifestar pela agressão. Ela sabe que bater e agredir dói e pode machucar o adulto, mas ela também sabe que o adulto é o único que pode ajudá-la a encontrar uma forma melhor de direcionar essa emoção, essa descarga.

    De outra forma, agredir pode ser um pedido da criança: «Por favor, me explica o que é esta emoção que eu só sei manifestar pela agressão. E me explica como lidar com isto!»

    Há uma entrega total da criança no ato de agredir. Ela abre-se completamente deixando descoberto e sem defesa tudo aquilo que ela tem dentro de si.

    A reação dos pais e a confiança das crianças

    Agora a parte que mais me preocupa: como os pais reagem a esta agressão?

    Os pais supostamente são adultos maduros, que sabem lidar com as próprias emoções e a quem as crianças depositam toda a confiança e endereçam pedidos de auxílio.

    Mas, como Lacan diz com «hainamourer», o ódio vem antes do amor.

    Percebo que alguns pais não lidam com as suas próprias emoções e não conseguem transpor este primeiro passo do ódio. Assim, a criança recebe como resposta uma outra agressão: um tapa, um grito, um puxão de orelhas, um puxão pelo braço…

    Ao se abrir completamente num pedido de ajuda, ela recebe uma agressão, um revide, um ato raivoso que quebra a inteira confiança que ela depositou no adulto. É isso mesmo?

    Esta agressão entra diretamente no que a criança tem de mais íntimo. E, além de quebrada a inteira confiança que a criança depositou nos pais, a agressão destes fecha o assunto sem a ajuda esperada pelo pedido da criança: «me explica como lidar com isso, por favor».

    Ou pior ainda, fecha-se o pedido com a prática: «lida com isso através da agressão!»

    Um pedido outro

    Assim, chega-se a um outro pedido: acolhas a agressão que a criança endereça a ti.

    Mas como acolher a agressão da criança contra mim?

    Lembre-se: ódio não é o contrário do amor.

    Se a criança te escolheu, ela não sente indiferença por ti.

    Se a criança te escolheu, ela manifestou uma fascinação por ti.

    Se a criança te endereçou uma agressão como pedido de ajuda, é sinal que ela confia muito em ti.

    Se a criança te endereçou uma agressão, é sinal que ela ainda não sabe dizer «eu te amo».

    Por favor, não revides à agressão. Poderias apenas mostrar a ela como é que se diz «eu te amo!»?

    Uberlândia, Abril/2017

  • Ao Entrar

    «Que ninguém entre aqui se tiver a intenção de sair» diz o escrito pregado ao alto.

    Ao entrar, deixe o absoluto à porta. E com ele deixe a intolerância. Não entre se não conseguir suportar a angústia da incerteza, do diferente e do que não tem normas. São poucos os capazes de lidar com ela e aqui dentro não cabe nenhum eleito.

    Ao entrar, só verá o absurdo, só haverá o singular, o mais próprio que o próprio nome, só o resto, o delírio.

    Ao entrar, dispa-se. Só será capaz de permanecer dentro aquele que, em busca de todas as suas dobras e elevações, consegue por-se nu a si mesmo.

    Ao entrar, verá que o que faz mover é o desejo, razão própria e singular, o que não tem nome, o que não é justo, o que não há recusar A razão que faz sentido e que é sentida como dor e gozo pelo um-só.

    Ao entrar, verá que é isso, que não é legal, que não é como os outros, que não se aprova. Mas que é isso, que é como é e não pode ser diferente.

    Se ainda não entrou, não entre! A angústia aqui dentro ser-lhe-á insuportável.

    Se já entrou, não olhe para trás. O que ficou à porta, e para além dela, já lhe é insuportável.

    2011