Entro na sala e me deparo com duas pessoas engalfinhadas e uma grande barulheira.
De um lado, um menininho de 4 anos puxando aflito o seu braço e falando desesperado: «Vai entrar na água, Mamãe!»
Do outro lado, a mãe agarrando o braço do menininho dizendo: «Não vai entrar na água. Solta isso! Solta isso!».
Submersos no puxa-puxa, os dois falam sem parar. E o volume começa a aumentar.
Só se puxam e se agarram e se puxam e se empurram e se agarram…
Tento um grito para começar a conversa:
– Ei! Algum de vocês dois consegue me ouvir?
Os dois param…
Olham-me assustados com os olhos arregalados…
Alguns segundos de silêncio…
Parece que me escutam.
O grito é a forma mais eficiente de conseguir a atenção de alguém. Sua eficiência se faz apenas nos primeiros segundos, depois desse tempo, ele transforma-se numa das piores maneiras de se comunicar. Reajusto o tom da voz:
– Vocês dois estão brigando, é isso? Que tal vocês falarem um para o outro o que querem?
Nesse tempo eu percebo que há um relógio no meio deles. Um pobre relógio que é agarrado por duas mãos. Essas mãos o disputam, uma em cada ponta de seu corpo, esticando-o para que ele escape das garras do adversário.
Resgato o coitado que agora pode repousar sobre a mesa, um merecido descanso após sofrer sem dó nem piedade nas garras desses dois sangrentos adversários. Começo pelo Pequeno:
– O que você quer dizer à Mamãe? Porque você quer levar o relógio para o banho?
– É que… É que… olha aqui…
Gaguejando, o Pequeno se desloca na direção do relógio e tenta pegá-lo. Suavemente recoloco a questão sem o objeto.
– Mocinho, tenta falar porque você quer levar o relógio para o banho.
– Papai, é um relógio de peixinho. Quero levar o peixinho para o banho.
Ouvindo isso, a mãe pega o relógio, olha atentamente com a testa franzida e dispara:
– Não há peixinho aqui! Ele vai estragar. Olha aqui, ó, estraga, estraga se for para o banho!
– Mas Mamãe, é que, é que…
O relógio é de um super herói qualquer, só tem as cores e o nome do personagem. A Mamãe tem alguma razão: nada de peixinho…
Eu volto a escutar o Pequeno, tentando empatizar com o seu mundo para perceber as suas necessidades e vontades.
– Então tem um peixinho no relógio? E o peixinho gosta de água, é isso?
– Sim, Papai. Ele gosta de água. E eu gosto de levar o peixinho para a água. Quero levar o peixinho para a água, quero que ele tome banho comigo.
Verifico se recebi a mensagem que ele me enviou. Apenas redireciono o que ele me disse:
– Hum, você quer tomar banho com o peixinho!
Ele sorri.
Me pareceu que eu havia compreendido a mensagem do Pequeno. Me pareceu, também, que ele se sentiu reconhecido. Seu sorriso me levou a crer que os seus sentimentos estavam sendo ouvidos e levados em conta.
A Mamãe mudou o olhar. A sua testa já não estava franzida. Me parece que ela voltou a ouvir o filho. Me parece que ela entendeu o que o seu Pequeno queria fazer. Desconfio que ela tenha começado a ver o peixinho no relógio…
– Acho que a Mamãe também entendeu que você quer levar o peixinho para a água. Agora vamos ouvir a Mamãe? Vamos perguntar porque ela não quer que você leve o relógio para o banho?
De uma maneira suave e carinhosa, da maneira sublime que a Mamãe é capaz de fazer, ela pega o relógio na mão:
– Aqui dentro do relógio de peixinho tem um motorzinho. O motorzinho estraga se for na água.
O Pequeno adora motores. E adora desmontar motores. E adora motores de carros, de motos, de escavadeiras, de aviões, de relógios… ele adora relógios, livros de relógios, sons de relógios, o Big Ben. O Pequeno também adora números… Então ela continua:
– Está vendo esses números aqui no relógio de peixinho? É o motorzinho que faz os números. Se for na água, o motorzinho estraga e os números desaparecem.
Ela faz uma proposta-pedido:
– Vamos deixar o relógio aqui fora para o motor não estragar e continuar fazendo os números?
O Pequeno sorri para sua Mamãe.
«Sim, Mamãe!» é a resposta.
Ele larga o relógio na mesa, vira as costas e sai correndo para o banho.