Categoria: Comunicação

  • Sobre o Desejo, pela Necessidade e Demanda

    d = N – D

    d = Desejo
    N = Necessidade
    D = Demanda

    A Demanda se faz com palavras, é o que se pode falar da Necessidade. É aquilo que se pode pedir para articular, organizar e atender a Necessidade.
    Pela Demanda se comunica, aos outros e a si, o que se necessita, o que se precisa e o que se quer.
    É através da Demanda que conseguimos ficar vivos e em relação com os outros e com o mundo.

    Mas há uma parte da Necessidade que sobra, que resta e persiste depois da Demanda.
    Há uma parte que não cessa: o Desejo.

    O Desejo é o que resta de Necessidade depois da Demanda, é aquilo que a articulação em palavras não conseguiu satisfazer da Necessidade.
    O Desejo é aquilo que não é satisfeito através da Demanda.
    O Desejo está “fora das palavras”, apesar de ser moldado e emoldurado por elas.

    Quanto mais palavras se tem para fazer a Demanda, melhor se consegue dizer as Necessidades e melhor será delimitado o Desejo.
    Quanto mais se consegue falar dos sentimentos e das Necessidades, melhor é cercado e melhor é apreendido o Desejo, sempre de maneira indirecta.
    O Desejo é “o que não tem nome nem nunca terá”.

    A satisfação de um Desejo causa prazer e, ao mesmo tempo, estranheza. Prazer pois há uma parte da necessidade que é satisfeita. Estranheza pois há uma parte que escapa da palavra, que escapa do que se consegue dizer, que é estranha.

    O Desejo pede acto, acção, fazer. É uma experiência: aceitar o fim da fala, num momento onde só se pode agir. É o momento de deixar de usar as palavras e simplesmente fazer o acto, como na anedota “cala a boca e me beija”. Por mais que se peça, só se satisfaz pelo acto, não no acto em si, mas através dele.

    O Desejo é acto com surpresa, imprevisibilidade e manifestação de vontade.
    Ele atinge alguma coisa além do acto.
    Ele atinge a sobra da Necessidade: aquela satisfação à qual faltam palavras.

    O Desejo não se pede e só se satisfaz por invasão e pelo inesperado.

    Talvez por isso que a surpresa amorosa causa estranhamento e satisfação.
    Talvez por isso ela pode ser tão difícil de suportar.

    Graciosa, 07/Nov/2020.

  • Apontamentos de Disciplina Positiva 

    O que me deixa curioso na Disciplina Positiva é o termo “Positivo”.

    Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, positivo não indica bom ou mau, apropriado ou desapropriado.
    Positivo tem o sentido de afirmação, de não-negação, de sugerir algo. No lugar da proibição, colocamos a sugestão ou o direcionamento.

    Podemos substituir a negação e a proibição (ação pelo negativo) por uma afirmação, pela sugestão de uma ação positiva e de presença, uma ação afirmativa. Substituir a ação negativa (não qualquer coisa) por aquilo que é possível fazer, que é adequado à situação, que fará com que consigamos aquilo que queremos – mantendo a suavidade e fortalecendo o laço afetivo.

    Faço apontamentos sobre algumas orientações da Disciplina Positiva.

    Criar regras

    A criação das regras pode ser feita junto e em parceria com as crianças. As regras devem atender às necessidades de todos e devem ser seguidas por todos (pais e crianças).

    Inspirar a motivação intrínseca

    Retirar o reforço positivo e negativo, retirar os julgamentos, as recompensas e as punições.

    Assim, as crianças deixam de agir em função de fatores externos como evitar as punições ou conseguir as recompensas. Para dizer de forma positiva, elas passam a gerir suas ações em função de suas próprias vontades e desejos (motivação interna).

    Reconhecer as necessidades

    O mal-comportamento, a agressão e a violência surgem a partir de necessidades não atendidas.

    Pode ser útil reconhecer as necessidades não atendidas das crianças para colocar o foco das ações delas nesse reconhecimento. O reconhecimento das necessidades também pode ser útil para orientar as ações e as estratégias tendo em vista a satisfação das necessidades.

    Assim, trocamos as nossas ações que visam inibir o mal-comportamento por ações que buscam satisfazer as necessidades que a criança precisa.

    Entender o significado e o sentido do comportamento

    Os comportamentos inapropriados são maneiras de comunicar alguma emoção desagradável.

    As crianças não agem sem uma razão válida e sem uma motivação verdadeira. Se as razões para o comportamento inapropriado forem removidas ou reconhecidas, a criança não terá mais a causa para esse comportamento e mudará suas atitudes.

    Redirecionar o comportamento inapropriado

    Os pais podem sugerir ações ou direcionar o pensamento da criança para ações que sejam positivas e que atendam às necessidades da criança. Positivas: que sejam apropriadas e, ao mesmo tempo, que sejam afirmativas, diretas, sem serem antecedidas por negações (não bata, não brigue, não grite).

    Construção consciente da disciplina

    Desenvolver a disciplina com as crianças no lugar de aplicar disciplina a ela.

    A sugestão é observar as situações para elaborar maneiras de gerir as emoções e os comportamentos. Ao evitar a imposição de comportamentos e formas de agir, possibilitamos que as crianças elaborem formas de gerir as suas emoções e as suas atitudes de maneira mais consciente, mais criativa e mais autónoma.

  • Sobre limites e palmadas

    Carta a um amigo

    Querido,

    Percebo e compartilho da tua preocupação com o facto de que é preciso dar limites às crianças. Também compartilho da tua preocupação com a ação dos pais.

    Não consegui ser conciso nesta carta pois os limites na educação dos filhos é uma questão importante para mim. Creio que os limites devem ser colocados da maneira mais eficiente possível, pois disso depende a habilidade de convívio social e, principalmente, a manutenção da vida da criança.

    O que chamamos de limites é algo fundamental, algo que é da ordem da transmissão da cultura. Vejo a cultura como um conjunto de ferramentas que nos ajudam a viver a vida, um conjunto de regras, de mecanismos e de informações facilitadoras da nossa vida e fundamentais para a manutenção da nossa vida.

    Os tipos de limites.

    Consigo observar 2 tipos de limites. O limite real é aquele ligado aos factos reais, da natureza, do mundo, os quais não conseguimos mudar. Um grande exemplo é a gravidade. Uma criança não deveria pular de cima de um armário, pois cairá no chão e irá se machucar. Para a manutenção da própria vida, esse limite deve ser respeitado.

    Do limite real, surge o limite simbólico. Este é o limite inscrito no plano cultural: uma simbolização, uma conversão em palavras de algo da realidade. Criam-se palavras e regras que nos ajudam na vida e ajudam a criança a lidar com o mundo. Para que uma criança saiba que pode cair de cima do armário, é preciso que ela compreenda o que é cair, é preciso que ela tenha a liberdade de experimentar e perceber com o próprio corpo o que é cair. Esses experimentos se fazem em segurança através das brincadeiras infantis. Jogar objetos ou deixar cair objetos é uma dessas experimentações. Cair torna-se palavra e, assim, pode ser manipulado, compreendido e usado pela criança.

    O limite simbólico faz-se a partir disso: a criança começa a ter símbolos que a ajudam na compreensão do mundo, a perceber o funcionamento do próprio corpo e do mundo através desses pequenos combinados e acordos vindos das palavras. As palavras ajudam-na a viver no mundo: «Não ponha a mão no fogo, pois o fogo queima». Para que criança entenda o que é «fogo queima» e evite tentar tocar o fogo, é preciso que ela saiba que queimar é uma experiência ruim e desprazerosa. Caso contrário, ela pode desconfiar que queimar é algo prazeroso e ficará com vontade de experimentar – o mal entendido é estrutural.

    No limite simbólico também residem e se solidificam os combinados sociais, a moral, a forma de agir em sociedade. Não se grita em espaços públicos, não se bate em ninguém (a menos que seja para se defender e preservar a própria vida ou a vida da criança, mas apenas o necessário para isto). De uma certa forma, para tratarmos das regras sociais, o limite simbólico tem uma parte formada pela invenção e já não é um limite baseado nas leis da natureza (imutáveis, a princípio) e do corpo. O limite simbólico apoia-se nas regras de convivência que são combinadas entre as pessoas e essencialmente mutáveis ao longo do tempo.

    Assim, o limite simbólico tem duas partes: 1) a primeira parte é para auxiliar na percepção da natureza e do mundo que nos rodeia (incluindo o próprio corpo) para que seja possível manejá-los e manter a própria vida; 2) a segunda parte é a invenção e os combinados de regras para se viver em sociedade, para que as vontades de todos possam ser minimamente respeitadas e atendidas, para que as pessoas se machuquem o mínimo possível.

    Resumindo:

    1. O limite real é o limite da natureza, o limite do mundo, o limite do corpo no mundo, o que se apresenta de forma imutável e que pode pôr a vida em risco.
    2. O limite simbólico é um limite criado através das palavras. Tem duas partes:
      1. Uma parte são as palavras e os conhecimentos que servem para nos ajudar a lidar com o mundo, que nos permitem a mediação entre nós e o mundo, que nos permitem manipular e usar o mundo para a nossa vida.
      2. A outra parte firma e funda os pactos sociais, as formas como nos portamos, molda os comportamentos que temos em sociedade.

    Função dos pais.

    Para começarmos a andar em direção à palmada, proponho pensarmos a função dos pais (avós, tios, irmãos, professores e Estado na sequência da vida) na construção desses limites.

    Visto que o limite simbólico serve para perceber o limite real e é a ferramenta que temos para lidar com o mundo real e o mundo social, a função dos pais neste contexto é transmitir o limite simbólico aos filhos. Os pais transmitem o limite simbólico no qual, também, estão inseridos. Transmitem o limite simbólico que construíram para si, que adotam para si e que estão familiarizados. Vale lembrar que o limite simbólico é feito por palavras, pela fala, por conceitos, por aprendizado.

    A função dos pais é construir e transmitir esse limite simbólico, dar ferramentas à criança para que, aos poucos, ela possa começar a gerir-se sozinha no mundo, a controlar o próprio corpo, a lidar com os próprios sentimentos. Enfim, a função dos pais é dar ferramentas para que a criança possa fazer sozinha o que lhe é fundamental à preservação da vida (e um pouco mais para satisfazer o desejo). Para se atingir esse «gerir-se sozinha» (independência), é preciso que a criança aprenda palavras (significantes), aprenda conceitos, aprenda conteúdos e os vivencie. É preciso que algum saber se solidifique na corporeidade da criança para que ela possa manejar esse simbólico através do seu pensamento. Este saber se faz, também, pelo limite simbólico. Espero que até aqui eu esteja a fazer algum sentido para ti.

    E como a palmada contribui?

    A palmada tem efeito direto no corpo, na sensação do corpo. A primeira coisa que a criança recebe com a palmada é o contato. Como normalmente é um contato forte, ela sente o impacto, o desconforto e a dor do contato forte no corpo. Isso é semelhante a qualquer impacto, a qualquer batida na quina da mesa, a qualquer batida de cabeça na porta do armário suspenso.

    Logo depois do contato, vem a sensação de alerta: o corpo da criança é invadido por uma sensação real de desconforto que a leva a um estado de alerta. Normalmente a cena da palmada continua com os gritos de quem deu a palmada e, possivelmente, com uma separação – «vai para o teu quarto pensar!» ou «já para o castigo!».

    Como se pode perceber, a cena da palmada é uma cena de eventos, de fatos que acontecem em sequência. Uma cena no âmbito do real: uma série de eventos. Vimos que a função dos pais é construir o limite simbólico, ensinar palavras e nutrir a criança com ferramentas para que ela possa gerir-se sozinha no mundo.

    As minhas questões são: em qual momento da cena da palmada (real) aconteceu a construção do limite simbólico? Em qual momento a palmada contribuiu para criar palavras, conceitos e conhecimento na criança? Em qual momento houve a conversão do real que invade o corpo da criança em algo que ela possa manejar nas próximas situações da vida?

    Apesar de conseguir a completa atenção da criança naquele momentos – sim, a palmada invade o corpo e a criança pára de fazer tudo o que estava fazendo -, não consigo captar o momento em que a palmada faz a construção do limite simbólico. A palmada veio na tentativa de ressaltar e marcar que a criança fez algo errado, algo que não deve ser feito. Para que a criança perceba que fez algo de errado, isso precisa ser convertido em palavras, em conceitos (simbólico). De onde observo, na palmada não acontece o processo pelo qual o erro da criança passa a ser algum conceito que ela pode relembrar no futuro, um conceito que a ajude a agir diferente na próxima vez.

    Qual seria a reação da criança frente ao susto e à dor da palmada? Qual seria a nossa reação, como adultos, ao receber uma palmada? Qual era a nossa reação como criança ao receber uma palmada?

    Será que sozinha ela consegue criar palavras e perceber o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que no castigo ou no quarto sozinha ela conseguirá perceber sozinha o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que sozinha a criança conseguirá construir o conceito e tirar as conclusões da cena da palmada para construir o seu limite simbólico?

    Será que sozinha…

    E aqui eu vejo o ponto mais importante: a palmada provoca uma ruptura na ligação afetiva e no companheirismo entre os pais e as crianças. A palmada insere uma dimensão de dor e estado de alerta, estado provocado intencionalmente pela pessoa que é o suporte afetivo, emocional e de cuidado da criança. De onde vinha amor, repentinamente explode uma ação que provoca dor e desconforto. De onde vinha ligação (a ligação mais forte da criança), vem uma ação de separação. Da pessoa que antes dava proteção (a relação de proteção mais forte da criança), vem uma ação intencional que provoca dor e alerta.

    O quanto a palmada contribui para uma relação de confiança da criança com os pais? O quanto a palmada contribui para a sensação de segurança, de estabilidade emocional, de garantia de suporte e auxílio à criança que ainda não tem as ferramentas para se manter viva sozinha? Será que a palmada não interfere na ligação e no laço afetivo entre os pais e os filhos?

    O que mantém os laços entre as pessoas?

    Na sua carta ao Einstein, em resposta a um pedido do próprio Einstein, Freud aponta que, para que as pessoas permaneçam juntas, precisam de duas instâncias agindo em conjunto.

    A primeira é a instância da lei, do social, das relações sociais e das funções: pai e filhos, mãe e filhos, avós e crianças, pais e avós, professor e aluno, marido e mulher, chefe e empregado. São todas funções. E as funções sociais acabam por retirar o pessoal de cada um, reduzir a subjetividade (elimina o sujeito) a favor da função: faz uma violência. Ao mesmo tempo, a instância da lei funciona como um limite simbólico (para os adultos), os combinados sociais que limitam as ações das pessoas, que organizam as estruturas de comportamento e de relação, que funcionam como um guia indicando, principalmente, o que não se deve fazer: protege da violência.

    A segunda instância é o laço afetivo, os laços de afeto e amor, as relações de cuidado e carinho, os sentimentos. Sabemos que os sentimentos ligam as pessoas. Também vale, aqui, as relações de identificação cultural: compartilhar os mesmos gostos, ter afinidades e atividades em comum, gostar do mesmo time de futebol ou da mesma banda, tocar o mesmo instrumento, dançar o mesmo estilo de dança, gostar da mesma comida.

    Essas duas instâncias, como Freud sugere, devem acontecer ao mesmo tempo. As relações se sustentam de maneira mais estável e duradoura se as duas instâncias estiverem a agir ao mesmo tempo. E elas fazem suplência e apoio uma à outra. Cada uma delas sozinha não é estável o suficiente para manter as relações. Elas são instâncias que estão sujeitas a modificações e a se desfazerem: o afeto sustenta o laço quando a lei não regulamenta suficientemente; a lei faz barreira e limite (simbólico) quando o afeto falta.

    Sendo assim, as relações entre pais e filhos precisam dessas duas instâncias: afeto e funções. E elas devem ser dos dois lados: os pais nutrem afeto, amor, carinho e cuidado pelos filhos ao mesmo tempo que assumem a sua função de cuidadores responsáveis pela manutenção da vida e formação desse indivíduo pequeno; a criança nutre afeto, amor, carinho e cuidado pelos pais e, ao mesmo tempo, reconhece os pais como aquelas pessoas que garantem sua sobrevivência, sua integridade física e mental, seus cuidados básicos e atenção.

    Quais podem ser os efeitos da palmada nas duas instâncias que mantém os laços entre as pessoas?

    A pensar nessas duas instâncias colocadas por Freud, podemos observar os possíveis efeitos da palmada, com base no que apontamos anteriormente.

    No campo da primeira instância (os laços de lei e função social), instância responsável pela manutenção da integridade física e mental da criança, a palmada contradiz esta instância por provocar dor, desprazer, sofrimento e desconforto. Assim, os pais, que têm a função de garantir o bem-estar da criança, provocam mal-estar, dor e sofrimento na criança. Provocam deliberadamente, conscientemente e intencionalmente esse mal-estar. A criança esperava ser cuidada pelos pais, mas o que ela recebe é uma ação que coloca em risco a sua segurança e integridade.

    No campo da segunda instância, são esperadas ações de prazer, cuidado e afeto. Ao surgir a palmada, de onde era esperado carinho, acolhimento, compreensão, segurança, proteção e educação, vem uma ação agressiva que provoca danos físicos e emocionais. De onde era esperado um suporte emocional, uma ação tranquila e tranquilizadora, um suporte acolhedor e de educação que permite criar ferramentas simbólicas para lidar com as emoções, surge uma ação violenta, de separação, de inquietação, de alerta. Se assim for, a palmada não contribui com essa segunda instância e a confiança é quebrada.

    De onde observo, o resultado da palmada vai na contramão do que é suposto ser a função dos pais, pois provoca o desenlace dessas duas instâncias que mantêm as pessoas próximas e ligadas.

    Mas quando se pode bater em alguém?

    A princípio, bater em alguém deliberadamente é agressão. Bater em alguém só é permitido (pela lei) quando for para defender a própria vida, para manter a própria vida e a própria integridade ou para manter a vida e a integridade do filho (legítima defesa). A legítima defesa só pode legitimar o uso da agressão como defesa quando a pessoa é atacada anteriormente, a agressividade só pode ser usada como defesa a uma agressão recebida ou claramente eminente.

    Será que a criança ameaça a integridade dos pais a ponto deles precisarem bater nela para se proteger e proteger a própria vida? Será que os pais se sentem ameaçados pelos filhos?

    Esta é uma hipótese a verificar. Se assim for, é preciso criar ferramentas simbólicas (culturais) que permitam aos pais não se sentirem ameaçados pelos filhos e, assim, não usarem a agressão como recurso. É preciso criar recursos pessoais que permitam aos pais lidarem com os próprios sentimentos e com os filhos sem se sentirem desamparados e ameaçados. Também é preciso criar recursos sociais que deixem os pais mais seguros, mais amparados e menos ameaçados.

    Mas o que fazer para criar os limites?

    É importantes não confundir firmeza afetuosa com agressão. A palmada é uma agressão, como já vimos até aqui.

    A firmeza é uma espécie de presença consistente e que pode ser extremamente afetuosa, acolhedora, cuidadosa e amorosa. Eu chamaria de presença afetuosa. Ela utiliza palavras e ações que acolhem os sentimentos das criança e, também, constroem as ferramentas para o limite simbólico.

    Muitas vezes, os limites (simbólicos) não são aceites pela criança. Assim, ela vai reagir com ansiedade, raiva e ódio (em legítima defesa?) e todos os outros sentimentos vindos da frustração. Sentimentos legítimos para uma criança, sentimentos que também são sentidos pelos adultos quando são colocados frente a um limite simbólico – adultos sem as ferramentas simbólicas para lidar com a própria frustração.

    Há aquelas situações que tratam de um limite real e que os limites não podem ser flexibilizados para a proteção da vida da criança. Nos casos em que o limite não pode ser flexibilizado, os pais podem usar a firmeza afetuosa. Uma firmeza afetuosa é estar presente, colocar o limite de maneira muito clara e direta, acolher os sentimentos da criança (frustração, tristeza, raiva…). A firmeza afetuosa também pode sugerir outra coisa a ser feita para que a criança possa ter a satisfação e o prazer que buscava com a ação fora do limite. Podemos dizer que esta é uma construção de limites de maneira positiva, de maneira afirmativa. Se a criança queria pular do armário, podemos sugerir jogar um objeto para cima e ver o que acontece com o objeto quando chega ao chão: cair no chão dessa altura deve doer, não? Se a busca era o prazer de saltar, colocamos um colchão no chão e pulamos nele, ou vamos a uma cama elástica ou outra solução dentro dos limites reais e dos limites simbólicos suportados pelos pais.

    É preciso e precioso preservar as instâncias de ligação, tanto a função de pais cuidadores como a ligação afetiva de cuidados e de amor (amor dos pais que se supõe incondicional).

    Limites flexíveis e limites inflexíveis.

    Outra questão que me coloco sobre limites é a possibilidade de flexibilizar e negociar os limites. Ou até a possibilidade de construí-los em conjunto com a criança, baseado nas necessidades e possibilidades reais e nos fatos perceptíveis e imperceptíveis para a criança. Mas isso demanda um pouco de coragem de investigar, refletir e sustentar as consequências e vantagens dos próprios atos.

    Quais são os limites que efetivamente são baseados no real e que não podem ser flexibilizados? Pular de cima de um armário é um exemplo. Quais são os limites que podem ser flexibilizados? Quais são os limites que herdamos socialmente ou herdamos de nossos pais-avós que não são efetivamente limites baseados no real? Quais são os limites herdados que já não fazem mais sentido (por questões históricas, sociais ou culturais)? Quais são os limites que eu quero cultivar e que eu acho fundamentais? E, principalmente, quais são os limites que me auxiliam e me conduzem na direção daquilo que quero cultivar com os meus filhos?

    Os limites são, também, uma questão de escolha. Para isso, precisamos bancar nossas escolhas e decisões e, em muitos casos, reconhecer os nossos limites.

    Se o limite pode ser flexibilizado, flexibiliza-se.

    Se o limite não pode ser flexibilizado, vamos mantê-lo de uma forma firme, gentil e afetuosa, acolhendo os sentimentos desagradáveis dos nossos filhos e ajudando-os a lidar com esses sentimentos desagradáveis. Acredito que o cultivo do cuidado e do afeto seja o mais importante na relação com os pequenos.

    Também podemos pensar em como construir o limite de maneira positiva, não pela negação e proibição, mas pela sugestão e condução. Mas é uma questão para outro momento.

    «Sempre por causa do hábito…» (Camus)

    Não é fácil mudar velhos hábitos. A palmada está na nossa formação e é o limite simbólico que herdamos. Foi com a palmada que fomos educados a educar. Todavia, a palmada não é um limite real, portanto, podemos abandonar a prática da palmada e substituí-la por algo mais eficiente e mais afetuoso.

    Não é fácil criar e sustentar formas novas e formas pessoais de agir, cultivar e viver. Mesmo não sendo fácil, considero importante tomarmos uma posição frente àquilo que faz sentido para cada um, uma posição que favoreça atingir esse particular de cada um, principalmente naquilo que se busca cultivar com os pequenos. E a minha escolha é pelo afeto, carinho e cuidado – o que, para mim, faz parte do amor.

    Há pessoas que também estão neste cultivo, no cultivo de criar formas para lidar com as crianças sem usar a violência. Elas podem nos ajudar nesse percurso. Nós podemos nos ajudar nesse percurso. Não estamos sozinhos. Juntos, cultivar torna-se mais fácil e menos pesado.

    Fica bem.

    Com afeto e cultivo.

    Graciosa, 12/Out/2019

  • A Manhã do Concerto

    Concertos são momentos que podem provocar situações inusitadas, inesperadas e imprevisíveis. São momentos de tensão que podem disparar comportamentos diversos, surpreendentes e não habituais. Como lidar com a sombra assustadora que pode erguer-se sobre quem tocará num concerto?

    O concerto é à tarde. Ela tem aula comigo no final da manhã. 8 anos, aproximadamente. 8 anos de idade, não de estudo de piano.

    Ela entra na sala e senta-se ao piano. Eu inicio o dialogo:

    – temos concerto hoje à tarde. Então, pensei em revisarmos a música. Pode ser?

    – (silêncio)

    – Podes tocar?

    – não lembro…

    – hum… acho que não percebi.

    – não lembro…

    Não lembro… Simples assim: ela não lembrava a música, nem qual era a música que ia tocar nem como se tocava. Nada.

    – entendi. A música é O Balão do João (música tradicional que as crianças em Portugal cantam de diversas maneiras e em diversas situações). Lembras?

    – não lembro…

    – sol mi mi, fá ré ré (cantarolo). Lembras?

    – não lembro…

    – tenta colocar a mão no piano.

    – não lembro…

    A impossibilidade está posta. Um “não lembro…” sem agressividade, sem revolta, pacato. Apenas a constatação de um fato que não cede. Peço a ela que toque uma música qualquer que já tínhamos estudado. Ela toca perfeitamente. Não é algo com o piano. Pode ser algo específico com o concerto. Investigo.

    – então, agora já consegues tocar O Balão do João. Pode ser?

    – não lembro.

    Toco a música inteira ao piano, lentamente.

    – lembras?

    – não lembro.

    Os concertos e o encontro com o extraordinário.

    Muitas vezes, os concertos são momentos em que os alunos se imaginam testados e avaliados, momentos em que são postos numa posição de vulnerabilidade.

    Nos concertos, é esperado algo “bom”, é esperado que os alunos “toquem bem”. Deles é esperado algo imaginário pois, quando questionados, os alunos não sabem dizer exatamente o que seria esse “tocar bem”, eles não têm clareza daquilo que é esperado que eles façam. Do concerto espera-se algo mítico e extraordinário: algo que não se sabe exatamente o que é mas que deve, supostamente, ser atingido e tomado como referência. O Concerto, com toda a exigência de mito extraordinário, torna-se uma sombra ameaçadora.

    A sombra ameaça os alunos, coloca uma referência que não é apoiada no desejo e nas possibilidades deles, que não é baseada no que eles querem nem no que eles podem produzir. A sombra é uma referência externa colocada pelos outros (o Outro?) e com parâmetros desconhecidos, simplesmente inalcançáveis por não serem palpáveis.

    Frente a essa exigência desconhecida e extraordinária (extra-ordinário, fora do ordinário, fora do comum, fora do quotidiano), paralisa-se. O medo paralisa algumas vezes. Outras vezes pode criar o enfrentamento, como acontece a alguns alunos que entram no palco e não se dão o tempo habitual do ritual: sentam-se e começam já a tocar, imediatamente.

    No caso dela, houve a paralisia e o bloqueio da memória. A memória estava lá, intacta e preservada, porém inacessível pelo medo, pela pressão, pelo desconforto e pela tensão.

    A boa aluna.

    Ela era o que se chama de “boa aluna”, com todos os adjetivos aplicados a essas crianças pela educação habitual: fazia o que era pedido, estava empenhada, era esforçada, bem comportada, dedicada, portava-se bem… Adjetivos que, normalmente, os alunos desconhecem o significado, não sabem o que é esperado deles com esses adjetivos e, principalmente, não sabem o que fazer para atingir o que é esperado deles com esses adjetivos.

    Para mim, o que mais me interessava era o bom humor dela: piadas durante a aula, fome, muita fome, sempre a querer comer, “ôh, raios!” quando enganava-se.

    O que fazer?

    O que me restava nesta situação? Brigar com a menina, gritar, ofendê-la, dizer que não estudava e que era desinteressada, que devia ter se preparado melhor… ? Culpabilizar-me por não ter sido mais “duro” (sic) com ela, exigido mais? Ou acolher os sentimentos dela e tentar trabalhar sobre isso?

    Optei pela última alternativa. Iniciei o trabalho como se fosse do início: como colocar a mão no piano, quais são as notas da música. Em pouco tempo a memória desbloqueou. A melodia que estava a ser trabalhada com a duas mãos (trabalho já feito), passou para a mão direita (trabalho já feito) e depois passou para a mão esquerda (trabalho novo). E o trabalho novo já estava pronto a ser apresentado no concerto em 20 minutos de aula.

    Premissas para o trabalho.

    Como professor, me interesso mais pelo processo de “recuperar” e liberar o saber bloqueado pela sombra do que apontar o resultado do concerto. O processo de retirada do bloqueio da sombra me interessa: como recuperar a memória para a aula e para o próprio concerto?

    Acolher os sentimentos dos alunos é a minha base de trabalho: acolher o bloqueio da memória, acolher a ansiedade do concerto, o lapso, a tensão e a pressão, a preocupação, a angústia, o humor particular desta aluna…

    O particular de cada aluno me interessa e é fundamental na maneira que escolhi para ensinar (construir junto). Acolher o individual de cada aluno é o posicionamento ético que me permite gentilmente construir um saber musical e emocional com os alunos, um saber que extrapola o tocar. As aulas de música são um “saber de relação”: transmite-se uma ética humana de estar junto, com ferramentas para lidar com o emaranhado dos sentimentos e das emoções, ferramentas úteis em qualquer situação da vida e em qualquer relação humana. Quiçá, constroem-se ferramentas para lidar com o próprio desejo – com o sentido psicanalítico de desejo: sustentar aquilo que nos move como seres humanos em direção à vida e à criação.

    Mas como foi o concerto?

    Para acalmar quem lê este texto, digo que o concerto foi bom. Com o acolhimento e suporte emocional, ela conseguiu manter a memória aberta e acessível para usar no concerto e, também, manter-se tranquila para mostrar algo seu para uma plateia de aproximadamente 70 pessoas.

    O humor particular dela permitiu contornar a sombra. Com Chico Buarque: “mas eu não quebro não porque sou macio”.

    O humor permitiu a maciez e a maleabilidade para escapar da pressão da sombra, da dureza da sombra. O humor permitiu que a memória voltasse e que elas – a memória e a aluna – se sustentassem no concerto.

    O humor as salvou!

  • Ensino de música atravessado pela psicanálise

    A teoria e a prática da Psicanálise são as bases que sustentam o Ensino de Música da Nós Bobôs, principalmente as Aulas de Piano.

    Mas, como seria um Ensino de Música atravessado pela Psicanálise? Como funciona uma Psicanálise? Quais são as implicações da Psicanálise no Ensino da Música? E quais são as consequências dessas implicações?

     

    A regra fundamental e os 3 momentos de uma análise

    A psicanálise tem uma regra fundamental, a Associação Livre. O primeiro momento do processo de uma análise é a entrada na Associação Livre: “diga tudo o que vier à sua cabeça, não se censure, tudo aquilo que diz é importante, não tenha uma ideia a priori. Na medida seguir esse método muita coisa vai ocorrer.”1

    Essa liberdade de dizer tudo o que vem à cabeça gera desconforto no analisando[1]Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise. quando este começa uma análise. E não é fácil expressar-se sem limites e sem censura. Este é o primeiro desafio de uma psicanálise.

    Quando o analisando acostuma-se a seguir a Associação Livre, as censuras começam a ceder e ele entra no segundo momento da análise. Os medos e as angústias começam a enfraquecer e o analisando torne-se mais criativo, com mais desenvoltura e destreza para manejar os pensamentos e as ações. A criatividade permite criar um jeito próprio de ser e começa o processo de construção de uma forma particular de agir e de pensar.

    O analisando começa a ser capaz de responsabilizar-se pelas próprias ações, fica mais ligados ao seu desejo, com mais vontade de viver, de produzir, de criar e de estudar. Passa a envolver-se com as ações que considera valiosas e a sustentar o seu modo de ser e o seu modo de se inserir no mundo.

    Assim começa o terceiro momento de uma análise, o momento em que o analisando consegue estar no mundo de uma maneira nova, com menos sofrimentos, com menos sintomas paralisantes. Ele cria uma maneira particular, própria e criativa de ser. A análise acaba com o sujeito a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo.

    E como isso se reflete nas aulas de piano da Nós Bobôs?

    Através do princípio da Associação Livre incentiva-se a liberdade e a criatividade. Durante as aulas, busca-se diminuir ao máximo os julgamentos, as críticas, as censuras, as cobranças. Diminui-se consideravelmente os jogos de violência e punição usados nos sistemas de ensino (Violência Educativa Ordinária – VEO). Cria-se um espaço de acolhimento e segurança onde o aluno pode expressar-se livremente, libertando a sua criatividade.

    O professor sabe que toda manifestação do aluno reflete algo pessoal do próprio aluno. Assim, ele não mantém uma ideia a priori sobre o aluno e sobre o que vai acontecer na aula. Com a Associação Livre, tudo aquilo que o aluno diz é importante: retirar-se a censura ao máximo possível e, ao seguir esse método, algumas coisas acontecem nas aulas.

    Como resultado, o aluno aproxima-se do seu desejo e liberta a sua criatividade (tal como no segundo momento da análise). O aluno ganha segurança, confiança e recursos para se expressar. O piano tornar-se uma maneira de expressão de si e, também, uma forma de satisfação e prazer. A produção do aluno aumenta pois está atrelada ao prazer e à satisfação (sublimação). Com um produto da sua sublimação nas mãos, o aluno é instigado a colocar a sua produção no mundo, colocar a sua criatividade numa relação com as outras pessoas. Tal como no terceiro momento da análise, o aluno coloca o seu desejo e a sua criação singular como uma forma de estar na vida, uma forma responsável, prazerosa e envolvente de estar no mundo. O aluno-sujeito passa a sustentar a sua maneira singular de estar no mundo e a sua maneira singular de fazer música.

    O desejo da Nós Bobôs

    Movida pelo próprio desejo, a Nós Bobôs herda da Psicanálise as concepções fundamentais sobre a constituição do sujeito, trata seus alunos como seres de linguagem (parlêtre) e faz das descobertas da Associação Livre suas premissas de trabalho.

    Por desejo, as aulas de piano sustentam-se numa ética de desejo.
    Assim se faz na Nós Bobôs.

    22/Jun/2019

    Notas

    Notas
    1 Analisando: a pessoa que começa o percurso de uma análise, aquela pessoa que pede ao psicanalista uma análise.
  • Ir Além do Espelho

    «L’amour, c’est donner ce qu’on n’a pas à quelqu’un qui n’en veut pas.»

    Jacques Lacan1

    Ter um filho é uma oportunidade de olhar para si mesmo, um impulso e uma força para fazer as mudanças que sempre desejamos mas que sempre deixamos para trás. Não é incomum encontrar pessoas que, quando descobrem a gravidez, resolvem mudar de casa, mudar a casa, mudar de cidade, mudar de estilo, mudar… Mudar-se de uma maneira geral. Mudar-se para acolher uma outra pessoinha que irá dividir a vida.

    Quando a criança chega, começa a transmissão cultural: tudo aquilo que temos como nossos padrões, hábitos, ferramentas para lidar com os sentimentos e escolhas de vida começam a ser transmitidos. Essa transmissão não se dá simplesmente pela via da educação, como se pretende dizer com «educar os filhos». Essa transmissão se faz por uma via de convívio, de transmissão, de fazer junto, de como fazer com o encontro e no encontro. Ousaria dizer que o encontro dos pais com os filhos provoca a transmissão de uma Ética.

    Frente ao que estamos transmitindo, podemos nos observar e observar o que estamos transmitindo, como estamos transmitindo, que resultados esperamos e conquistamos com o que transmitimos. Todavia, junto com a observação, normalmente vêm os julgamentos e as exigências, inclusive as que herdamos dos nossos pais e da cultura que estamos inseridos. E assim surge a violência: a exigência de amar igualmente os filhos, de tratá-los como se fossem iguais entre si, de julgar o que nossos pais fizeram de certo ou errado conosco, de esconder dos filhos que temos amores de diferentes medidas, de julgar os amores que damos para cada um deles…

    Tomo como ponto de partida o texto «Sobre as diferenças entre os filhos e o amor»2 da psicóloga Pollyana Mendonça. Quero dialogar com esse texto, um texto que me fez pensar e me pôs em movimento para escrever estes apontamentos. Apontamentos não prontos, não fechados que me servem para pensar o que faço e lapidar o que faço.

    Filhos como espelho

    «Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças…»3. Cada filho reflete algo de nós. Se estivermos disponíveis no encontro com os filhos, podemos ter uma ideia do que somos a partir da maneira como nossas ações os afetam. E ainda podemos observar o que as ações desse outros seres nos despertam e como elas nos tocam.

    Ana Thomaz, em «O que Aprendi com a Desescolarização»4, fala de sua técnica de observar as próprias sensações e emoções no seu encontro com as filhas.

    «O que o encontro me deu foi o conhecimento de mim mesma, de algo que estava ali guardadinho.»5

    Essa técnica tem dois momentos.

    O primeiro momento é observar os próprios sentimentos e trabalhar com eles para resolver e liberar os próprios bloqueios antes de se direcionar às filhas.

    «Elas continuavam com o problema delas. Paciência! Elas não tinham uma mãe pronta para entrar em contato com elas, pois eu ainda tinha que entrar em contato comigo. … Esperava isso vir à superfície e liberava, só de vir à superfície você libera.»6

    O segundo momento, já liberada das questões pessoais, ela se direciona ao encontro com as filhas para tratar das questões delas, para acolher as filhas num processo de fluxo livre. Desse encontro em fluxo livre vinham insights que ajudavam-na a se relacionar com a situação, soluções sempre inéditas vindas do contato e do encontro.

    O essencial é a diferença

    «O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.»7

    Temos o hábito cultural de comparar e, quando temos dois filhos, é comum o uso da comparação. Aí que o problema aparece: a comparação institui um modelo, um certo e um errado, um julgamento. E, assim, estão lançadas as bases para o início da violência…

    Cada filho despertará emoções e sensações diferentes nos pais. Cada filho é uma pessoas diferente e proporciona um encontro diferente. Mesmo sendo irmãos, os filhos terão jeitos diferentes, nascerão em tempos diferentes, com pais em momentos distintos de maturidade ao longo da vida. Inclusive, cada filho terá uma forma físicas particular. Mesmo os gêmeos idênticos darão relações diferentes e experiências diferentes.

    Há sempre o irredutível temporal que cria memórias e sensações diversas. A relação com cada um dos filhos é diferente, criando traços na memória da mãe e construindo a maneira como ela vê, reage e sente cada um dos filhos.

    Cultivar a diferença para que o outro apareça

    «A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.»8

    É na diferença que nos percebemos como sujeitos. É no contato com o outro diferente que pode aparecer aquilo que é singular em cada um, o que é próprio em cada um, o que é único. Os pais encarnam esse diferente, os irmãos também.

    Haverá sempre diferenças entre os filhos, diferenças fundamentais para que se crie o individual e o pessoal de cada sujeito. Respeitar e acolher essas diferenças próprias de cada serzinho contribui para que a personalidade de cada um possa aparecer, advir e se construir. Ao tentar a igualdade, de uma certa forma desconsidera-se o individual e particular de cada um.

    O essencial é a diferença!

    Considerar a hipótese de que amar os filhos de maneiras diferentes pode ser algo positivo, pois se acolhe o aparecimento daquilo que é próprio de cada um. Mas há outra vantagem em considerar a hipótese de amar os filhos de maneiras diferentes: tornar possível a relação dos filhos com aquilo que o próprio deles cria e desperta nos pais. Tento de uma outra maneira: possibilitar que eles se desenvolvam com o que eles despertam nos pais por serem como são.

    Certamente cada um dos pais agirá de maneira diferente frente ao particular de cada filho devido ao seu próprio particular de pai-mãe. Ao nos relacionarmos com eles do jeito que eles são, fato que nos despertará emoções diversas, eles terão espaço para serem eles mesmos e aprenderem a lidar com as próprias emoções frente aos pais.

    «…provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.»9

    Seria possível ir além de si mesmo e disponibilizar uma maneira outra de acolher o outro?

    Ir além do espelho

    Acima descrevi a técnica que a Ana Thomaz utilizava. A técnica tinha dois tempos: o primeiro é a relação interna; o segundo, a relação externa, a relação com o outro, com os filhos.

    Filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço dedicado exclusivamente ao autoconhecimento. Penso que, para criar um filho, é preciso que os pais se coloquem à disposição dele, coloquem-se em relação para que ele possa se construir a partir do encontro com os pais. Todavia, colocar-se à disposição não é algo passivo e sempre contém uma transmissão, uma transmissão ética que vai muito além do que se educa ou do que se ensina.

    O próprio processo de descobrir-se, pensar-se como pai-mãe e pensar-se como sujeito no encontro com os filhos já é, por si só, uma transmissão, a transmissão de um modo de pensar sobre si.

    «O que elas começaram a ter contato é com uma mãe que se trabalha desta maneira enquanto está enfrentando algum problema. Então eu comecei a perceber que elas estavam entendendo, sem que eu falasse nada, […] que eu faço alguma coisa. […] E eu comecei a perceber que eu estava ensinando indiretamente o processo para elas.»10

    Não é preciso ensinar passo a passo. Os filhos, ao verem os pais no próprio processo, perceberão que algo se passa ali e entenderão esse processo pelo contato.

    «Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar».11

    Retomo que os filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço exclusivo de autoconhecimento. É preciso ir além de si mesmo e da observação de si, colocando-se à disposição para que o outro possa advir. É preciso uma maneira de acolher a singularidade e individualidade de cada filho para ajudá-lo a nomear-se, ajudá-lo a criar ferramentas simbólico para tratar dele mesmo, das suas emoções, das suas sensações e das suas atitudes.

    É preciso ir além do espelho!

    O que se manteria igual para todos os filhos?

    Ir além do espelho é permitir que uma outra instância se instaure, que uma outra forma de estar apareça. Esta outra forma de estar eu chamaria de «Escuta Empática», um tipo de escuta e presença que acolhe o singular de cada filho sem julgamento, que acolhe o diferente de cada um para que o diferente de cada um possa se desenvolver. É uma escuta em que os pais se colocam com a atenção voltada às necessidades, pedidos e desejos dos filhos.

    «Empatia é a capacidade de observar e estar presente sem concordar ou discordar.»12

    Assim é como Dominic Barter define Empatia, uma escolha consciente que experimenta os limites da capacidade de entendimento na comunicação. Assim, a «Escuta Empática» seria uma escolha consciente de sustentar uma posicionamento de escuta frente ao outro na tentativa de remover os bloqueios para a ação.

    Ir além do espelho é estar fora dessa relação pessoal onde o espelho refletiria o que supostamente se é, estar fora do jogo violento de julgamento sobre o que estou fazendo como pai-mãe e da observação especular de quais são as emoções que isso desperta em mim.

    Ir além do espelho é colocar-se na escuta do outro. Na medida do que é possível, é colocar-se dentro da lógica do outro, colocar-se à escuta do que o outro busca nele mesmo e nas relações com os demais.

    Atravessando o espelho

    Nesse encontro de Escuta Empática se faz a transmissão, o que neste momento considero o fundamental da função dos pais: transmitir aos filhos as ferramentas para que eles lidem com as próprias emoções, com as próprias sensações, com os próprios medos, pensamentos, conflitos, sombras, angústias, desejos, ânsias, vontades, gozos…

    Enquanto o pai-mãe estiver dentro de si mesmo e enrolado com as imagens criadas frente ao espelho, acredito que terá uma certa dificuldade de perceber o que se passa dentro dos pequenos (ou grandes, às vezes), o que está lá dentro e quais são as ferramentas que podem ajudar na construção do que está lá dentro.

    Talvez isto seja aquilo que se pode dar de igualdade para todos os filhos: um espaço onde cada um deles pode se mostrar e ser na sua singular, um espaço para ouvir e acolher o que há de mais diferente em cada um deles, para ouvir e acolher o que há de singular.

    A Escuta Empática é uma proposta de ir além do espelho…

    Seria esta uma manifestação do Amor?

    02/Jun/2018

  • O Relógio de Peixinho e o Motor que Estraga

    Entro na sala e me deparo com duas pessoas engalfinhadas e uma grande barulheira.

    De um lado, um menininho de 4 anos puxando aflito o seu braço e falando desesperado: «Vai entrar na água, Mamãe!»

    Do outro lado, a mãe agarrando o braço do menininho dizendo: «Não vai entrar na água. Solta isso! Solta isso!».

    Submersos no puxa-puxa, os dois falam sem parar. E o volume começa a aumentar.

    Só se puxam e se agarram e se puxam e se empurram e se agarram…

    Tento um grito para começar a conversa:

    – Ei! Algum de vocês dois consegue me ouvir?

    Os dois param…

    Olham-me assustados com os olhos arregalados…

    Alguns segundos de silêncio…

    Parece que me escutam.

    O grito é a forma mais eficiente de conseguir a atenção de alguém. Sua eficiência se faz apenas nos primeiros segundos, depois desse tempo, ele transforma-se numa das piores maneiras de se comunicar. Reajusto o tom da voz:

    – Vocês dois estão brigando, é isso? Que tal vocês falarem um para o outro o que querem?

    Nesse tempo eu percebo que há um relógio no meio deles. Um pobre relógio que é agarrado por duas mãos. Essas mãos o disputam, uma em cada ponta de seu corpo, esticando-o para que ele escape das garras do adversário.

    Resgato o coitado que agora pode repousar sobre a mesa, um merecido descanso após sofrer sem dó nem piedade nas garras desses dois sangrentos adversários. Começo pelo Pequeno:

    – O que você quer dizer à Mamãe? Porque você quer levar o relógio para o banho?

    – É que… É que… olha aqui…

    Gaguejando, o Pequeno se desloca na direção do relógio e tenta pegá-lo. Suavemente recoloco a questão sem o objeto.

    – Mocinho, tenta falar porque você quer levar o relógio para o banho.

    – Papai, é um relógio de peixinho. Quero levar o peixinho para o banho.

    Ouvindo isso, a mãe pega o relógio, olha atentamente com a testa franzida e dispara:

    – Não há peixinho aqui! Ele vai estragar. Olha aqui, ó, estraga, estraga se for para o banho!

    – Mas Mamãe, é que, é que…

    O relógio é de um super herói qualquer, só tem as cores e o nome do personagem. A Mamãe tem alguma razão: nada de peixinho…

    Eu volto a escutar o Pequeno, tentando empatizar com o seu mundo para perceber as suas necessidades e vontades.

    – Então tem um peixinho no relógio? E o peixinho gosta de água, é isso?

    – Sim, Papai. Ele gosta de água. E eu gosto de levar o peixinho para a água. Quero levar o peixinho para a água, quero que ele tome banho comigo.

    Verifico se recebi a mensagem que ele me enviou. Apenas redireciono o que ele me disse:

    – Hum, você quer tomar banho com o peixinho!

    Ele sorri.

    Me pareceu que eu havia compreendido a mensagem do Pequeno. Me pareceu, também, que ele se sentiu reconhecido. Seu sorriso me levou a crer que os seus sentimentos estavam sendo ouvidos e levados em conta.

    A Mamãe mudou o olhar. A sua testa já não estava franzida. Me parece que ela voltou a ouvir o filho. Me parece que ela entendeu o que o seu Pequeno queria fazer. Desconfio que ela tenha começado a ver o peixinho no relógio…

    – Acho que a Mamãe também entendeu que você quer levar o peixinho para a água. Agora vamos ouvir a Mamãe? Vamos perguntar porque ela não quer que você leve o relógio para o banho?

    De uma maneira suave e carinhosa, da maneira sublime que a Mamãe é capaz de fazer, ela pega o relógio na mão:

    – Aqui dentro do relógio de peixinho tem um motorzinho. O motorzinho estraga se for na água.

    O Pequeno adora motores. E adora desmontar motores. E adora motores de carros, de motos, de escavadeiras, de aviões, de relógios… ele adora relógios, livros de relógios, sons de relógios, o Big Ben. O Pequeno também adora números… Então ela continua:

    – Está vendo esses números aqui no relógio de peixinho? É o motorzinho que faz os números. Se for na água, o motorzinho estraga e os números desaparecem.

    Ela faz uma proposta-pedido:

    – Vamos deixar o relógio aqui fora para o motor não estragar e continuar fazendo os números?

    O Pequeno sorri para sua Mamãe.

    «Sim, Mamãe!» é a resposta.

    Ele larga o relógio na mesa, vira as costas e sai correndo para o banho.

  • Tem que Ser

    Mandando uma mensagem à mãe do meu filho, para pensamos sobre as supostas «teimosias» do nosso pequeno, me deparo comigo tentando me livrar da expressão «tem que»: tem que vestir a roupa, tem que comer, tem que sair agora…

    No livro «Comunicação Não-Violenta», Marshall Rosenberg pensa a expressão «tem que» ou «ter de» como parte do que ele chama de comunicação alienante da vida.

    «Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.»

    Primeiro, esta expressão instala uma instância que julga e que ordena, que impõe um certo e um errado independente da situação. Um ponto importante na Comunicação Não-Violenta é evitar «julgamentos moralizadores», ou seja, tentar observar sem  julgamento de certo e errado. O «julgamento de valor» depende de um determinado contexto e de uma determinada situação, situação que não é estática e que só acontece naquele momento e naquelas condições.

    Segundo, esta expressão desresponsabiliza quem toma a ação, como se houvesse algo pré-definido para acontecer, como se as vontades em jogo naquele momento devessem ser excluídas para que esse algo pré-determinado aconteça.

    Todavia, mantêm-se uma certa ordem, uma diretriz, um guia ou alguns parâmetros pessoais de conduta. É preciso ter um direcionamento, só que esse direcionamento é uma escolha responsável, uma escolha de conduta feita de maneira consciente (na medida do que é possível). A expressão «tem que» desresponsabiliza frente à escolha, a escolha não é feita, não há a escolha com o «tem que».

    Durante a mensagem, consegui articular o que queria usando a expressão «é assim que escolhemos e é assim que vamos fazer». Não há a obrigação do «tem que ser», há uma escolha autêntica: «escolhemos assim e assim vamos fazer». O Marshall sugere utilizarmos a expressão «eu opto por fazer isso porque desejo algo com esta ação».

    Essa escolha pode ser um acordo entre os pais e as crianças ou uma escolha isolada dos pais.

    Sim, ao assumirem a função de cuidadores, os pais precisam fazer escolhas que, em alguns momentos, podem contrariar as vontades das crianças ou mesmo fazer escolhas que parecem autoritárias.

    Aqui reside a diferença: os pais escolhem cuidar dos filhos e escolhem tomar as atitudes. Não há o «tem que ser» das expressões «os pais têm que ser autoritários e impor limites» ou «os pais têm que ouvir os filhos». Substitui-se o «tem que» pela escolha que os pais fazem de cuidar dos pequenos, com total responsabilidade pelos atos e escolhas, com a liberdade (na medida que lhes é possível) e com a clareza que têm para tomar as suas atitudes.

    Assim, a decisão que pareceria autoritária, vinda de um lugar não identificado e externo a quem decide, transforma-se numa decisão própria de quem decide, uma decisão por fazer algo porque se deseja alguma coisa. «Por nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis», diz Lacan. E Jorge Forbes completa: «’Sempre’, diz ele, não de vez em quando ou dependendo da intenção, do conhecimento ou de qualquer outra variável. Se o sujeito é sempre responsável, não haverá sujeito sem responsabilidade.»

    Seria possível não ser autoritário?

    Vêm dois apontamentos, duas diretrizes:

    Se a decisão pode mudar ou ser flexibilizada para atender às vontades das crianças, o que impede de fazer um novo acordo com os pequenos? Porque não ouvir e acolher a voz dos pequenos?

    Se a voz dos pequenos não pode ser acolhida por alguma razão que os pais sabem (como a segurança e integridade dos pequenos), que os pais tomem a decisão. Todavia, é preciso verificar se é a voz do «tem que ser» ou se é a voz dos pais quem está tomando a decisão!

    Se, por escolha, a decisão pode ser flexibilizada, tudo bem: escutemos os pequenos.

    Se, por escolha, a decisão não pode ser flexibilizada, tudo bem também: aplica-se a ação mesmo a contragosto dos pequenos – com acolhimento aos sentimentos de contragosto e frustração dos pequenos.

    O que não pode é a falta de escolha, a desresponsabilização pelas atitudes. O que não pode é o «tem que ser». Finalizando (e brincando), a responsabilidade «tem que ser» de quem escolhe.

    Como nos diz Sartre, o que não é possível é não escolher: «a escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.»

    06/Abr/2018

  • Chorar para aprender a dormir?

    A hora de dormir sempre é um pesadelo acordado. Como lidar com o choro dos bebês na hora de dormir? O tema é amplo mas é preciso partir de algum lugar.

    Introdução

    Eis um começo: qual é a forma de comunicação que um bebê tem com o seu cuidador?

    Como ele manifesta que algo não vai bem?

    Qual é a ferramenta do bebê para pedir comida, pedir carinho, avisar que está com dor, avisar que está com sono, avisar que algo vai mal, avisar que está com medo, avisar que está inseguro, avisar que está com frio, enfim, dizer que precisa de ajuda?

    Se você respondeu choro, concordamos neste aspecto.

    Se você respondeu outra coisa, me conte pois quero descobrir novidades.

    A condição humana

    O choro é a manifestação de que o bebê precisa de algo. O bebê humano está inteiramente dependente de alguém que o proteja e que supra as suas necessidades fundamentais para que sua vida seja mantida. Não somos girafas que já nascem andando e aprendem rapidamente a comer grama. Na Psicanálise, o choro é fundamental na aquisição da linguagem, da comunicação, da construção psíquica, ou seja, na transformação deste bebê em humano.

    O anúncio do problema

    O choro é a principal ferramenta das necessidades de um bebê que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite. Tal como um adulto: quem nunca levantou de madrugada para comer algo? Quem nunca acordou no meio da noite querendo um abraço gostoso e quentinho? Quem nunca ouviu um barulho estranho durante a noite e se assustou?

    A chegada do problema

    Há vários manuais e livros ensinando a fazer o bebê dormir, muitas teorias, estudos científicos, conselhos, consultores. Alguns dizem que devemos deixá-los chorar para que aprendam a dormir sozinhos. Até se dizia que os franceses deixavam os filhos chorarem para aprender a dormir – bom, posso garantir que não foi bem assim que meus amigos franceses fizeram!

    Se o choro é uma tentativa de comunicação, o que acontece se não atendemos, se não damos atenção e deixamos o bebê sem amparo?

    O bebê chora pedindo ajuda. A ajuda que sempre chegava não chega. Ele continua chorando e a ajuda que era esperada não chega. E ele chora mais e a ajuda ainda não chega e chora mais e ela não chega… até que ele cansa e, exausto e desamparado, dorme.

    A primeira derrota do protagonista pequeno

    Não, ele não aprendeu a dormir sozinho! Ele chorou tanto que está cansado, desistiu de pedir ajuda. Foi uma grande batalha que gerou uma grande quantidade de estresse (adrenalina, cortisol e tudo mais). E isso se repete por vários dias, sistematicamente.

    Numa pesquisa rápida à Wikipédia: «a exposição de longo prazo ao cortisol resulta na danificação das células do hipocampo. Este dano leva à diminuição da capacidade de aprendizagem.» Agora uma pergunta um pouco séria: quais são os danos deste choro no desenvolvimento do bebê? E esta é apenas uma parte do negócio…

    A primeira derrota do protagonista grande

    Como você se sente deixando seu filho chorar até cansar e dormir?

    Será que você não fica minimamente angustiado?

    Será que o choro não te incomoda ou provoca uma leve descarga de adrenalina?

    Será que você não chora junto, mesmo que «por dentro», afinal «homem não chora!»?

    O sentimento de culpa e arrependimento

    Há mesmo uma grande razão para não amparar o choro do seu bebê?

    Há mesmo uma grande razão para negar um pouco de cuidado a uma pessoa querida que chora?

    O que você faria se uma pessoa que você gosta muito estivesse chorando? Você a deixaria sozinha chorando para que «aprenda» sozinha a lidar com a situação?

    O que dizem os seus instintos de pai (ou mãe)?

    Que tal acreditar um pouco nessa beleza que a natureza e a cultura nos deram: comunicação, choro, fala, linguagem, afeto, carinho, cantigas de ninar, cuidado!

    A solução desponta (com música de esperança)

    Está pesado? Está duro?

    Mas lá no horizonte o sol brilha em forma de soluções!

    A primeira é acreditar em você, nas suas sensações, nas suas vontades, nas suas busca por informações e por pessoas que te inspiram.

    A segunda solução é colocar o bebê no quarto dos pais e gastar menos energia para atender as demandas do bebê. Consequentemente, o bebê perto otimiza e aumenta as horas de sono dos pais – que já são poucas – e ainda melhora a qualidade do sono: tudo está mais próximo, nítido e suave.

    Berço ao lado da cama dos pais ou a «Cama Compartilhada» são alternativas. Seja qual for a sua opção ou possibilidade, nada é mais fácil e gostoso do que esticar o braço para o lado e tocar no seu bebê…. E dormir com a mão nele fazendo carinho!

    Fiquem tranquilos que eles não irão dormir na cama dos pais até os 30 ou 40 anos. O meu pequeno, no alto de seus 2 anos, já pedia para ir dormir na sua cama. Além do mais, a adolescência chegará, marcará a independência e, também, o espaço privado onde nenhum pai (nem mãe) é bem-vindo.

    O final feliz

    Aproveitem a proximidade, aproveitem o carinho. E deem carinho, e deem afeto, e deem atenção, e atendam aos choros. Empatia com as necessidades dos bebês pois eles são apenas pessoas pequenas.

    E isto não acaba aqui: ainda sobra muito para pensar sobre choro, manhas, birras, ataques, chiliques, manipulações e joguetes das crianças e dos bebês.

    Coda

    P.S.: Recomendo o vídeo «Não Deixe Seu Bebê Chorando para Dormir» do «Paizinho, Vírgula»!

    07/Jun/2017

  • Crianças que batem nos pais: me ensinas a amar?

    Levar um tapa do próprio filho pequeno sempre agrediu os pais e as mães.

    Até que ponto as crianças são capazes de lidar com os próprios sentimentos e os enlaces do amor e do ódio?

    Será que uma criança poderia demonstrar um pedido de amor e ajuda através da agressividade?

    Amor e Ódio

    Chico Buarque e Elis Regina cantam uma cena de ódio, raiva, rancor e vingança para mostrar que ainda há amor:

    «Dei pra maldizer o nosso lar
    Pra sujar teu nome, te humilhar
    E me vingar a qualquer preço
    Te adorando pelo avesso
    Pra mostrar que ainda sou tua
    Até provar que ainda sou tua»

    E vamos ao velho Freud:

    «O ódio motivado de maneira real é fortalecido pela regressão do amor ao estágio sádico preliminar, e portanto odiar assume um caráter erótico e a continuidade de uma relação amorosa é garantida».

    Enlaces do Ódio e do Amor

    Ódio e amor não são a mesma coisa. Tampouco a violência contra a mulher ou contra o homem é uma forma de amor. O que ressalto é que ódio e amor não são tão distantes assim.

    Com Lacan temos a expressão «hainamourer», neologismo unindo a sua homófona «énamourer» (enamorar-se, apaixonar-se) com um começo em «haine» (ódio): o ódio vem antes, é mais fácil de expressar do que o amor que demanda algum empenho e cultivo.

    O oposto do amor não é o ódio. O oposto do amor é a indiferença.

    Amor e ódio como expressão da fascinação

    Ódio e amor são apenas duas maneira de exprimir uma fascinação, de exprimir uma ligação. Há de haver alguma coisa que regula essa «descarga» de fascinação, conduzindo-a ou ao ódio ou ao amor. Quando vemos adultos manifestando ódio desmedido, como em brigas de casais ou namorados, percebemos que algo ali vai mal e vai deslocado. É possível perceber que há um curto-circuito fazendo com que este adulto transforme em ódio a descarga que deveria se direcionar ao amor. Este ódio pode mostrar a fascinação forte que, por curto-circuito ou por falta de meios, não consegue atingir a via do amor.

    Curto-circuito e imaturidade infantil

    Há um curto-circuito, há um sistema que ainda é infantil, que ainda não amadureceu para conseguir lidar com as emoções. As crianças (e alguns adultos) ainda estão imaturas emocionalmente. Sendo assim, amar e odiar são ainda confundidos para estabelecer a relações.

    Ao partir da premissa que amor e ódio são formas de ligação e fascinação, quando uma criança resolve agredir os seus pais (manifestação de ódio), ela manifesta uma ligação e uma fascinação. Mas como?

    A criança nem sempre tem recursos suficientes para direcionar as emoções por uma via adequada, principalmente as emoções ainda desconhecidas. Assim, algumas emoções que poderiam ir pela via do amor acabam saindo pelo ódio. De outra forma, a criança sente alguma emoção desconhecida e a única forma que ela consegue manifestar é através do ódio ou da agressão.

    É frequente ouvir crianças irritadas ou com sono dizerem que odeiam os pais. E logo que os pais respondem que as amam mesmo assim, a criança fica feliz e tudo se resolve.

    Agressão como forma de ligação

    Transformo ainda mais um pouco. Quando uma criança resolve bater em seus pais, ela está manifestando um sentimento seu, ela está direcionando este sentimento para o adulto que a cuida. Destinar um sentimento, seja qual for a via possível para manifestá-lo, é um ato de confiança.

    A criança sabe que está se manifestando de uma forma destrutiva. Mas esta é a única via que ela consegue comunicar determinado sentimento, além de ser uma maneira de testar as suas emoções, testar como o outro vai reagir, aprender e, principalmente, receber algo de volta do outro.

    Continuando o percurso: ao agredir os pais, a criança está confiando inteiramente no adulto, confiando que ele é capaz de lidar com aquele sentimento que ela só consegue manifestar pela agressão. Ela sabe que bater e agredir dói e pode machucar o adulto, mas ela também sabe que o adulto é o único que pode ajudá-la a encontrar uma forma melhor de direcionar essa emoção, essa descarga.

    De outra forma, agredir pode ser um pedido da criança: «Por favor, me explica o que é esta emoção que eu só sei manifestar pela agressão. E me explica como lidar com isto!»

    Há uma entrega total da criança no ato de agredir. Ela abre-se completamente deixando descoberto e sem defesa tudo aquilo que ela tem dentro de si.

    A reação dos pais e a confiança das crianças

    Agora a parte que mais me preocupa: como os pais reagem a esta agressão?

    Os pais supostamente são adultos maduros, que sabem lidar com as próprias emoções e a quem as crianças depositam toda a confiança e endereçam pedidos de auxílio.

    Mas, como Lacan diz com «hainamourer», o ódio vem antes do amor.

    Percebo que alguns pais não lidam com as suas próprias emoções e não conseguem transpor este primeiro passo do ódio. Assim, a criança recebe como resposta uma outra agressão: um tapa, um grito, um puxão de orelhas, um puxão pelo braço…

    Ao se abrir completamente num pedido de ajuda, ela recebe uma agressão, um revide, um ato raivoso que quebra a inteira confiança que ela depositou no adulto. É isso mesmo?

    Esta agressão entra diretamente no que a criança tem de mais íntimo. E, além de quebrada a inteira confiança que a criança depositou nos pais, a agressão destes fecha o assunto sem a ajuda esperada pelo pedido da criança: «me explica como lidar com isso, por favor».

    Ou pior ainda, fecha-se o pedido com a prática: «lida com isso através da agressão!»

    Um pedido outro

    Assim, chega-se a um outro pedido: acolhas a agressão que a criança endereça a ti.

    Mas como acolher a agressão da criança contra mim?

    Lembre-se: ódio não é o contrário do amor.

    Se a criança te escolheu, ela não sente indiferença por ti.

    Se a criança te escolheu, ela manifestou uma fascinação por ti.

    Se a criança te endereçou uma agressão como pedido de ajuda, é sinal que ela confia muito em ti.

    Se a criança te endereçou uma agressão, é sinal que ela ainda não sabe dizer «eu te amo».

    Por favor, não revides à agressão. Poderias apenas mostrar a ela como é que se diz «eu te amo!»?

    Uberlândia, Abril/2017