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  • Incorporado: em corpo forjado

    Acabo de chegar do concerto do violoncelista Kayami Satomi. Há concertos que são bastante bons e que me deixam a pensar. Esses concertos, além do prazer que proporcionam com a música, libertam os pensamentos para que eu possa ver, ouvir e observar o que há de único naquele músico que toca, o que há de particular nele que não acontece em mais ninguém e em nenhum outro músico.

    Conheci o Kayami numa edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Lá escrevi um duo (violoncelo e piano) para que tocasse com o seu amigo, o Renato. «As Folhas do Platanus» era o título, a única coisa que me restou.

    O que aconteceu de nossas vidas?

    O Renato foi estudar piano em Portugal, depois virou engenheiro. Eu tornei-me esta coisa Incompleta atravessada por música, psicanálise e cultura. O Kayami ganhou a bolsa do Festival de Campos do Jordão, passou alguns anos estudando na Alemanha e hoje é isso que aí está.

    Uma prática

    Durante o concerto, fui atacado pelo pensamento de que o fazer musical é uma prática e, como tal, só pode ser produzida num corpo e por um corpo. Uma prática é um «saber fazer» específico de um corpo, com as características peculiares desse corpo. Mesmo que possam ser transmitidas, elas não se reproduzem exatamente no corpo de quem aprende, nunca é uma cópia: sempre há transformações e adaptações.

    Dessa maneira, a transmissão desse saber fazer não se dá através de um conjunto fechado de regras e movimentos que são meramente imitados, ensinados e reproduzidos. São um modo de usar o corpo, de arranjar soluções com um corpo – seja o corpo do performer, do professor ou do aluno – para atingir determinados objetivos, determinados produtos, determinados resultados.

    Não é imitação

    A transmissão não é uma mera cópia do professor. Em um programa Provocações, Antônio Abujamra diz que «a cópia é a mais difícil das artes»1 no sentido de ser praticamente impossível de ser bem sucedida. E é completado por Jorge Forbes: «a cópia é muito ruim… não dá, fica ruim demais… eu acho que é um horror»2.

    Na transmissão desse saber fazer, é preciso que algo seja forjado num corpo, tendo em vista que forjar pode ser definido como «trabalhar ou fazer (alguma coisa) na forja»3. Forja designa o forno utilizado para aquecer os metais que o ferreiro trabalhará pelo processo de forjamento: aquecer o metal na forja, martelar sobre uma bigorna, reaquecer, martelar novamente, repetir esse processo até que, ao fim, o ferreiro tempera o metal num líquido que arrefece e fixa a forma forjada.

    Incorporar: em corpo estar

    Pensando a transmissão através do ato artesanal de forjar um corpo atribuindo-lhe uma determinada capacidade e um determinado saber fazer, temos, como resultado, o corpo que toma posse do que faz, que possui o que faz, um fazer incorporado e próprio do corpo que o faz de forma natural e fluída.

    A imitação que barra a transmissão

    Esse saber fazer não é algo falso que deva ser simulado nem é algo externo que deve ser apreendido e prendido. Não é um ritual nem uma prática de regras. Não é algo que entra no corpo, que «baixa» com ou espírito ou que toma o corpo. Se assim for, torna-se um jogo de imitação, uma cópia que corre o risco de ficar «ruim demais… um horror»4. Sobre esse jogo de imitação e cópia, alguns podem dizer que é algo do processo de aprendizagem, um período de absorção. A meu ver, isto é um obstáculo para a transmissão desse saber fazer.

    Incorporado: forjado no próprio corpo

    O saber fazer se transmite na forja e pelo forjamento que não se faz com um molde. A forja se faz no processo insistente e persistente de aquecer e martelar, seguido do arrefecimento que fixa a forma quando estiver ajustado ao que se deseja. A transmissão não é uma incorporação no sentido de colocar algo dentro do corpo, absorver algo que vem de fora e deve ser colocado para dentro. Penso que é algo incorporado: feito especialmente para o próprio corpo ao mesmo tempo que vem direto do próprio corpo, um saber fazer cujo molde é o próprio corpo e forjado diretamente no próprio corpo e para o próprio corpo.

    Do incorporado, faz-se

    Do incorporado, torna-se algo natural e fluído, parte da própria vida do corpo. O corpo torna-se dono dessa cultura, dono dessa prática e pode fazer uso da maneira que bem entender. É uma prática comum, habitual e orgânica.

    Não se pretende que aconteça, não tem a intenção de se mostrar nem de se exibir. É algo do próprio corpo que vai para o externo, para o exterior, algo que emana, que sai do corpo e pelo corpo, exala, que sai, que flui…

    Não há mais o pudor nem o rito. É despido, é corpóreo, é sexual, é sensual, é o íntimo colocado em jogo num simplesmente «é-se», faz-se a tocar os outros corpos.

    Não há o erro nem o acerto, não há o padrão a ser atingido: o certo e o errado se desfazem.

    A volta

    Esta é a maneira que sou capaz de conceber e pensar o processo de construção de algo em música. É com esta ética que tento sustentar as aulas e as atividades de música que proponho: espaços para que se forje algo musical particular em cada um.

    Quando reencontrei o Kayami em Uberlândia, uma das primeiras coisas que ele me disse foi que tinha a partitura do duo. Alguns dias atrás uma pessoa me contou a lembrança do Kayami sobre o dia que eu lhe entreguei a partitura do duo: ele disse que não conseguia tocá-la e que eu lhe mostrei todas as posições e as maneiras de executá-la no violoncelo. E completou dizendo que me vê como uma pessoa que lê muito, que estuda muito e que isso dá um suporte ao que faço.

    Achei curiosa a lembrança dele, bastante agradável ao meu narcisismo. Provavelmente é a forma bonita que ele tem de contar a história. Felizmente eu não lembro desse dia pois, se eu lembrasse, ficaria achando que as minhas bobagens o instigaram – algo pretensioso tendo em vista o que ele se tornou na sua prática de violoncelista.

    Mas qual seria a minha prática, afinal?

    Talvez a lembrança dele aponte (para mim) algo que possa nomear esta prática: observar as coisas e arranjá-las de uma maneira que possam ser contadas. Nem eu sei quantas vezes ainda vou à forja, forjando-me na observação até que um dia, enfim, possa ter o arrefecimento.

    Escrever estas bobagens são o processo de forjar-me…

    13/Jun/2018

    1. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
    2. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
    3. “Forja”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa em linha, 2008-2013,- consultado em 13-06-2018. https://www.priberam.pt/dlpo/forja ↩︎
    4. Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s ↩︎
  • Ir Além do Espelho

    «L’amour, c’est donner ce qu’on n’a pas à quelqu’un qui n’en veut pas.»

    Jacques Lacan1

    Ter um filho é uma oportunidade de olhar para si mesmo, um impulso e uma força para fazer as mudanças que sempre desejamos mas que sempre deixamos para trás. Não é incomum encontrar pessoas que, quando descobrem a gravidez, resolvem mudar de casa, mudar a casa, mudar de cidade, mudar de estilo, mudar… Mudar-se de uma maneira geral. Mudar-se para acolher uma outra pessoinha que irá dividir a vida.

    Quando a criança chega, começa a transmissão cultural: tudo aquilo que temos como nossos padrões, hábitos, ferramentas para lidar com os sentimentos e escolhas de vida começam a ser transmitidos. Essa transmissão não se dá simplesmente pela via da educação, como se pretende dizer com «educar os filhos». Essa transmissão se faz por uma via de convívio, de transmissão, de fazer junto, de como fazer com o encontro e no encontro. Ousaria dizer que o encontro dos pais com os filhos provoca a transmissão de uma Ética.

    Frente ao que estamos transmitindo, podemos nos observar e observar o que estamos transmitindo, como estamos transmitindo, que resultados esperamos e conquistamos com o que transmitimos. Todavia, junto com a observação, normalmente vêm os julgamentos e as exigências, inclusive as que herdamos dos nossos pais e da cultura que estamos inseridos. E assim surge a violência: a exigência de amar igualmente os filhos, de tratá-los como se fossem iguais entre si, de julgar o que nossos pais fizeram de certo ou errado conosco, de esconder dos filhos que temos amores de diferentes medidas, de julgar os amores que damos para cada um deles…

    Tomo como ponto de partida o texto «Sobre as diferenças entre os filhos e o amor»2 da psicóloga Pollyana Mendonça. Quero dialogar com esse texto, um texto que me fez pensar e me pôs em movimento para escrever estes apontamentos. Apontamentos não prontos, não fechados que me servem para pensar o que faço e lapidar o que faço.

    Filhos como espelho

    «Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças…»3. Cada filho reflete algo de nós. Se estivermos disponíveis no encontro com os filhos, podemos ter uma ideia do que somos a partir da maneira como nossas ações os afetam. E ainda podemos observar o que as ações desse outros seres nos despertam e como elas nos tocam.

    Ana Thomaz, em «O que Aprendi com a Desescolarização»4, fala de sua técnica de observar as próprias sensações e emoções no seu encontro com as filhas.

    «O que o encontro me deu foi o conhecimento de mim mesma, de algo que estava ali guardadinho.»5

    Essa técnica tem dois momentos.

    O primeiro momento é observar os próprios sentimentos e trabalhar com eles para resolver e liberar os próprios bloqueios antes de se direcionar às filhas.

    «Elas continuavam com o problema delas. Paciência! Elas não tinham uma mãe pronta para entrar em contato com elas, pois eu ainda tinha que entrar em contato comigo. … Esperava isso vir à superfície e liberava, só de vir à superfície você libera.»6

    O segundo momento, já liberada das questões pessoais, ela se direciona ao encontro com as filhas para tratar das questões delas, para acolher as filhas num processo de fluxo livre. Desse encontro em fluxo livre vinham insights que ajudavam-na a se relacionar com a situação, soluções sempre inéditas vindas do contato e do encontro.

    O essencial é a diferença

    «O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.»7

    Temos o hábito cultural de comparar e, quando temos dois filhos, é comum o uso da comparação. Aí que o problema aparece: a comparação institui um modelo, um certo e um errado, um julgamento. E, assim, estão lançadas as bases para o início da violência…

    Cada filho despertará emoções e sensações diferentes nos pais. Cada filho é uma pessoas diferente e proporciona um encontro diferente. Mesmo sendo irmãos, os filhos terão jeitos diferentes, nascerão em tempos diferentes, com pais em momentos distintos de maturidade ao longo da vida. Inclusive, cada filho terá uma forma físicas particular. Mesmo os gêmeos idênticos darão relações diferentes e experiências diferentes.

    Há sempre o irredutível temporal que cria memórias e sensações diversas. A relação com cada um dos filhos é diferente, criando traços na memória da mãe e construindo a maneira como ela vê, reage e sente cada um dos filhos.

    Cultivar a diferença para que o outro apareça

    «A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.»8

    É na diferença que nos percebemos como sujeitos. É no contato com o outro diferente que pode aparecer aquilo que é singular em cada um, o que é próprio em cada um, o que é único. Os pais encarnam esse diferente, os irmãos também.

    Haverá sempre diferenças entre os filhos, diferenças fundamentais para que se crie o individual e o pessoal de cada sujeito. Respeitar e acolher essas diferenças próprias de cada serzinho contribui para que a personalidade de cada um possa aparecer, advir e se construir. Ao tentar a igualdade, de uma certa forma desconsidera-se o individual e particular de cada um.

    O essencial é a diferença!

    Considerar a hipótese de que amar os filhos de maneiras diferentes pode ser algo positivo, pois se acolhe o aparecimento daquilo que é próprio de cada um. Mas há outra vantagem em considerar a hipótese de amar os filhos de maneiras diferentes: tornar possível a relação dos filhos com aquilo que o próprio deles cria e desperta nos pais. Tento de uma outra maneira: possibilitar que eles se desenvolvam com o que eles despertam nos pais por serem como são.

    Certamente cada um dos pais agirá de maneira diferente frente ao particular de cada filho devido ao seu próprio particular de pai-mãe. Ao nos relacionarmos com eles do jeito que eles são, fato que nos despertará emoções diversas, eles terão espaço para serem eles mesmos e aprenderem a lidar com as próprias emoções frente aos pais.

    «…provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.»9

    Seria possível ir além de si mesmo e disponibilizar uma maneira outra de acolher o outro?

    Ir além do espelho

    Acima descrevi a técnica que a Ana Thomaz utilizava. A técnica tinha dois tempos: o primeiro é a relação interna; o segundo, a relação externa, a relação com o outro, com os filhos.

    Filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço dedicado exclusivamente ao autoconhecimento. Penso que, para criar um filho, é preciso que os pais se coloquem à disposição dele, coloquem-se em relação para que ele possa se construir a partir do encontro com os pais. Todavia, colocar-se à disposição não é algo passivo e sempre contém uma transmissão, uma transmissão ética que vai muito além do que se educa ou do que se ensina.

    O próprio processo de descobrir-se, pensar-se como pai-mãe e pensar-se como sujeito no encontro com os filhos já é, por si só, uma transmissão, a transmissão de um modo de pensar sobre si.

    «O que elas começaram a ter contato é com uma mãe que se trabalha desta maneira enquanto está enfrentando algum problema. Então eu comecei a perceber que elas estavam entendendo, sem que eu falasse nada, […] que eu faço alguma coisa. […] E eu comecei a perceber que eu estava ensinando indiretamente o processo para elas.»10

    Não é preciso ensinar passo a passo. Os filhos, ao verem os pais no próprio processo, perceberão que algo se passa ali e entenderão esse processo pelo contato.

    «Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar».11

    Retomo que os filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço exclusivo de autoconhecimento. É preciso ir além de si mesmo e da observação de si, colocando-se à disposição para que o outro possa advir. É preciso uma maneira de acolher a singularidade e individualidade de cada filho para ajudá-lo a nomear-se, ajudá-lo a criar ferramentas simbólico para tratar dele mesmo, das suas emoções, das suas sensações e das suas atitudes.

    É preciso ir além do espelho!

    O que se manteria igual para todos os filhos?

    Ir além do espelho é permitir que uma outra instância se instaure, que uma outra forma de estar apareça. Esta outra forma de estar eu chamaria de «Escuta Empática», um tipo de escuta e presença que acolhe o singular de cada filho sem julgamento, que acolhe o diferente de cada um para que o diferente de cada um possa se desenvolver. É uma escuta em que os pais se colocam com a atenção voltada às necessidades, pedidos e desejos dos filhos.

    «Empatia é a capacidade de observar e estar presente sem concordar ou discordar.»12

    Assim é como Dominic Barter define Empatia, uma escolha consciente que experimenta os limites da capacidade de entendimento na comunicação. Assim, a «Escuta Empática» seria uma escolha consciente de sustentar uma posicionamento de escuta frente ao outro na tentativa de remover os bloqueios para a ação.

    Ir além do espelho é estar fora dessa relação pessoal onde o espelho refletiria o que supostamente se é, estar fora do jogo violento de julgamento sobre o que estou fazendo como pai-mãe e da observação especular de quais são as emoções que isso desperta em mim.

    Ir além do espelho é colocar-se na escuta do outro. Na medida do que é possível, é colocar-se dentro da lógica do outro, colocar-se à escuta do que o outro busca nele mesmo e nas relações com os demais.

    Atravessando o espelho

    Nesse encontro de Escuta Empática se faz a transmissão, o que neste momento considero o fundamental da função dos pais: transmitir aos filhos as ferramentas para que eles lidem com as próprias emoções, com as próprias sensações, com os próprios medos, pensamentos, conflitos, sombras, angústias, desejos, ânsias, vontades, gozos…

    Enquanto o pai-mãe estiver dentro de si mesmo e enrolado com as imagens criadas frente ao espelho, acredito que terá uma certa dificuldade de perceber o que se passa dentro dos pequenos (ou grandes, às vezes), o que está lá dentro e quais são as ferramentas que podem ajudar na construção do que está lá dentro.

    Talvez isto seja aquilo que se pode dar de igualdade para todos os filhos: um espaço onde cada um deles pode se mostrar e ser na sua singular, um espaço para ouvir e acolher o que há de mais diferente em cada um deles, para ouvir e acolher o que há de singular.

    A Escuta Empática é uma proposta de ir além do espelho…

    Seria esta uma manifestação do Amor?

    02/Jun/2018

  • O Relógio de Peixinho e o Motor que Estraga

    Entro na sala e me deparo com duas pessoas engalfinhadas e uma grande barulheira.

    De um lado, um menininho de 4 anos puxando aflito o seu braço e falando desesperado: «Vai entrar na água, Mamãe!»

    Do outro lado, a mãe agarrando o braço do menininho dizendo: «Não vai entrar na água. Solta isso! Solta isso!».

    Submersos no puxa-puxa, os dois falam sem parar. E o volume começa a aumentar.

    Só se puxam e se agarram e se puxam e se empurram e se agarram…

    Tento um grito para começar a conversa:

    – Ei! Algum de vocês dois consegue me ouvir?

    Os dois param…

    Olham-me assustados com os olhos arregalados…

    Alguns segundos de silêncio…

    Parece que me escutam.

    O grito é a forma mais eficiente de conseguir a atenção de alguém. Sua eficiência se faz apenas nos primeiros segundos, depois desse tempo, ele transforma-se numa das piores maneiras de se comunicar. Reajusto o tom da voz:

    – Vocês dois estão brigando, é isso? Que tal vocês falarem um para o outro o que querem?

    Nesse tempo eu percebo que há um relógio no meio deles. Um pobre relógio que é agarrado por duas mãos. Essas mãos o disputam, uma em cada ponta de seu corpo, esticando-o para que ele escape das garras do adversário.

    Resgato o coitado que agora pode repousar sobre a mesa, um merecido descanso após sofrer sem dó nem piedade nas garras desses dois sangrentos adversários. Começo pelo Pequeno:

    – O que você quer dizer à Mamãe? Porque você quer levar o relógio para o banho?

    – É que… É que… olha aqui…

    Gaguejando, o Pequeno se desloca na direção do relógio e tenta pegá-lo. Suavemente recoloco a questão sem o objeto.

    – Mocinho, tenta falar porque você quer levar o relógio para o banho.

    – Papai, é um relógio de peixinho. Quero levar o peixinho para o banho.

    Ouvindo isso, a mãe pega o relógio, olha atentamente com a testa franzida e dispara:

    – Não há peixinho aqui! Ele vai estragar. Olha aqui, ó, estraga, estraga se for para o banho!

    – Mas Mamãe, é que, é que…

    O relógio é de um super herói qualquer, só tem as cores e o nome do personagem. A Mamãe tem alguma razão: nada de peixinho…

    Eu volto a escutar o Pequeno, tentando empatizar com o seu mundo para perceber as suas necessidades e vontades.

    – Então tem um peixinho no relógio? E o peixinho gosta de água, é isso?

    – Sim, Papai. Ele gosta de água. E eu gosto de levar o peixinho para a água. Quero levar o peixinho para a água, quero que ele tome banho comigo.

    Verifico se recebi a mensagem que ele me enviou. Apenas redireciono o que ele me disse:

    – Hum, você quer tomar banho com o peixinho!

    Ele sorri.

    Me pareceu que eu havia compreendido a mensagem do Pequeno. Me pareceu, também, que ele se sentiu reconhecido. Seu sorriso me levou a crer que os seus sentimentos estavam sendo ouvidos e levados em conta.

    A Mamãe mudou o olhar. A sua testa já não estava franzida. Me parece que ela voltou a ouvir o filho. Me parece que ela entendeu o que o seu Pequeno queria fazer. Desconfio que ela tenha começado a ver o peixinho no relógio…

    – Acho que a Mamãe também entendeu que você quer levar o peixinho para a água. Agora vamos ouvir a Mamãe? Vamos perguntar porque ela não quer que você leve o relógio para o banho?

    De uma maneira suave e carinhosa, da maneira sublime que a Mamãe é capaz de fazer, ela pega o relógio na mão:

    – Aqui dentro do relógio de peixinho tem um motorzinho. O motorzinho estraga se for na água.

    O Pequeno adora motores. E adora desmontar motores. E adora motores de carros, de motos, de escavadeiras, de aviões, de relógios… ele adora relógios, livros de relógios, sons de relógios, o Big Ben. O Pequeno também adora números… Então ela continua:

    – Está vendo esses números aqui no relógio de peixinho? É o motorzinho que faz os números. Se for na água, o motorzinho estraga e os números desaparecem.

    Ela faz uma proposta-pedido:

    – Vamos deixar o relógio aqui fora para o motor não estragar e continuar fazendo os números?

    O Pequeno sorri para sua Mamãe.

    «Sim, Mamãe!» é a resposta.

    Ele larga o relógio na mesa, vira as costas e sai correndo para o banho.

  • Tem que Ser

    Mandando uma mensagem à mãe do meu filho, para pensamos sobre as supostas «teimosias» do nosso pequeno, me deparo comigo tentando me livrar da expressão «tem que»: tem que vestir a roupa, tem que comer, tem que sair agora…

    No livro «Comunicação Não-Violenta», Marshall Rosenberg pensa a expressão «tem que» ou «ter de» como parte do que ele chama de comunicação alienante da vida.

    «Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.»

    Primeiro, esta expressão instala uma instância que julga e que ordena, que impõe um certo e um errado independente da situação. Um ponto importante na Comunicação Não-Violenta é evitar «julgamentos moralizadores», ou seja, tentar observar sem  julgamento de certo e errado. O «julgamento de valor» depende de um determinado contexto e de uma determinada situação, situação que não é estática e que só acontece naquele momento e naquelas condições.

    Segundo, esta expressão desresponsabiliza quem toma a ação, como se houvesse algo pré-definido para acontecer, como se as vontades em jogo naquele momento devessem ser excluídas para que esse algo pré-determinado aconteça.

    Todavia, mantêm-se uma certa ordem, uma diretriz, um guia ou alguns parâmetros pessoais de conduta. É preciso ter um direcionamento, só que esse direcionamento é uma escolha responsável, uma escolha de conduta feita de maneira consciente (na medida do que é possível). A expressão «tem que» desresponsabiliza frente à escolha, a escolha não é feita, não há a escolha com o «tem que».

    Durante a mensagem, consegui articular o que queria usando a expressão «é assim que escolhemos e é assim que vamos fazer». Não há a obrigação do «tem que ser», há uma escolha autêntica: «escolhemos assim e assim vamos fazer». O Marshall sugere utilizarmos a expressão «eu opto por fazer isso porque desejo algo com esta ação».

    Essa escolha pode ser um acordo entre os pais e as crianças ou uma escolha isolada dos pais.

    Sim, ao assumirem a função de cuidadores, os pais precisam fazer escolhas que, em alguns momentos, podem contrariar as vontades das crianças ou mesmo fazer escolhas que parecem autoritárias.

    Aqui reside a diferença: os pais escolhem cuidar dos filhos e escolhem tomar as atitudes. Não há o «tem que ser» das expressões «os pais têm que ser autoritários e impor limites» ou «os pais têm que ouvir os filhos». Substitui-se o «tem que» pela escolha que os pais fazem de cuidar dos pequenos, com total responsabilidade pelos atos e escolhas, com a liberdade (na medida que lhes é possível) e com a clareza que têm para tomar as suas atitudes.

    Assim, a decisão que pareceria autoritária, vinda de um lugar não identificado e externo a quem decide, transforma-se numa decisão própria de quem decide, uma decisão por fazer algo porque se deseja alguma coisa. «Por nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis», diz Lacan. E Jorge Forbes completa: «’Sempre’, diz ele, não de vez em quando ou dependendo da intenção, do conhecimento ou de qualquer outra variável. Se o sujeito é sempre responsável, não haverá sujeito sem responsabilidade.»

    Seria possível não ser autoritário?

    Vêm dois apontamentos, duas diretrizes:

    Se a decisão pode mudar ou ser flexibilizada para atender às vontades das crianças, o que impede de fazer um novo acordo com os pequenos? Porque não ouvir e acolher a voz dos pequenos?

    Se a voz dos pequenos não pode ser acolhida por alguma razão que os pais sabem (como a segurança e integridade dos pequenos), que os pais tomem a decisão. Todavia, é preciso verificar se é a voz do «tem que ser» ou se é a voz dos pais quem está tomando a decisão!

    Se, por escolha, a decisão pode ser flexibilizada, tudo bem: escutemos os pequenos.

    Se, por escolha, a decisão não pode ser flexibilizada, tudo bem também: aplica-se a ação mesmo a contragosto dos pequenos – com acolhimento aos sentimentos de contragosto e frustração dos pequenos.

    O que não pode é a falta de escolha, a desresponsabilização pelas atitudes. O que não pode é o «tem que ser». Finalizando (e brincando), a responsabilidade «tem que ser» de quem escolhe.

    Como nos diz Sartre, o que não é possível é não escolher: «a escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.»

    06/Abr/2018

  • Clube da Música Clássica #01 – Pós-evento

    O Tempo.

    A passagem do tempo.

    Uma observação sobre a passagem do tempo.

    O fluxo contínuo que leva a uma observação sobre a passagem do tempo: um recorte…

    Tal como quem medita: sem julgar, sem barrar, sem punir, sem se exaltar…

    Apenas observar e deixar que, naturalmente, os acontecimentos e pensamentos passem em fluxo contínuo pela nossa percepção.

    A observação começa e os sons aparecem, cada um a seu tempo, sem hierarquia, apenas no acaso dos acontecimentos.

    A observação acompanha os sons no tempo, os escuta e os percebe.

    A observação termina, a música se desfaz e os sons terminam, esvaem-se.

    Mas isto nem sempre é fácil.

    Uma música onde os acontecimentos se dão sem uma relação fixa com o tempo ou com a métrica pode despertar angústia, suspense, imprevisibilidade e até aversão, como muitos relataram no encontro.

    Esta é uma música que pode tirar o chão, tirar as referências, tirar as certezas… todavia, uma música que conduz a uma observação, a uma introspecção, a um estado de só observar sem alegrias nem tristezas.

    Esta é a proposta do compositor Olivier Messiaen na Liturgia de Cristal, o primeiro andamento do Quarteto para o Fim do Tempo.

    Esta foi a música eleita pela enquete feita via Facebook que virou o tema do primeiro encontro do Clube da Música Clássica.

    Como observamos durante o encontro, o violoncelo e o piano fazem um ambiente, algo cíclico que não tem começo nem fim… apenas o fluxo suave dos sons no tempo, sem julgamentos, sem arrebatamentos, sem exaltação das emoções.

    Inseridos no ambiente, um Melro e um Rouxinol cantam. O Melro, ave sagrada mas destrutiva, tem seu canto sensual e triste feito pelo clarinete. O Rouxinol, com seu canto agudo, livre e espontâneo, aparece no violino.

    Como sugere Messiaen, esta observação se dá entre 3 e 4 horas da manhã.

    «Transposez cela sur le plan religieux, vous aurez le silence harmonieux du ciel1

    Apenas uma observação sobre o tempo.

    Apenas uma meditação sobre o tempo.

    Em fluxo…

    Os acontecimentos a transcorrerem no tempo…

    O tempo a transcorrer livre…

    Que acaba sem concluir…


    Quarteto para o Fim do Tempo – vídeo no Youtube. Liturgia de Cristal: 0’40 a 3’35.

    Escute o canto do Rouxinol e compare com o violino – áudio na Wikipédia.

    Sugestão que fiz no Encontro: Sinfonia Turangalila do Messiaen – vídeo no Youtube. Especial atenção ao Tema do Amor em 8’16.

    Do sânscrito, turanga e lîla: canção de amor e hino de alegria, tempo, movimento, ritmo, vida e morte. (cf. Turangalîla-Symphonie na Wikipédia)

    08/Jul/2017

  • Chorar para aprender a dormir?

    A hora de dormir sempre é um pesadelo acordado. Como lidar com o choro dos bebês na hora de dormir? O tema é amplo mas é preciso partir de algum lugar.

    Introdução

    Eis um começo: qual é a forma de comunicação que um bebê tem com o seu cuidador?

    Como ele manifesta que algo não vai bem?

    Qual é a ferramenta do bebê para pedir comida, pedir carinho, avisar que está com dor, avisar que está com sono, avisar que algo vai mal, avisar que está com medo, avisar que está inseguro, avisar que está com frio, enfim, dizer que precisa de ajuda?

    Se você respondeu choro, concordamos neste aspecto.

    Se você respondeu outra coisa, me conte pois quero descobrir novidades.

    A condição humana

    O choro é a manifestação de que o bebê precisa de algo. O bebê humano está inteiramente dependente de alguém que o proteja e que supra as suas necessidades fundamentais para que sua vida seja mantida. Não somos girafas que já nascem andando e aprendem rapidamente a comer grama. Na Psicanálise, o choro é fundamental na aquisição da linguagem, da comunicação, da construção psíquica, ou seja, na transformação deste bebê em humano.

    O anúncio do problema

    O choro é a principal ferramenta das necessidades de um bebê que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite. Tal como um adulto: quem nunca levantou de madrugada para comer algo? Quem nunca acordou no meio da noite querendo um abraço gostoso e quentinho? Quem nunca ouviu um barulho estranho durante a noite e se assustou?

    A chegada do problema

    Há vários manuais e livros ensinando a fazer o bebê dormir, muitas teorias, estudos científicos, conselhos, consultores. Alguns dizem que devemos deixá-los chorar para que aprendam a dormir sozinhos. Até se dizia que os franceses deixavam os filhos chorarem para aprender a dormir – bom, posso garantir que não foi bem assim que meus amigos franceses fizeram!

    Se o choro é uma tentativa de comunicação, o que acontece se não atendemos, se não damos atenção e deixamos o bebê sem amparo?

    O bebê chora pedindo ajuda. A ajuda que sempre chegava não chega. Ele continua chorando e a ajuda que era esperada não chega. E ele chora mais e a ajuda ainda não chega e chora mais e ela não chega… até que ele cansa e, exausto e desamparado, dorme.

    A primeira derrota do protagonista pequeno

    Não, ele não aprendeu a dormir sozinho! Ele chorou tanto que está cansado, desistiu de pedir ajuda. Foi uma grande batalha que gerou uma grande quantidade de estresse (adrenalina, cortisol e tudo mais). E isso se repete por vários dias, sistematicamente.

    Numa pesquisa rápida à Wikipédia: «a exposição de longo prazo ao cortisol resulta na danificação das células do hipocampo. Este dano leva à diminuição da capacidade de aprendizagem.» Agora uma pergunta um pouco séria: quais são os danos deste choro no desenvolvimento do bebê? E esta é apenas uma parte do negócio…

    A primeira derrota do protagonista grande

    Como você se sente deixando seu filho chorar até cansar e dormir?

    Será que você não fica minimamente angustiado?

    Será que o choro não te incomoda ou provoca uma leve descarga de adrenalina?

    Será que você não chora junto, mesmo que «por dentro», afinal «homem não chora!»?

    O sentimento de culpa e arrependimento

    Há mesmo uma grande razão para não amparar o choro do seu bebê?

    Há mesmo uma grande razão para negar um pouco de cuidado a uma pessoa querida que chora?

    O que você faria se uma pessoa que você gosta muito estivesse chorando? Você a deixaria sozinha chorando para que «aprenda» sozinha a lidar com a situação?

    O que dizem os seus instintos de pai (ou mãe)?

    Que tal acreditar um pouco nessa beleza que a natureza e a cultura nos deram: comunicação, choro, fala, linguagem, afeto, carinho, cantigas de ninar, cuidado!

    A solução desponta (com música de esperança)

    Está pesado? Está duro?

    Mas lá no horizonte o sol brilha em forma de soluções!

    A primeira é acreditar em você, nas suas sensações, nas suas vontades, nas suas busca por informações e por pessoas que te inspiram.

    A segunda solução é colocar o bebê no quarto dos pais e gastar menos energia para atender as demandas do bebê. Consequentemente, o bebê perto otimiza e aumenta as horas de sono dos pais – que já são poucas – e ainda melhora a qualidade do sono: tudo está mais próximo, nítido e suave.

    Berço ao lado da cama dos pais ou a «Cama Compartilhada» são alternativas. Seja qual for a sua opção ou possibilidade, nada é mais fácil e gostoso do que esticar o braço para o lado e tocar no seu bebê…. E dormir com a mão nele fazendo carinho!

    Fiquem tranquilos que eles não irão dormir na cama dos pais até os 30 ou 40 anos. O meu pequeno, no alto de seus 2 anos, já pedia para ir dormir na sua cama. Além do mais, a adolescência chegará, marcará a independência e, também, o espaço privado onde nenhum pai (nem mãe) é bem-vindo.

    O final feliz

    Aproveitem a proximidade, aproveitem o carinho. E deem carinho, e deem afeto, e deem atenção, e atendam aos choros. Empatia com as necessidades dos bebês pois eles são apenas pessoas pequenas.

    E isto não acaba aqui: ainda sobra muito para pensar sobre choro, manhas, birras, ataques, chiliques, manipulações e joguetes das crianças e dos bebês.

    Coda

    P.S.: Recomendo o vídeo «Não Deixe Seu Bebê Chorando para Dormir» do «Paizinho, Vírgula»!

    07/Jun/2017

  • Pai: criar suas crias com criatividade

    De que maneira um pai se relaciona com o seu bebê?
    Seria possível uma relação de intimidade e afeto que forme uma entidade chamada pai-bebê?

    Tudo se passa fora do corpo do pai. Ou melhor, tudo se passa fora e, ainda por cima, escondido dentro do corpo da mãe.
    «No princípio era o verbo»: nas 38 até 42 semanas de gestação, toda notícia que um pai pode ter do seu filho vem pela narrativa e pela fala da mãe. Antes de nascer, o ser já é falado.

    Depois do nascimento, na cultura comum, digo, no senso comum, o pai não participa ou participa pouco de todos os processos com o bebê. O envolvimento do pai só acontecerá mais tarde quando a criança já anda, fala, corre e pode ir jogar bola no parquinho.

    «Normalmente, o pai não participa do sono do bebê porque é dito que o bebê “só dorme no peito” e, por mais que essa condição seja cômoda para o pai, pode ser extremamente aprisionante para a mãe.»

    Aprisionante para a mãe e aprisionante para o pai também! O pai fica aprisionado nas barreiras e limitações impostas pelo social: fraldários são só no banheiro feminino pois homem não troca fraldas, homem não chora, não faz papinha, não se emociona, não fala de sentimentos…

    Mesmo que seja cômoda, esta condição passiva e de expectador obriga o pai a ver seu filho só de longe, sem envolvimento. É afastado do filho e ainda perde a mulher que está completamente imersa no ato de ser mãe e fundida com o bebê e suas demandas.

    Assim, a entidade mãe-bebê é algo afastado do pai que está isolado no seu canto, com dois pedaços arrancados dele: a mulher e o filho.

    Para a sorte dos homens, essa exclusão tomba quando a criatividade cria um papel de pai que se envolve na criação da cria. CriaAção: pôr-se em ação para sua cria.

    Da mesma maneira que a entidade mãe-bebê descobre como amamentar e dormir, a entidade pai-bebê pode descobrir também. E nessa descoberta, o pai pode fazer todas as tarefas da mãe.

    Mas alguns gritarão: o homem não amamenta!… Isto lá é verdade. Uma verdade parcial, pois o pai pode acordar de madrugada, pegar o bebê, levar até a «distribuidora de leite» (a mãe, chamada assim de propósito e com imenso afeto!), fazer todos os preparativos de retorno à cama (fralda, arroto, etc.) e colocar o pequeno para dormir. A mãe irá agradecer por esses minutos extra de sono! A rotina de amamentação é dura…

    Cada uma das entidades terá maneiras diferentes de fazer as tarefas.
    Cada entidade terá características e afetos próprios.

    Maior diversidade: quem ganha é o bebê que dispõe de diferentes pontos de amparo!

    «Bebês não dormem “apenas” no peito, mas os pais (e os bebês) precisam entender que eles não vão dormir da mesma forma que um bebê dorme com a sua mãe.

    Aqui entra a criatividade do pai, que precisará descobrir sua própria maneira de fazer seu filho dormir.»
    Eis o convite aos pais: criar suas crias com criatividade!

    30/Mai/2017

  • Papel do Pai – Parto Alegre

    «O Pai deve dar suporte à Mãe durante a gestação e parto»: isso é o que ouvimos toda vez que se fala sobre o papel do Pai na gestação. Mas, quem dá suporte ao Pai em seus medos, angústias e inseguranças?

    Esta pergunta eu escuto há mais de três anos, desde o grupo de gestantes que frequentei durante a gravidez do meu filho. Os pais também têm suas transformações físicas e mentais durante este período de gestação. Um pai também é gestado durante esses meses de barriga. Mesmo que muitos só se entendam pais depois de verem seu filhos nascidos, esses homens já estão em processo junto com suas companheiras mesmo que não percebam ou admitam.

    Pensando nos pais, o grupo Parto Alegre propôs um encontro para tratar do «Papel do Pai». Que grande surpresa foi ver a sala cheia! Eram casais grávidos e futuros pais sem as suas companheiras (sim, alguns homens foram sozinhos!). Para mim, isso indica a importância do tema e mostra a busca dos homens gestantes por um grupo que proporcione informação e suporte.

    Dois pais no brindaram com a narrativa dos seus partos, cada um à sua maneira, com suas peculiaridades, com seus afetos, com suas limitações, incapacidades, medos e virtudes. Por isso, repletos de invenções e atitudes próprias, firmes, singulares e decididas. E, na roda, contribuições vivas de outros pais que também estão em gestação e que já tiveram filhos.

    Na roda, também, vimos e ouvimos homens com diversas emoções: os de 21 semanas; os de 36 semanas e meia; os angustiados com o sofrimento da temida Dor do Parto; os ávidos por informações para tudo saber e acabar com os imprevistos; os inseguros que tremem e mal conseguem falar dos seus medos; os que temiam o parto domiciliar mas que, ao final, disseram como se fossem o filho: «papai, eu quero nascer em casa!».

    Uma diversidade de pais em gestação, cada um sentindo no próprio corpo as transformações causadas por aquele ser que está sendo gerado no corpo da companheira.

    Hoje, o pai pode exercer qualquer função na gestação, parto, criação e cuidado com os filhos. Não há um modelo de pai que possamos seguir. Também não disse que este pai é um ser todo-poderoso, que tudo pode e tudo consegue. Pelo contrário, é um homem que entende e assume que não pode tudo!

    E esta é a grande transformação. Por perceber que não pode tudo, surge-lhe uma nova possibilidade: ele pode escolher e executar diversas funções na Gravidez, no Parto e, já com seu filho no colo, no Pós-Parto. Inclusive, pode escolher assumir e escolher o ele que não é capaz de cumprir, respeitando a si mesmo e ajudando a gestante na busca de pessoas que estejam ao seu redor para ajudá-la durante o trabalho de parto.

    Só não dá para amamentar, afinal, Pai não tem leite. Mas já ouvi o relato de um pai que colocava o bebê no seio da mãe enquanto ela dormia, depois fazia o ritual de arrotar e dormir. Mesmo não tendo leite, este pai pode se envolver diretamente com a amamentação. O homem, a partir da sua falta, da sua incompletude, a partir da inexistência das funções obrigatórias de um pai, pode inventar uma maneira sua – própria e singular – de lidar com o bebê. Tal como ouvi de um pai: «então quer dizer que… eu posso inventar um jeito de ajudar a minha filha a dormir?».

    Longe de esgotarmos o assunto, ficou o gosto de Quero Mais!

    Ficou, também, a proposta de criação de um grupo de pais em Porto Alegre para tratar da Paternidade Ativa. Um espaço-tempo para cultivar a singularidade de cada Pai, com consequência em cada casal, em cada parto e cada nova vida que nasce. Proporcionar um espaço para que se crie o Homem-Pai de cada um em cada um. Proporcionar um espaço para que se percebam os limites e as potencialidades de cada um, cultivando o afeto. E porque não dizer, cultivar o Masculino?

    Foi emocionante estar com essas pessoas em transformação, pessoas que se preparam para receber e cultivar as novas vidas que já estão em gestação dentro de seus corpos, mentes e corações. Homem também chora, sente medo e tem coragem. E ama!

    «Boa Hora» a todos os homens e suas mulheres que estiveram neste encontro!

    Texto escrito após o encontro do grupo Parto Alegre sobre o «Papel do Pai».

    27/Mai/2017

  • No Trem d’Écrire

    Eu jogo: alguma verdade a poucas mentiras…

    Há 10 dias conversei, via Messenger, com alguém que nem conheço.

    Tudo começou com esta imagem. E nossa conversa seguiu pelos trilhos de sair dos trilhos e empatias com descobertas do lado de lá e, indo adiante em associação com a análise, com descobertas do lado de cá.

    Esta noite tive um sonho: ela me escrevia.

    «Ana Carolina est en train d’écrire», aparecia.

    Realização de desejo? E porque em francês?Meu Messenger está em Português mas meu WhatsApp em Francês, como a maior parte das minhas coisas eletrônicas.

    Mas porque a troca de aplicativo? «En train d’écrire» é gerúndio, escrevendo, em curso de escrever, um presente contínuo.

    Mas, entrando em outros trilhos, o «train» é trem, comboio, um elétrico talvez, um bonde, bom de…

    A verdade é mentirosa: o trem que trama além do trilho. Um trem que vai, volta, descarrilha, des«train»belha, atropela essa cabeça de dentro como ela sugere. E que nem termina em uma estação pois é incompleto.

    Facades:

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Toc, toc, toc. De quem É?

    Philip Glass.

    What’s up?

    Um elétrico chamado desejo…?

    Verdade ou mentira?

    25/Mai/2017

  • A agressividade e a nobreza da causa

    A agressividade se esconde e se mostra. Por vezes, fazer parte de uma tribo que prega o bem, a bondade e os sentimentos elevados é uma forma de poder exercer a agressividade sem constrangimentos. Afinal, agredir por uma boa causa, por uma causa nobre, por uma causa “para o bem de todos”, é nobre e elevado, o que legitima a agressão.

    Vale notar que o suposto “bem de todos” que aparece nesses discursos e nessas causas normalmente é a causa que favorece quem se propõe a agredir pela causa. Logo, a causa é, principalmente, para benefício pessoal.

    O bicicleteiro quer a faixa de pedestres para ele e agride o motorista de ônibus que, para poder ver o trânsito, parou sobre a faixa.

     

    23/Mai/2017