Categoria: Paternidade e Criação de Filhos

  • Paternidade e despedida

    Ou

    Esboço sobre paternidade e perda #1

    Tento cercar a sensação que tenho: a paternidade tem uma relação direta com a perda. Ser pai é amar algo sabendo da grande possibilidade de que esse algo pode ser arrancado de si facilmente. Ou seja, a paternidade está em relação direta com a perda, com suportar a perda e mesmo assim amar, com sustentar a impossibilidade.

    A paternidade é formada por várias perdas. Inicialmente, a perda da sua companheira no início da vida do bebé. A recém-mãe irá dedicar-se exclusivamente (ou quase) ao recém-nascido. Para tal, o homem pode suportar essa primeira perda, mesmo que temporária, sustentando o laço com a parceira. A sustentação desse laço pode ser facilitada pela criação de um novo laço: o laço desse homem recém-pai com o recém-nascido.

    Todavia, todos sabemos que, em caso de separação conjugal, o mais comum é que o bebé fique com a mãe. Algumas vezes há a guarda partilhada, quando esta é viável. Ou seja, a guarda podequand seo dividida quando os dois membros da parentalidade habitam perto e podem fazer a troca da guarda. Caso contrário, a guarda fica com a mãe. Em condições habituais, haveria alguém que deseja tirar o filho da sua mãe?

    E o pai vira uma visita estranha: não é exatamente uma visita, mas também não é um membro da casa.

    Surge uma outra questão: como fica a relação entre os membros da parentalidade? Será que eles conseguem conviver pacificamente e socialmente (poderia usar civilizadamente, mas prefiro o social) para tornar possível a relação do pai com a criança? E como fica a relação social com a chegada dos novos parceiros, principalmente o novo parceiro da mãe? Como será a relação do pai com o novo casal que tem a guarda da criança? E vice-versa?

    Com sorte, tudo funciona bem. Sobre sorte, refiro-me às construções possíveis entre as pessoas envolvidas, aquelas construções que cada um faz internamente, principalmente o pai. A Psicanálise, como um espaço de construção, pode ajudar nesse caminho de criação, que é árduo…

    Sem a sorte-trabalho, tudo pode ficar complicado e, não raramente, muito complicado. Por vezes, a única solução possível (e trágica, mas real) é cortar os laços.

    Esta atitude será recriminada por muita gente. Todavia, quem sente a dor da despedida do objeto amado que é afastado de si sem que haja a possibilidade de não afastamento, quem sentiu essa dor sabe que cortar o laço, às vezes, é a única alternativa para continuar vivo e continuar a vida.

    A dor é forte… E como escreveu João Guimarães Rosa: “Como toda alegria, no mesmo momento, abre saudade.”

    Como sustentar o amor mesmo sabendo que essa perda pode acontecer? Como sustentar a alegria do encontro com a abertura da saudade que rasga? É o que o pai precisa fazer…

    O rasgo é dos dois lados.

    – Voltamos a nos ver em 3 anos? 10 anos?

    – Não. Nos vemos em 2 meses.

    – Não pode ser 1 mês?

    – Vou tentar… Mas temos a marca de 2 meses como apoio. Pode ser?

    – Pode…

    – Eu te amo.

    – Eu também te amo.

    O pequeno despediu-se e ficou em casa. Não quis sair. A quem ficou, não foi possível ir novamente à estação ou ao aeroporto. Provavelmente dói. E há a lembrança da dor da despedida anterior. Mas foi uma boa maneira de lidar com a dor – um saber fazer.

    Que se saiba: a dor não é apenas de um dos lados.

    Lleida, Espanha. 28/Jun/2022.

  • Sobre o amor de amizade

    O amor tornou-se meu tema de predileção. Ele apareceu como contraponto para solucionar algumas questões após 2 anos de estudos sobre violência e não-violência.

    A questão que trouxe o amor era saber sobre o que impediria o desencadeamento da violência. A hipótese é que o amor funcionaria como uma borda, um basta, um significante que impede o desamparo que estaria na origem da violência.

    Além disso, ele traz novos ares, produz novas belezas e dá mais leveza. É mais interessante e prazeroso falar de amor do que de violência.

    Quero observar um tipo especial de amor que é o amor da amizade. Este amor que tem um lugar especial na vida de cada um, a característica de ser duradouro e o benefício de auxiliar na estruturação e amarração de um ser.

    Philia e Philos são os amores de amigos. Estes amores estão desvinculados do amor Éros e podem conter o amor Ludus. Philia e Philos são amores que estruturam, que amarram, que mantêm a pessoa numa situação de amparo e com certa estabilidade.

    Éros é o amor erótico, o amor dos amantes, dos apaixonados, o amor que faz o coração disparar, o amor do prazer em compartilhar os corpos. Ludus é o amor do jogo, da diversão, da alegria, o prazer da companhia e do entretenimento em conjunto.

    Éros e Ludus podem dar cores à vida, fôlego, vigor, vitalidade, veemência, alegria. Quando estes acabam ou se desfazem, é Philia e Philos que mantêm a estrutura, a amarração do indivíduo, a rota quando o caminho se fica turvo.

    Pragma é o amor envelhecido, amadurecido, típico dos companheiros em Éros que suportaram o tempo. É um amor que se desenvolve com o tempo. É a transformação de Éros no tempo. Éros deixe de existir e podemos pensar Pragma como fruto de Éros com algum deus do tempo – que não seja Chronos. Pragma pode ser um amor que estrutura mas só produz seus efeitos estruturantes após algum tempo.

    Para nutrir Filautia – o amor a si próprio, o auto-cuidado, o cultivo de si próprio e do seu jardim secreto – é preciso cuidado e investimento em Philia e Philos. É preciso nutrir estes amores, tanto pela própria preservação e estruturação, como pelo prazer que estes amores produzem.

    Basta um aceno de cabeça, uma piada, uma chamada, uma mensagem, um “olá” após 2 anos de silêncio. Philia e Philos estão lá e permanecem lá.

    Eis o meu convite a celebrar e nutrir este amor fundamental e estruturante que é a amizade.

  • Ano Red Hot

    Apontamentos sobre o acaso, a contingência e o que pode ecoar.

    Hoje, uma surpresa do acaso conduziu-me novamente à Física, às ondas, às atrações e à mágica dos pozinhos.
    A seguir o fluxo, retomo um fragmento escrito no final de 2018.

    Foi um ano Red Hot.
    Como tudo que sempre lá está, escondido, basta alguém observar que a transformação começa.
    Isso é um dos processos que acontecem na psicanálise: algum saber que não se sabe é desvelado ou mostra-se e, assim, passa a ser mudança e (mu-)dança.
    Alguém aleatoriamente entrou na minha vida – porque na vida, há mais aleatório e acaso do que projetos e planos.
    Esse alguém percebeu que estava lá e avisou-me com uma pergunta sem pretensão: Estás a ouvir Red Hot?

    Desvelado pelo aleatório, torna-se consciência e o processo começa: transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
    Desse transformar e transbordar, faz-se laço com um pequeno outro, pequeno ainda.
    Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se: o pequeno outro também provoca ondas.
    Assim, em ondas, ao redor do processo, um por um é tomado de Red Hot.
    E percebe-se novamente o aleatório e incontrolável a operar na vida.

    Como pode um resquício de som que estava lá no fundo, por um deslize de palavras, afetar tanta gente?
    Como pode uma questão sobre algo incompreensível vindo pelo som afetar muitos outros que estão ao redor?

    A vida de cada um não é decidida e construída pelo cada um… Ela é atravessada pelo Outro da linguagem e pelos outros.
    Tentando dizer melhor, quanto efetivamente nossa intenção determina o que vivemos?
    Tentando vislumbrar melhor, quão pouco nossa intenção efetivamente determina o que se vive…

    Uma pequena ação pode ir em ondas.
    A sua ação sem pretensão fez ondas, seguidas por outras ações sem pretensão e com prazer, cultivo e afeto.
    No início do ano Red Hot era um lugar, uma cena.
    No final do ano Red Hot é outro lugar, outra cena.
    Houve o transformar, transformar, transformar e proliferar, transbordar (como sugere o corretor).
    Do «méchant» faz-se «mes chants».
    Ao transbordar e ao transformar-se, contagia-se.
    Porque há mais acolhimento do aleatório e do acaso do que planos e votos.

    Talvez este fragmento sobre o ano Red Hot ressoe em alguns poucos.
    Há coisas que é preciso fazer sozinho, percorrer sozinho, arrebentar-se sozinho e gozar sozinho – não há como compartilhar ou há apenas a possibilidade de partilha “de atravessado”, por pedaços, por fragmentos, indiretamente.

    De qualquer maneira, algumas pessoas sentiram a suavidade das ondulações do ano Red Hot, algumas pessoas falaram disso, foram tocadas e (co-)movidas por isso.
    E, com o aleatório, nunca saberei o que mais aconteceu e como isso ondulou em outras pessoas e outros lugares.

    No ano Red Hot conjugou-se Amor – sem medo desta palavra e das tantas e diversas situações às quais ela se aplica e se aplicou.

    Sem votos para 2019.
    Mas, se fosse fazer um, seria o voto de acolhimento do aleatório, do acaso e da contingência.

    P.S.: DDB, merci!

    Lisboa, 31/Dez/2018
    Graciosa, 10/Out/2020 (revisão)


    Sugestão de escuta:
    Hard to Concentrate – Red Hot Chili Peppers

    https://youtu.be/bTpVmamEwQo
  • A Caixinha d’Ele ao Vento do Oriente

    Ao pé do Tejo. Café.

    Eles se encontram pela primeira vez.

    Nunca tinham se encontrado, apesar de se conhecerem bem. Eles se falam há aproximadamente 14 anos.

    K tem 20 anos, é do signo de Capricórnio. F tem 45 anos, Aquariana com ascendente em Sagitário.

    Nenhum dos dois mora em Lisboa.

    K esteve na cidade por 5 dias quando tinha 5 anos.

    F viveu na cidade por 7 anos e sempre pensou que esta seria a sua cidade para viver o resto da vida.

    Ambos respiraram o ar do Tejo na mesma época, mas eles ainda não se conheciam.

    K: Então este é o Tejo?

    F: Não é lindo?

    Respiram o ar molhado que vem dessa casa d’água.

    O ar de Lisboa tem um cheiro particular, um beijinho doce, suave, aconchegante.

    K: Estiveste com ele nos últimos dias?

    F: Sim, estive.

    K: Como foi?

    F: Fomos afetados quase ao mesmo tempo. Eu tive febre, ele seguiu outro caminho. Eu saí da cama, ele ficou.
    Ao fim, ele disse: «Eu te amo, vou sempre te amar e vou sempre estar do teu lado.»

    K: Lembro disso. Ele sempre afirmava isso com decisão. Ele parecia inabalável com essa frase.

    F: Eu nunca percebi o porquê desse mantra.

    K: Eu fui perceber mais tarde, quando ele já não podia me explicar.
    Naquela época, eu sempre dizia que ele não estava do meu lado – a tela do telemóvel sempre me enganava.

    K riu.

    Mas na sua infância, o seu ar era desafiador, ar de alguém que tinha a lógica a seu favor.

    Com a pouca idade, ainda não percebia a maravilha que se chama metáfora, a mágica da substituição de uma palavra por outra, a arte de despertar sentidos adormecidos e escondidos.

    K: Acredito que essa frase, repetida durante os 6 anos e meio que a ouvi…
    Vale contar o tempo da barriga?
    Sim… Durante os 7 anos que a ouvi, ela formou a presença que sinto dele até hoje.

    F: Tinha coisas que ele era insistente, era chato inclusive. Ele dizia que tinha «filho em Capricórnio» e isso o fazia continuar a andar, a persistir, prosseguir…

    K: E creio que essa frase produz em mim a sensação de ele está aqui comigo até hoje…
    Ele devia querer isso. Quando falava, ele tinha a intenção de plantar isso.
    Sinto que ele está sempre um pouquinho atrás, sinto sua respiração, um fluxo presente.

    O vento do Oriente.

    À borda do Tejo, no inverno, há neblina.

    Ao andar pela passarela no meio das águas, não vemos a costa, só a ponte por onde anda-se.

    Uma sensação de céu e nuvens perto da água. Um cinza suave, que acaricia.

    Um efeito oceânico num rio que deságua no mar e que evapora nas nuvens e na neblina. Água que entra nos pulmões e que não afoga.

    K: Lembro da história do peixinho que morava na pedra. Era uma pedra dos Açores, uma pedra grande que ia lá no fundo do oceano. Pedra leve mas firme, uma daquelas vulcânicas toda furada.
    Os gases do vulcão ficam presos dentro da lava. Quando arrefece, vira pedra com covas, com bolhas, com furos.

    K: O peixinho morava lá. Ele saía para passear pela água infinita.
    Encontrava a amiga Tartaruga e dizia «Olá, Tartaruga!».
    A Tartaruga respondia: «Olá, Peixinho!».
    «Onde vais, Tartaruga?».
    «Vou atravessar o oceano…».
    E a tartaruga nadava e ficava cada vez mais pequena, mais pequena, mais pequena, mais pequena, pequenina, pequenina, pequenina, e desaparecia.
    E depois vinha a alga, no mesmo processo: nada, nada, diminui, encolhe e some.
    E depois a conchinha.
    E a baleia, tão grandona que fica pequenina, pequenina, pequenina…

    F: Tinha piada: a forma se mantinha mas sempre aparecia um ser inusitado.

    K: Estavas com ele quando ele me contava isso, não estavas?

    F: Sim, estava… Foi o início do isolamento. Eu adormecia, também, como tu.
    Ele tinha paciência para te conduzir, e era suave.
    Quando estavas quase a dormir, tu lutavas com o sono e ficavas agitado.
    Ele continuava com a história, decidido, com filho em Capricórnio. Tranquilamente e lentamente e sonolentamente.
    Quando adormecias, ele ficava acordado a pensar em ti. Algumas vezes ele derramava-se – a distância era quase insuportável para ele.

    K: E no dia seguinte, ele brincava de pula comigo.
    Eu sempre te convidava para pularmos juntos, mas acabamos por nunca o fazer.

    Os cafés chegam com o silêncio que contempla a fumaça.

    O gosto é amargo, o calor é agradável e aconchegante.

    O silêncio continua durante uma chávena e durante o final da fumaça.

    K: Sinto falta dele nesses 13 anos…
    Obrigado por ficares com ele nos últimos dias…

    F: Ele te amava muito!
    Ele só veio para cá para poder trazer-te. Esse objetivo o mantinha vivo ao mesmo tempo que o destruía. Esta era a sua razão, o que lhe mantinha atado.
    Por isso ele não se despedaçava, mesmo que para ele não fosse fácil não se desamarrar.
    Ele queria te trazer aqui porque ele achava este lugar belo.
    Ele gostava da palavra bonito: «Este é o lugar mais bonito do meu mundo!», ele dizia.
    Ele também dizia: «O meu menino lindo fofo…»

    K levanta, recoloca a máscara.
    K pega a pequena caixinha, a caixinha d’ele.
    K se dirige ao Tejo, pela ponte, até o meio.
    K abre a caixinha e ele sai com o vento.

    As águas estão em todos os lugares, inclusive nas gotículas do ar.

    A água faz ficar perto o que está longe.

    Hoje ele já dormirá embalado pelas águas.

    Lisboa, 26/Agosto/2020

  • Apontamentos de Disciplina Positiva 

    O que me deixa curioso na Disciplina Positiva é o termo “Positivo”.

    Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, positivo não indica bom ou mau, apropriado ou desapropriado.
    Positivo tem o sentido de afirmação, de não-negação, de sugerir algo. No lugar da proibição, colocamos a sugestão ou o direcionamento.

    Podemos substituir a negação e a proibição (ação pelo negativo) por uma afirmação, pela sugestão de uma ação positiva e de presença, uma ação afirmativa. Substituir a ação negativa (não qualquer coisa) por aquilo que é possível fazer, que é adequado à situação, que fará com que consigamos aquilo que queremos – mantendo a suavidade e fortalecendo o laço afetivo.

    Faço apontamentos sobre algumas orientações da Disciplina Positiva.

    Criar regras

    A criação das regras pode ser feita junto e em parceria com as crianças. As regras devem atender às necessidades de todos e devem ser seguidas por todos (pais e crianças).

    Inspirar a motivação intrínseca

    Retirar o reforço positivo e negativo, retirar os julgamentos, as recompensas e as punições.

    Assim, as crianças deixam de agir em função de fatores externos como evitar as punições ou conseguir as recompensas. Para dizer de forma positiva, elas passam a gerir suas ações em função de suas próprias vontades e desejos (motivação interna).

    Reconhecer as necessidades

    O mal-comportamento, a agressão e a violência surgem a partir de necessidades não atendidas.

    Pode ser útil reconhecer as necessidades não atendidas das crianças para colocar o foco das ações delas nesse reconhecimento. O reconhecimento das necessidades também pode ser útil para orientar as ações e as estratégias tendo em vista a satisfação das necessidades.

    Assim, trocamos as nossas ações que visam inibir o mal-comportamento por ações que buscam satisfazer as necessidades que a criança precisa.

    Entender o significado e o sentido do comportamento

    Os comportamentos inapropriados são maneiras de comunicar alguma emoção desagradável.

    As crianças não agem sem uma razão válida e sem uma motivação verdadeira. Se as razões para o comportamento inapropriado forem removidas ou reconhecidas, a criança não terá mais a causa para esse comportamento e mudará suas atitudes.

    Redirecionar o comportamento inapropriado

    Os pais podem sugerir ações ou direcionar o pensamento da criança para ações que sejam positivas e que atendam às necessidades da criança. Positivas: que sejam apropriadas e, ao mesmo tempo, que sejam afirmativas, diretas, sem serem antecedidas por negações (não bata, não brigue, não grite).

    Construção consciente da disciplina

    Desenvolver a disciplina com as crianças no lugar de aplicar disciplina a ela.

    A sugestão é observar as situações para elaborar maneiras de gerir as emoções e os comportamentos. Ao evitar a imposição de comportamentos e formas de agir, possibilitamos que as crianças elaborem formas de gerir as suas emoções e as suas atitudes de maneira mais consciente, mais criativa e mais autónoma.

  • Sobre limites e palmadas

    Carta a um amigo

    Querido,

    Percebo e compartilho da tua preocupação com o facto de que é preciso dar limites às crianças. Também compartilho da tua preocupação com a ação dos pais.

    Não consegui ser conciso nesta carta pois os limites na educação dos filhos é uma questão importante para mim. Creio que os limites devem ser colocados da maneira mais eficiente possível, pois disso depende a habilidade de convívio social e, principalmente, a manutenção da vida da criança.

    O que chamamos de limites é algo fundamental, algo que é da ordem da transmissão da cultura. Vejo a cultura como um conjunto de ferramentas que nos ajudam a viver a vida, um conjunto de regras, de mecanismos e de informações facilitadoras da nossa vida e fundamentais para a manutenção da nossa vida.

    Os tipos de limites.

    Consigo observar 2 tipos de limites. O limite real é aquele ligado aos factos reais, da natureza, do mundo, os quais não conseguimos mudar. Um grande exemplo é a gravidade. Uma criança não deveria pular de cima de um armário, pois cairá no chão e irá se machucar. Para a manutenção da própria vida, esse limite deve ser respeitado.

    Do limite real, surge o limite simbólico. Este é o limite inscrito no plano cultural: uma simbolização, uma conversão em palavras de algo da realidade. Criam-se palavras e regras que nos ajudam na vida e ajudam a criança a lidar com o mundo. Para que uma criança saiba que pode cair de cima do armário, é preciso que ela compreenda o que é cair, é preciso que ela tenha a liberdade de experimentar e perceber com o próprio corpo o que é cair. Esses experimentos se fazem em segurança através das brincadeiras infantis. Jogar objetos ou deixar cair objetos é uma dessas experimentações. Cair torna-se palavra e, assim, pode ser manipulado, compreendido e usado pela criança.

    O limite simbólico faz-se a partir disso: a criança começa a ter símbolos que a ajudam na compreensão do mundo, a perceber o funcionamento do próprio corpo e do mundo através desses pequenos combinados e acordos vindos das palavras. As palavras ajudam-na a viver no mundo: «Não ponha a mão no fogo, pois o fogo queima». Para que criança entenda o que é «fogo queima» e evite tentar tocar o fogo, é preciso que ela saiba que queimar é uma experiência ruim e desprazerosa. Caso contrário, ela pode desconfiar que queimar é algo prazeroso e ficará com vontade de experimentar – o mal entendido é estrutural.

    No limite simbólico também residem e se solidificam os combinados sociais, a moral, a forma de agir em sociedade. Não se grita em espaços públicos, não se bate em ninguém (a menos que seja para se defender e preservar a própria vida ou a vida da criança, mas apenas o necessário para isto). De uma certa forma, para tratarmos das regras sociais, o limite simbólico tem uma parte formada pela invenção e já não é um limite baseado nas leis da natureza (imutáveis, a princípio) e do corpo. O limite simbólico apoia-se nas regras de convivência que são combinadas entre as pessoas e essencialmente mutáveis ao longo do tempo.

    Assim, o limite simbólico tem duas partes: 1) a primeira parte é para auxiliar na percepção da natureza e do mundo que nos rodeia (incluindo o próprio corpo) para que seja possível manejá-los e manter a própria vida; 2) a segunda parte é a invenção e os combinados de regras para se viver em sociedade, para que as vontades de todos possam ser minimamente respeitadas e atendidas, para que as pessoas se machuquem o mínimo possível.

    Resumindo:

    1. O limite real é o limite da natureza, o limite do mundo, o limite do corpo no mundo, o que se apresenta de forma imutável e que pode pôr a vida em risco.
    2. O limite simbólico é um limite criado através das palavras. Tem duas partes:
      1. Uma parte são as palavras e os conhecimentos que servem para nos ajudar a lidar com o mundo, que nos permitem a mediação entre nós e o mundo, que nos permitem manipular e usar o mundo para a nossa vida.
      2. A outra parte firma e funda os pactos sociais, as formas como nos portamos, molda os comportamentos que temos em sociedade.

    Função dos pais.

    Para começarmos a andar em direção à palmada, proponho pensarmos a função dos pais (avós, tios, irmãos, professores e Estado na sequência da vida) na construção desses limites.

    Visto que o limite simbólico serve para perceber o limite real e é a ferramenta que temos para lidar com o mundo real e o mundo social, a função dos pais neste contexto é transmitir o limite simbólico aos filhos. Os pais transmitem o limite simbólico no qual, também, estão inseridos. Transmitem o limite simbólico que construíram para si, que adotam para si e que estão familiarizados. Vale lembrar que o limite simbólico é feito por palavras, pela fala, por conceitos, por aprendizado.

    A função dos pais é construir e transmitir esse limite simbólico, dar ferramentas à criança para que, aos poucos, ela possa começar a gerir-se sozinha no mundo, a controlar o próprio corpo, a lidar com os próprios sentimentos. Enfim, a função dos pais é dar ferramentas para que a criança possa fazer sozinha o que lhe é fundamental à preservação da vida (e um pouco mais para satisfazer o desejo). Para se atingir esse «gerir-se sozinha» (independência), é preciso que a criança aprenda palavras (significantes), aprenda conceitos, aprenda conteúdos e os vivencie. É preciso que algum saber se solidifique na corporeidade da criança para que ela possa manejar esse simbólico através do seu pensamento. Este saber se faz, também, pelo limite simbólico. Espero que até aqui eu esteja a fazer algum sentido para ti.

    E como a palmada contribui?

    A palmada tem efeito direto no corpo, na sensação do corpo. A primeira coisa que a criança recebe com a palmada é o contato. Como normalmente é um contato forte, ela sente o impacto, o desconforto e a dor do contato forte no corpo. Isso é semelhante a qualquer impacto, a qualquer batida na quina da mesa, a qualquer batida de cabeça na porta do armário suspenso.

    Logo depois do contato, vem a sensação de alerta: o corpo da criança é invadido por uma sensação real de desconforto que a leva a um estado de alerta. Normalmente a cena da palmada continua com os gritos de quem deu a palmada e, possivelmente, com uma separação – «vai para o teu quarto pensar!» ou «já para o castigo!».

    Como se pode perceber, a cena da palmada é uma cena de eventos, de fatos que acontecem em sequência. Uma cena no âmbito do real: uma série de eventos. Vimos que a função dos pais é construir o limite simbólico, ensinar palavras e nutrir a criança com ferramentas para que ela possa gerir-se sozinha no mundo.

    As minhas questões são: em qual momento da cena da palmada (real) aconteceu a construção do limite simbólico? Em qual momento a palmada contribuiu para criar palavras, conceitos e conhecimento na criança? Em qual momento houve a conversão do real que invade o corpo da criança em algo que ela possa manejar nas próximas situações da vida?

    Apesar de conseguir a completa atenção da criança naquele momentos – sim, a palmada invade o corpo e a criança pára de fazer tudo o que estava fazendo -, não consigo captar o momento em que a palmada faz a construção do limite simbólico. A palmada veio na tentativa de ressaltar e marcar que a criança fez algo errado, algo que não deve ser feito. Para que a criança perceba que fez algo de errado, isso precisa ser convertido em palavras, em conceitos (simbólico). De onde observo, na palmada não acontece o processo pelo qual o erro da criança passa a ser algum conceito que ela pode relembrar no futuro, um conceito que a ajude a agir diferente na próxima vez.

    Qual seria a reação da criança frente ao susto e à dor da palmada? Qual seria a nossa reação, como adultos, ao receber uma palmada? Qual era a nossa reação como criança ao receber uma palmada?

    Será que sozinha ela consegue criar palavras e perceber o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que no castigo ou no quarto sozinha ela conseguirá perceber sozinha o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que sozinha a criança conseguirá construir o conceito e tirar as conclusões da cena da palmada para construir o seu limite simbólico?

    Será que sozinha…

    E aqui eu vejo o ponto mais importante: a palmada provoca uma ruptura na ligação afetiva e no companheirismo entre os pais e as crianças. A palmada insere uma dimensão de dor e estado de alerta, estado provocado intencionalmente pela pessoa que é o suporte afetivo, emocional e de cuidado da criança. De onde vinha amor, repentinamente explode uma ação que provoca dor e desconforto. De onde vinha ligação (a ligação mais forte da criança), vem uma ação de separação. Da pessoa que antes dava proteção (a relação de proteção mais forte da criança), vem uma ação intencional que provoca dor e alerta.

    O quanto a palmada contribui para uma relação de confiança da criança com os pais? O quanto a palmada contribui para a sensação de segurança, de estabilidade emocional, de garantia de suporte e auxílio à criança que ainda não tem as ferramentas para se manter viva sozinha? Será que a palmada não interfere na ligação e no laço afetivo entre os pais e os filhos?

    O que mantém os laços entre as pessoas?

    Na sua carta ao Einstein, em resposta a um pedido do próprio Einstein, Freud aponta que, para que as pessoas permaneçam juntas, precisam de duas instâncias agindo em conjunto.

    A primeira é a instância da lei, do social, das relações sociais e das funções: pai e filhos, mãe e filhos, avós e crianças, pais e avós, professor e aluno, marido e mulher, chefe e empregado. São todas funções. E as funções sociais acabam por retirar o pessoal de cada um, reduzir a subjetividade (elimina o sujeito) a favor da função: faz uma violência. Ao mesmo tempo, a instância da lei funciona como um limite simbólico (para os adultos), os combinados sociais que limitam as ações das pessoas, que organizam as estruturas de comportamento e de relação, que funcionam como um guia indicando, principalmente, o que não se deve fazer: protege da violência.

    A segunda instância é o laço afetivo, os laços de afeto e amor, as relações de cuidado e carinho, os sentimentos. Sabemos que os sentimentos ligam as pessoas. Também vale, aqui, as relações de identificação cultural: compartilhar os mesmos gostos, ter afinidades e atividades em comum, gostar do mesmo time de futebol ou da mesma banda, tocar o mesmo instrumento, dançar o mesmo estilo de dança, gostar da mesma comida.

    Essas duas instâncias, como Freud sugere, devem acontecer ao mesmo tempo. As relações se sustentam de maneira mais estável e duradoura se as duas instâncias estiverem a agir ao mesmo tempo. E elas fazem suplência e apoio uma à outra. Cada uma delas sozinha não é estável o suficiente para manter as relações. Elas são instâncias que estão sujeitas a modificações e a se desfazerem: o afeto sustenta o laço quando a lei não regulamenta suficientemente; a lei faz barreira e limite (simbólico) quando o afeto falta.

    Sendo assim, as relações entre pais e filhos precisam dessas duas instâncias: afeto e funções. E elas devem ser dos dois lados: os pais nutrem afeto, amor, carinho e cuidado pelos filhos ao mesmo tempo que assumem a sua função de cuidadores responsáveis pela manutenção da vida e formação desse indivíduo pequeno; a criança nutre afeto, amor, carinho e cuidado pelos pais e, ao mesmo tempo, reconhece os pais como aquelas pessoas que garantem sua sobrevivência, sua integridade física e mental, seus cuidados básicos e atenção.

    Quais podem ser os efeitos da palmada nas duas instâncias que mantém os laços entre as pessoas?

    A pensar nessas duas instâncias colocadas por Freud, podemos observar os possíveis efeitos da palmada, com base no que apontamos anteriormente.

    No campo da primeira instância (os laços de lei e função social), instância responsável pela manutenção da integridade física e mental da criança, a palmada contradiz esta instância por provocar dor, desprazer, sofrimento e desconforto. Assim, os pais, que têm a função de garantir o bem-estar da criança, provocam mal-estar, dor e sofrimento na criança. Provocam deliberadamente, conscientemente e intencionalmente esse mal-estar. A criança esperava ser cuidada pelos pais, mas o que ela recebe é uma ação que coloca em risco a sua segurança e integridade.

    No campo da segunda instância, são esperadas ações de prazer, cuidado e afeto. Ao surgir a palmada, de onde era esperado carinho, acolhimento, compreensão, segurança, proteção e educação, vem uma ação agressiva que provoca danos físicos e emocionais. De onde era esperado um suporte emocional, uma ação tranquila e tranquilizadora, um suporte acolhedor e de educação que permite criar ferramentas simbólicas para lidar com as emoções, surge uma ação violenta, de separação, de inquietação, de alerta. Se assim for, a palmada não contribui com essa segunda instância e a confiança é quebrada.

    De onde observo, o resultado da palmada vai na contramão do que é suposto ser a função dos pais, pois provoca o desenlace dessas duas instâncias que mantêm as pessoas próximas e ligadas.

    Mas quando se pode bater em alguém?

    A princípio, bater em alguém deliberadamente é agressão. Bater em alguém só é permitido (pela lei) quando for para defender a própria vida, para manter a própria vida e a própria integridade ou para manter a vida e a integridade do filho (legítima defesa). A legítima defesa só pode legitimar o uso da agressão como defesa quando a pessoa é atacada anteriormente, a agressividade só pode ser usada como defesa a uma agressão recebida ou claramente eminente.

    Será que a criança ameaça a integridade dos pais a ponto deles precisarem bater nela para se proteger e proteger a própria vida? Será que os pais se sentem ameaçados pelos filhos?

    Esta é uma hipótese a verificar. Se assim for, é preciso criar ferramentas simbólicas (culturais) que permitam aos pais não se sentirem ameaçados pelos filhos e, assim, não usarem a agressão como recurso. É preciso criar recursos pessoais que permitam aos pais lidarem com os próprios sentimentos e com os filhos sem se sentirem desamparados e ameaçados. Também é preciso criar recursos sociais que deixem os pais mais seguros, mais amparados e menos ameaçados.

    Mas o que fazer para criar os limites?

    É importantes não confundir firmeza afetuosa com agressão. A palmada é uma agressão, como já vimos até aqui.

    A firmeza é uma espécie de presença consistente e que pode ser extremamente afetuosa, acolhedora, cuidadosa e amorosa. Eu chamaria de presença afetuosa. Ela utiliza palavras e ações que acolhem os sentimentos das criança e, também, constroem as ferramentas para o limite simbólico.

    Muitas vezes, os limites (simbólicos) não são aceites pela criança. Assim, ela vai reagir com ansiedade, raiva e ódio (em legítima defesa?) e todos os outros sentimentos vindos da frustração. Sentimentos legítimos para uma criança, sentimentos que também são sentidos pelos adultos quando são colocados frente a um limite simbólico – adultos sem as ferramentas simbólicas para lidar com a própria frustração.

    Há aquelas situações que tratam de um limite real e que os limites não podem ser flexibilizados para a proteção da vida da criança. Nos casos em que o limite não pode ser flexibilizado, os pais podem usar a firmeza afetuosa. Uma firmeza afetuosa é estar presente, colocar o limite de maneira muito clara e direta, acolher os sentimentos da criança (frustração, tristeza, raiva…). A firmeza afetuosa também pode sugerir outra coisa a ser feita para que a criança possa ter a satisfação e o prazer que buscava com a ação fora do limite. Podemos dizer que esta é uma construção de limites de maneira positiva, de maneira afirmativa. Se a criança queria pular do armário, podemos sugerir jogar um objeto para cima e ver o que acontece com o objeto quando chega ao chão: cair no chão dessa altura deve doer, não? Se a busca era o prazer de saltar, colocamos um colchão no chão e pulamos nele, ou vamos a uma cama elástica ou outra solução dentro dos limites reais e dos limites simbólicos suportados pelos pais.

    É preciso e precioso preservar as instâncias de ligação, tanto a função de pais cuidadores como a ligação afetiva de cuidados e de amor (amor dos pais que se supõe incondicional).

    Limites flexíveis e limites inflexíveis.

    Outra questão que me coloco sobre limites é a possibilidade de flexibilizar e negociar os limites. Ou até a possibilidade de construí-los em conjunto com a criança, baseado nas necessidades e possibilidades reais e nos fatos perceptíveis e imperceptíveis para a criança. Mas isso demanda um pouco de coragem de investigar, refletir e sustentar as consequências e vantagens dos próprios atos.

    Quais são os limites que efetivamente são baseados no real e que não podem ser flexibilizados? Pular de cima de um armário é um exemplo. Quais são os limites que podem ser flexibilizados? Quais são os limites que herdamos socialmente ou herdamos de nossos pais-avós que não são efetivamente limites baseados no real? Quais são os limites herdados que já não fazem mais sentido (por questões históricas, sociais ou culturais)? Quais são os limites que eu quero cultivar e que eu acho fundamentais? E, principalmente, quais são os limites que me auxiliam e me conduzem na direção daquilo que quero cultivar com os meus filhos?

    Os limites são, também, uma questão de escolha. Para isso, precisamos bancar nossas escolhas e decisões e, em muitos casos, reconhecer os nossos limites.

    Se o limite pode ser flexibilizado, flexibiliza-se.

    Se o limite não pode ser flexibilizado, vamos mantê-lo de uma forma firme, gentil e afetuosa, acolhendo os sentimentos desagradáveis dos nossos filhos e ajudando-os a lidar com esses sentimentos desagradáveis. Acredito que o cultivo do cuidado e do afeto seja o mais importante na relação com os pequenos.

    Também podemos pensar em como construir o limite de maneira positiva, não pela negação e proibição, mas pela sugestão e condução. Mas é uma questão para outro momento.

    «Sempre por causa do hábito…» (Camus)

    Não é fácil mudar velhos hábitos. A palmada está na nossa formação e é o limite simbólico que herdamos. Foi com a palmada que fomos educados a educar. Todavia, a palmada não é um limite real, portanto, podemos abandonar a prática da palmada e substituí-la por algo mais eficiente e mais afetuoso.

    Não é fácil criar e sustentar formas novas e formas pessoais de agir, cultivar e viver. Mesmo não sendo fácil, considero importante tomarmos uma posição frente àquilo que faz sentido para cada um, uma posição que favoreça atingir esse particular de cada um, principalmente naquilo que se busca cultivar com os pequenos. E a minha escolha é pelo afeto, carinho e cuidado – o que, para mim, faz parte do amor.

    Há pessoas que também estão neste cultivo, no cultivo de criar formas para lidar com as crianças sem usar a violência. Elas podem nos ajudar nesse percurso. Nós podemos nos ajudar nesse percurso. Não estamos sozinhos. Juntos, cultivar torna-se mais fácil e menos pesado.

    Fica bem.

    Com afeto e cultivo.

    Graciosa, 12/Out/2019

  • Ir Além do Espelho

    «L’amour, c’est donner ce qu’on n’a pas à quelqu’un qui n’en veut pas.»

    Jacques Lacan1

    Ter um filho é uma oportunidade de olhar para si mesmo, um impulso e uma força para fazer as mudanças que sempre desejamos mas que sempre deixamos para trás. Não é incomum encontrar pessoas que, quando descobrem a gravidez, resolvem mudar de casa, mudar a casa, mudar de cidade, mudar de estilo, mudar… Mudar-se de uma maneira geral. Mudar-se para acolher uma outra pessoinha que irá dividir a vida.

    Quando a criança chega, começa a transmissão cultural: tudo aquilo que temos como nossos padrões, hábitos, ferramentas para lidar com os sentimentos e escolhas de vida começam a ser transmitidos. Essa transmissão não se dá simplesmente pela via da educação, como se pretende dizer com «educar os filhos». Essa transmissão se faz por uma via de convívio, de transmissão, de fazer junto, de como fazer com o encontro e no encontro. Ousaria dizer que o encontro dos pais com os filhos provoca a transmissão de uma Ética.

    Frente ao que estamos transmitindo, podemos nos observar e observar o que estamos transmitindo, como estamos transmitindo, que resultados esperamos e conquistamos com o que transmitimos. Todavia, junto com a observação, normalmente vêm os julgamentos e as exigências, inclusive as que herdamos dos nossos pais e da cultura que estamos inseridos. E assim surge a violência: a exigência de amar igualmente os filhos, de tratá-los como se fossem iguais entre si, de julgar o que nossos pais fizeram de certo ou errado conosco, de esconder dos filhos que temos amores de diferentes medidas, de julgar os amores que damos para cada um deles…

    Tomo como ponto de partida o texto «Sobre as diferenças entre os filhos e o amor»2 da psicóloga Pollyana Mendonça. Quero dialogar com esse texto, um texto que me fez pensar e me pôs em movimento para escrever estes apontamentos. Apontamentos não prontos, não fechados que me servem para pensar o que faço e lapidar o que faço.

    Filhos como espelho

    «Se nos permitimos metamorfosear, com olhar atento no espelho dos olhos de nossos filhos, vamos nos descobrindo nas diferenças…»3. Cada filho reflete algo de nós. Se estivermos disponíveis no encontro com os filhos, podemos ter uma ideia do que somos a partir da maneira como nossas ações os afetam. E ainda podemos observar o que as ações desse outros seres nos despertam e como elas nos tocam.

    Ana Thomaz, em «O que Aprendi com a Desescolarização»4, fala de sua técnica de observar as próprias sensações e emoções no seu encontro com as filhas.

    «O que o encontro me deu foi o conhecimento de mim mesma, de algo que estava ali guardadinho.»5

    Essa técnica tem dois momentos.

    O primeiro momento é observar os próprios sentimentos e trabalhar com eles para resolver e liberar os próprios bloqueios antes de se direcionar às filhas.

    «Elas continuavam com o problema delas. Paciência! Elas não tinham uma mãe pronta para entrar em contato com elas, pois eu ainda tinha que entrar em contato comigo. … Esperava isso vir à superfície e liberava, só de vir à superfície você libera.»6

    O segundo momento, já liberada das questões pessoais, ela se direciona ao encontro com as filhas para tratar das questões delas, para acolher as filhas num processo de fluxo livre. Desse encontro em fluxo livre vinham insights que ajudavam-na a se relacionar com a situação, soluções sempre inéditas vindas do contato e do encontro.

    O essencial é a diferença

    «O problema aparece quando nos damos conta, em nós, de sentimentos ambíguos. Quando percebemos as nossas reações diferenciadas diante do comportamento de cada uma de nossas crianças.»7

    Temos o hábito cultural de comparar e, quando temos dois filhos, é comum o uso da comparação. Aí que o problema aparece: a comparação institui um modelo, um certo e um errado, um julgamento. E, assim, estão lançadas as bases para o início da violência…

    Cada filho despertará emoções e sensações diferentes nos pais. Cada filho é uma pessoas diferente e proporciona um encontro diferente. Mesmo sendo irmãos, os filhos terão jeitos diferentes, nascerão em tempos diferentes, com pais em momentos distintos de maturidade ao longo da vida. Inclusive, cada filho terá uma forma físicas particular. Mesmo os gêmeos idênticos darão relações diferentes e experiências diferentes.

    Há sempre o irredutível temporal que cria memórias e sensações diversas. A relação com cada um dos filhos é diferente, criando traços na memória da mãe e construindo a maneira como ela vê, reage e sente cada um dos filhos.

    Cultivar a diferença para que o outro apareça

    «A gente se assusta. A gente se questiona se gosta mais de uma cria do que de outra. A gente sofre com isso. Sofremos porque não queremos nunca que nossas crianças tenham a percepção de amor de diferentes medidas.»8

    É na diferença que nos percebemos como sujeitos. É no contato com o outro diferente que pode aparecer aquilo que é singular em cada um, o que é próprio em cada um, o que é único. Os pais encarnam esse diferente, os irmãos também.

    Haverá sempre diferenças entre os filhos, diferenças fundamentais para que se crie o individual e o pessoal de cada sujeito. Respeitar e acolher essas diferenças próprias de cada serzinho contribui para que a personalidade de cada um possa aparecer, advir e se construir. Ao tentar a igualdade, de uma certa forma desconsidera-se o individual e particular de cada um.

    O essencial é a diferença!

    Considerar a hipótese de que amar os filhos de maneiras diferentes pode ser algo positivo, pois se acolhe o aparecimento daquilo que é próprio de cada um. Mas há outra vantagem em considerar a hipótese de amar os filhos de maneiras diferentes: tornar possível a relação dos filhos com aquilo que o próprio deles cria e desperta nos pais. Tento de uma outra maneira: possibilitar que eles se desenvolvam com o que eles despertam nos pais por serem como são.

    Certamente cada um dos pais agirá de maneira diferente frente ao particular de cada filho devido ao seu próprio particular de pai-mãe. Ao nos relacionarmos com eles do jeito que eles são, fato que nos despertará emoções diversas, eles terão espaço para serem eles mesmos e aprenderem a lidar com as próprias emoções frente aos pais.

    «…provavelmente o comportamento dessa criança espelha aspectos indesejáveis de nós mesmos; ou de nossa criança interior que também pede colo; ou mesmo de nossos progenitores. Cabe a nós conclamar a paciência. Cabe a nós observar bem como é esse espinho que nos espeta, procurando tudo o que possamos ter em comum com ele.»9

    Seria possível ir além de si mesmo e disponibilizar uma maneira outra de acolher o outro?

    Ir além do espelho

    Acima descrevi a técnica que a Ana Thomaz utilizava. A técnica tinha dois tempos: o primeiro é a relação interna; o segundo, a relação externa, a relação com o outro, com os filhos.

    Filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço dedicado exclusivamente ao autoconhecimento. Penso que, para criar um filho, é preciso que os pais se coloquem à disposição dele, coloquem-se em relação para que ele possa se construir a partir do encontro com os pais. Todavia, colocar-se à disposição não é algo passivo e sempre contém uma transmissão, uma transmissão ética que vai muito além do que se educa ou do que se ensina.

    O próprio processo de descobrir-se, pensar-se como pai-mãe e pensar-se como sujeito no encontro com os filhos já é, por si só, uma transmissão, a transmissão de um modo de pensar sobre si.

    «O que elas começaram a ter contato é com uma mãe que se trabalha desta maneira enquanto está enfrentando algum problema. Então eu comecei a perceber que elas estavam entendendo, sem que eu falasse nada, […] que eu faço alguma coisa. […] E eu comecei a perceber que eu estava ensinando indiretamente o processo para elas.»10

    Não é preciso ensinar passo a passo. Os filhos, ao verem os pais no próprio processo, perceberão que algo se passa ali e entenderão esse processo pelo contato.

    «Hoje percebo que o trato diferenciado que minha mãe direcionava a cada uma de suas filhas, não era porque amava algumas mais e outras menos. Era porque cada uma de nós sintonizava com aspectos da personalidade dela muito específicos. Alguns com mais luz, outros mais sombreados. Alguns mais leves, outros mais densos. Alguns mais alegres, outros mais dolorosos. E todos importantes de igual maneira para o nosso crescimento familiar».11

    Retomo que os filhos não são um espaço terapêutico, nem um espaço exclusivo de autoconhecimento. É preciso ir além de si mesmo e da observação de si, colocando-se à disposição para que o outro possa advir. É preciso uma maneira de acolher a singularidade e individualidade de cada filho para ajudá-lo a nomear-se, ajudá-lo a criar ferramentas simbólico para tratar dele mesmo, das suas emoções, das suas sensações e das suas atitudes.

    É preciso ir além do espelho!

    O que se manteria igual para todos os filhos?

    Ir além do espelho é permitir que uma outra instância se instaure, que uma outra forma de estar apareça. Esta outra forma de estar eu chamaria de «Escuta Empática», um tipo de escuta e presença que acolhe o singular de cada filho sem julgamento, que acolhe o diferente de cada um para que o diferente de cada um possa se desenvolver. É uma escuta em que os pais se colocam com a atenção voltada às necessidades, pedidos e desejos dos filhos.

    «Empatia é a capacidade de observar e estar presente sem concordar ou discordar.»12

    Assim é como Dominic Barter define Empatia, uma escolha consciente que experimenta os limites da capacidade de entendimento na comunicação. Assim, a «Escuta Empática» seria uma escolha consciente de sustentar uma posicionamento de escuta frente ao outro na tentativa de remover os bloqueios para a ação.

    Ir além do espelho é estar fora dessa relação pessoal onde o espelho refletiria o que supostamente se é, estar fora do jogo violento de julgamento sobre o que estou fazendo como pai-mãe e da observação especular de quais são as emoções que isso desperta em mim.

    Ir além do espelho é colocar-se na escuta do outro. Na medida do que é possível, é colocar-se dentro da lógica do outro, colocar-se à escuta do que o outro busca nele mesmo e nas relações com os demais.

    Atravessando o espelho

    Nesse encontro de Escuta Empática se faz a transmissão, o que neste momento considero o fundamental da função dos pais: transmitir aos filhos as ferramentas para que eles lidem com as próprias emoções, com as próprias sensações, com os próprios medos, pensamentos, conflitos, sombras, angústias, desejos, ânsias, vontades, gozos…

    Enquanto o pai-mãe estiver dentro de si mesmo e enrolado com as imagens criadas frente ao espelho, acredito que terá uma certa dificuldade de perceber o que se passa dentro dos pequenos (ou grandes, às vezes), o que está lá dentro e quais são as ferramentas que podem ajudar na construção do que está lá dentro.

    Talvez isto seja aquilo que se pode dar de igualdade para todos os filhos: um espaço onde cada um deles pode se mostrar e ser na sua singular, um espaço para ouvir e acolher o que há de mais diferente em cada um deles, para ouvir e acolher o que há de singular.

    A Escuta Empática é uma proposta de ir além do espelho…

    Seria esta uma manifestação do Amor?

    02/Jun/2018

  • O Relógio de Peixinho e o Motor que Estraga

    Entro na sala e me deparo com duas pessoas engalfinhadas e uma grande barulheira.

    De um lado, um menininho de 4 anos puxando aflito o seu braço e falando desesperado: «Vai entrar na água, Mamãe!»

    Do outro lado, a mãe agarrando o braço do menininho dizendo: «Não vai entrar na água. Solta isso! Solta isso!».

    Submersos no puxa-puxa, os dois falam sem parar. E o volume começa a aumentar.

    Só se puxam e se agarram e se puxam e se empurram e se agarram…

    Tento um grito para começar a conversa:

    – Ei! Algum de vocês dois consegue me ouvir?

    Os dois param…

    Olham-me assustados com os olhos arregalados…

    Alguns segundos de silêncio…

    Parece que me escutam.

    O grito é a forma mais eficiente de conseguir a atenção de alguém. Sua eficiência se faz apenas nos primeiros segundos, depois desse tempo, ele transforma-se numa das piores maneiras de se comunicar. Reajusto o tom da voz:

    – Vocês dois estão brigando, é isso? Que tal vocês falarem um para o outro o que querem?

    Nesse tempo eu percebo que há um relógio no meio deles. Um pobre relógio que é agarrado por duas mãos. Essas mãos o disputam, uma em cada ponta de seu corpo, esticando-o para que ele escape das garras do adversário.

    Resgato o coitado que agora pode repousar sobre a mesa, um merecido descanso após sofrer sem dó nem piedade nas garras desses dois sangrentos adversários. Começo pelo Pequeno:

    – O que você quer dizer à Mamãe? Porque você quer levar o relógio para o banho?

    – É que… É que… olha aqui…

    Gaguejando, o Pequeno se desloca na direção do relógio e tenta pegá-lo. Suavemente recoloco a questão sem o objeto.

    – Mocinho, tenta falar porque você quer levar o relógio para o banho.

    – Papai, é um relógio de peixinho. Quero levar o peixinho para o banho.

    Ouvindo isso, a mãe pega o relógio, olha atentamente com a testa franzida e dispara:

    – Não há peixinho aqui! Ele vai estragar. Olha aqui, ó, estraga, estraga se for para o banho!

    – Mas Mamãe, é que, é que…

    O relógio é de um super herói qualquer, só tem as cores e o nome do personagem. A Mamãe tem alguma razão: nada de peixinho…

    Eu volto a escutar o Pequeno, tentando empatizar com o seu mundo para perceber as suas necessidades e vontades.

    – Então tem um peixinho no relógio? E o peixinho gosta de água, é isso?

    – Sim, Papai. Ele gosta de água. E eu gosto de levar o peixinho para a água. Quero levar o peixinho para a água, quero que ele tome banho comigo.

    Verifico se recebi a mensagem que ele me enviou. Apenas redireciono o que ele me disse:

    – Hum, você quer tomar banho com o peixinho!

    Ele sorri.

    Me pareceu que eu havia compreendido a mensagem do Pequeno. Me pareceu, também, que ele se sentiu reconhecido. Seu sorriso me levou a crer que os seus sentimentos estavam sendo ouvidos e levados em conta.

    A Mamãe mudou o olhar. A sua testa já não estava franzida. Me parece que ela voltou a ouvir o filho. Me parece que ela entendeu o que o seu Pequeno queria fazer. Desconfio que ela tenha começado a ver o peixinho no relógio…

    – Acho que a Mamãe também entendeu que você quer levar o peixinho para a água. Agora vamos ouvir a Mamãe? Vamos perguntar porque ela não quer que você leve o relógio para o banho?

    De uma maneira suave e carinhosa, da maneira sublime que a Mamãe é capaz de fazer, ela pega o relógio na mão:

    – Aqui dentro do relógio de peixinho tem um motorzinho. O motorzinho estraga se for na água.

    O Pequeno adora motores. E adora desmontar motores. E adora motores de carros, de motos, de escavadeiras, de aviões, de relógios… ele adora relógios, livros de relógios, sons de relógios, o Big Ben. O Pequeno também adora números… Então ela continua:

    – Está vendo esses números aqui no relógio de peixinho? É o motorzinho que faz os números. Se for na água, o motorzinho estraga e os números desaparecem.

    Ela faz uma proposta-pedido:

    – Vamos deixar o relógio aqui fora para o motor não estragar e continuar fazendo os números?

    O Pequeno sorri para sua Mamãe.

    «Sim, Mamãe!» é a resposta.

    Ele larga o relógio na mesa, vira as costas e sai correndo para o banho.

  • Tem que Ser

    Mandando uma mensagem à mãe do meu filho, para pensamos sobre as supostas «teimosias» do nosso pequeno, me deparo comigo tentando me livrar da expressão «tem que»: tem que vestir a roupa, tem que comer, tem que sair agora…

    No livro «Comunicação Não-Violenta», Marshall Rosenberg pensa a expressão «tem que» ou «ter de» como parte do que ele chama de comunicação alienante da vida.

    «Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.»

    Primeiro, esta expressão instala uma instância que julga e que ordena, que impõe um certo e um errado independente da situação. Um ponto importante na Comunicação Não-Violenta é evitar «julgamentos moralizadores», ou seja, tentar observar sem  julgamento de certo e errado. O «julgamento de valor» depende de um determinado contexto e de uma determinada situação, situação que não é estática e que só acontece naquele momento e naquelas condições.

    Segundo, esta expressão desresponsabiliza quem toma a ação, como se houvesse algo pré-definido para acontecer, como se as vontades em jogo naquele momento devessem ser excluídas para que esse algo pré-determinado aconteça.

    Todavia, mantêm-se uma certa ordem, uma diretriz, um guia ou alguns parâmetros pessoais de conduta. É preciso ter um direcionamento, só que esse direcionamento é uma escolha responsável, uma escolha de conduta feita de maneira consciente (na medida do que é possível). A expressão «tem que» desresponsabiliza frente à escolha, a escolha não é feita, não há a escolha com o «tem que».

    Durante a mensagem, consegui articular o que queria usando a expressão «é assim que escolhemos e é assim que vamos fazer». Não há a obrigação do «tem que ser», há uma escolha autêntica: «escolhemos assim e assim vamos fazer». O Marshall sugere utilizarmos a expressão «eu opto por fazer isso porque desejo algo com esta ação».

    Essa escolha pode ser um acordo entre os pais e as crianças ou uma escolha isolada dos pais.

    Sim, ao assumirem a função de cuidadores, os pais precisam fazer escolhas que, em alguns momentos, podem contrariar as vontades das crianças ou mesmo fazer escolhas que parecem autoritárias.

    Aqui reside a diferença: os pais escolhem cuidar dos filhos e escolhem tomar as atitudes. Não há o «tem que ser» das expressões «os pais têm que ser autoritários e impor limites» ou «os pais têm que ouvir os filhos». Substitui-se o «tem que» pela escolha que os pais fazem de cuidar dos pequenos, com total responsabilidade pelos atos e escolhas, com a liberdade (na medida que lhes é possível) e com a clareza que têm para tomar as suas atitudes.

    Assim, a decisão que pareceria autoritária, vinda de um lugar não identificado e externo a quem decide, transforma-se numa decisão própria de quem decide, uma decisão por fazer algo porque se deseja alguma coisa. «Por nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis», diz Lacan. E Jorge Forbes completa: «’Sempre’, diz ele, não de vez em quando ou dependendo da intenção, do conhecimento ou de qualquer outra variável. Se o sujeito é sempre responsável, não haverá sujeito sem responsabilidade.»

    Seria possível não ser autoritário?

    Vêm dois apontamentos, duas diretrizes:

    Se a decisão pode mudar ou ser flexibilizada para atender às vontades das crianças, o que impede de fazer um novo acordo com os pequenos? Porque não ouvir e acolher a voz dos pequenos?

    Se a voz dos pequenos não pode ser acolhida por alguma razão que os pais sabem (como a segurança e integridade dos pequenos), que os pais tomem a decisão. Todavia, é preciso verificar se é a voz do «tem que ser» ou se é a voz dos pais quem está tomando a decisão!

    Se, por escolha, a decisão pode ser flexibilizada, tudo bem: escutemos os pequenos.

    Se, por escolha, a decisão não pode ser flexibilizada, tudo bem também: aplica-se a ação mesmo a contragosto dos pequenos – com acolhimento aos sentimentos de contragosto e frustração dos pequenos.

    O que não pode é a falta de escolha, a desresponsabilização pelas atitudes. O que não pode é o «tem que ser». Finalizando (e brincando), a responsabilidade «tem que ser» de quem escolhe.

    Como nos diz Sartre, o que não é possível é não escolher: «a escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.»

    06/Abr/2018

  • Chorar para aprender a dormir?

    A hora de dormir sempre é um pesadelo acordado. Como lidar com o choro dos bebês na hora de dormir? O tema é amplo mas é preciso partir de algum lugar.

    Introdução

    Eis um começo: qual é a forma de comunicação que um bebê tem com o seu cuidador?

    Como ele manifesta que algo não vai bem?

    Qual é a ferramenta do bebê para pedir comida, pedir carinho, avisar que está com dor, avisar que está com sono, avisar que algo vai mal, avisar que está com medo, avisar que está inseguro, avisar que está com frio, enfim, dizer que precisa de ajuda?

    Se você respondeu choro, concordamos neste aspecto.

    Se você respondeu outra coisa, me conte pois quero descobrir novidades.

    A condição humana

    O choro é a manifestação de que o bebê precisa de algo. O bebê humano está inteiramente dependente de alguém que o proteja e que supra as suas necessidades fundamentais para que sua vida seja mantida. Não somos girafas que já nascem andando e aprendem rapidamente a comer grama. Na Psicanálise, o choro é fundamental na aquisição da linguagem, da comunicação, da construção psíquica, ou seja, na transformação deste bebê em humano.

    O anúncio do problema

    O choro é a principal ferramenta das necessidades de um bebê que podem acontecer a qualquer hora do dia ou da noite. Tal como um adulto: quem nunca levantou de madrugada para comer algo? Quem nunca acordou no meio da noite querendo um abraço gostoso e quentinho? Quem nunca ouviu um barulho estranho durante a noite e se assustou?

    A chegada do problema

    Há vários manuais e livros ensinando a fazer o bebê dormir, muitas teorias, estudos científicos, conselhos, consultores. Alguns dizem que devemos deixá-los chorar para que aprendam a dormir sozinhos. Até se dizia que os franceses deixavam os filhos chorarem para aprender a dormir – bom, posso garantir que não foi bem assim que meus amigos franceses fizeram!

    Se o choro é uma tentativa de comunicação, o que acontece se não atendemos, se não damos atenção e deixamos o bebê sem amparo?

    O bebê chora pedindo ajuda. A ajuda que sempre chegava não chega. Ele continua chorando e a ajuda que era esperada não chega. E ele chora mais e a ajuda ainda não chega e chora mais e ela não chega… até que ele cansa e, exausto e desamparado, dorme.

    A primeira derrota do protagonista pequeno

    Não, ele não aprendeu a dormir sozinho! Ele chorou tanto que está cansado, desistiu de pedir ajuda. Foi uma grande batalha que gerou uma grande quantidade de estresse (adrenalina, cortisol e tudo mais). E isso se repete por vários dias, sistematicamente.

    Numa pesquisa rápida à Wikipédia: «a exposição de longo prazo ao cortisol resulta na danificação das células do hipocampo. Este dano leva à diminuição da capacidade de aprendizagem.» Agora uma pergunta um pouco séria: quais são os danos deste choro no desenvolvimento do bebê? E esta é apenas uma parte do negócio…

    A primeira derrota do protagonista grande

    Como você se sente deixando seu filho chorar até cansar e dormir?

    Será que você não fica minimamente angustiado?

    Será que o choro não te incomoda ou provoca uma leve descarga de adrenalina?

    Será que você não chora junto, mesmo que «por dentro», afinal «homem não chora!»?

    O sentimento de culpa e arrependimento

    Há mesmo uma grande razão para não amparar o choro do seu bebê?

    Há mesmo uma grande razão para negar um pouco de cuidado a uma pessoa querida que chora?

    O que você faria se uma pessoa que você gosta muito estivesse chorando? Você a deixaria sozinha chorando para que «aprenda» sozinha a lidar com a situação?

    O que dizem os seus instintos de pai (ou mãe)?

    Que tal acreditar um pouco nessa beleza que a natureza e a cultura nos deram: comunicação, choro, fala, linguagem, afeto, carinho, cantigas de ninar, cuidado!

    A solução desponta (com música de esperança)

    Está pesado? Está duro?

    Mas lá no horizonte o sol brilha em forma de soluções!

    A primeira é acreditar em você, nas suas sensações, nas suas vontades, nas suas busca por informações e por pessoas que te inspiram.

    A segunda solução é colocar o bebê no quarto dos pais e gastar menos energia para atender as demandas do bebê. Consequentemente, o bebê perto otimiza e aumenta as horas de sono dos pais – que já são poucas – e ainda melhora a qualidade do sono: tudo está mais próximo, nítido e suave.

    Berço ao lado da cama dos pais ou a «Cama Compartilhada» são alternativas. Seja qual for a sua opção ou possibilidade, nada é mais fácil e gostoso do que esticar o braço para o lado e tocar no seu bebê…. E dormir com a mão nele fazendo carinho!

    Fiquem tranquilos que eles não irão dormir na cama dos pais até os 30 ou 40 anos. O meu pequeno, no alto de seus 2 anos, já pedia para ir dormir na sua cama. Além do mais, a adolescência chegará, marcará a independência e, também, o espaço privado onde nenhum pai (nem mãe) é bem-vindo.

    O final feliz

    Aproveitem a proximidade, aproveitem o carinho. E deem carinho, e deem afeto, e deem atenção, e atendam aos choros. Empatia com as necessidades dos bebês pois eles são apenas pessoas pequenas.

    E isto não acaba aqui: ainda sobra muito para pensar sobre choro, manhas, birras, ataques, chiliques, manipulações e joguetes das crianças e dos bebês.

    Coda

    P.S.: Recomendo o vídeo «Não Deixe Seu Bebê Chorando para Dormir» do «Paizinho, Vírgula»!

    07/Jun/2017